segunda-feira, 6 de junho de 2016

Angelique - CAPÍTULO II

O Circo

Era uma tarde fria de Setembro.  Mamãe e eu havíamos ido à igreja para rezar pela mãe de uma amiga de família que eu sinceramente não lembro o nome. Estávamos em cinco mulheres: eu, mamãe, Dona Madeleine Mèrgier e suas duas filhas gêmeas, Diane e Desirè.  Papai nos havia deixado na igreja e fora cuidar de assuntos relacionados à nossa fazenda no Sul junto com o senhor Mérgier, deixando conosco a carruagem e pedindo que o esperássemos quando a missa terminasse.

Ao término da missa das 19h fomos tomar um café na doceria que não ficava longe dali, o cocheiro foi orientado a aguardar papai em frente à igreja como ele havia pedido, e informá-lo de que estávamos no café. 

Estava mais quente do que estivera quando saímos de casa para ir à missa, apesar de já estar escuro. Ficamos tomando café e comendo guloseimas durante mais ou menos duas horas. As gêmeas começaram a se entediar, não eram muito educadas, mas afinal que criança com treze anos é educada quando está entediada? Dona Madeleine estava começando a ficar irritada com a chateação das gêmeas.


- Por favor, meninas, não estou mais suportando vocês!

Dona Madeleine era uma mulher de quarenta e poucos anos, mas muito bem conservada, aparentando não mais que trinta e cinco. Mamãe também era bem conservada, tendo quarenta e dois e aparentando apenas trinta. Eu, por minha vez, aparentava quatorze apesar de já ter dezesseis. Sempre fui muito pequena, mesmo tendo algumas curvas, das quais me orgulho muito, minha altura e meu rosto são muito infantis.

Estávamos as cinco já ficando de mau humor por ter de esperar tanto tempo papai aparecer quando notei um cartaz colado no carrinho de pipoca: “Cirque L'étoile de Feu”.

Fiquei imaginando o motivo do nome. E minha imaginação como sempre despertou uma grande curiosidade.

- Dona Madeleine, por que não damos uma passada no circo? – Sugeri instantaneamente sem pensar. Notei que Dona Madeleine ficou indecisa a ponto de recusar, então emendei novamente sem pensar – Aposto que as gêmeas vão gostar, e será uma forma mais divertida de passar o tempo enquanto esperamos meu pai.

Os olhos das gêmeas brilharam no mesmo instante. Fizeram ambas um olhar de súplica para a Dona Madeleine, que olhou para mamãe como que pedindo uma sugestão.

- Imagino que a ideia seja bem apropriada. – Mamãe sempre sabia o que dizer, e como sempre sua convicção cativou dona Madeleine que consentiu.

Pagamos a conta e saímos nos dirigindo ao circo, mais uma vez informando nosso paradeiro ao cocheiro para não preocupar papai e o senhor Mérgier.

Por mais incrível que possa parecer eu nunca havia ido ao circo. Já havia visto alguns espetáculos de rua, mas nunca havia vindo ao local onde o grande espetáculo realmente acontecia. Estava lotado, muitas e muitas pessoas andando de um lado para o outro. 

Quantas barracas! Nunca havia visto tanta comida em um único lugar. E quem diria que o circo ocuparia um espaço tão grande! Há duas semanas todo o lugar era apenas um terreno baldio, e agora comportava inúmeras barraquinhas e uma tenda enorme.

- Aquela tenda é o picadeiro, meu anjo. – Mamãe disse apontando a tenda logo a nossa frente. Pude notar que ela estava se divertindo com a minha expressão de surpresa com o lugar.

Mamãe, minha melhor amiga. Nunca me trouxe a um circo antes porque papai não a deixa sair de casa à noite, e eu menos ainda. Papai jamais viria a um circo só para que eu conhecesse, na verdade ele nunca sai para se divertir, vive para o trabalho e apenas isso. Bem, o azar é dele.

Andamos cerca de meia hora até as gêmeas decidirem que queriam algodão doce. Já havíamos passado pela barraca de algodão doce há muito tempo e Dona Madeleine já estava cansada de andar, na verdade estávamos procurando algum banco para ela.

- Posso levar as gêmeas, se a senhora não se importar. – Perguntando olhando para Dona Madeleine e para mamãe, esperando permissão.

- Ah eu não me importo! Faça essa gentileza sim! – Dona Madeleine disse pegando algumas moedas na bolsinha de crochê e entregando-as a mim – Espero que não se importe, Maxine.

Maxine é o nome de mamãe. Sempre achei seu nome lindo, e ela é a definição perfeita de seu significado. Mamãe me olhou e deu um sorriso carinhoso, é claro que não diria “não” para mim, ela confiava cegamente em mim, e eu nela.

- Angelique,levarei Madeleine até o picadeiro, lá certamente ela poderá se sentar um pouco. – Então mamãe tirou três dos bilhetes que já havíamos comprado de sua bolsa e me entregou – Leve as gêmeas até lá assim que comprarem o algodão doce. E não fiquem andando sozinhas por aí, mesmo sendo um lugar cheio de gente é sempre perigoso três moças bonitas desacompanhadas. – Mamãe falava agora olhando para mim e para as gêmeas, mas tive a impressão de era uma mensagem subliminar para mim, por conta da minha sempre, incansável e incurável, curiosidade desmedida.

Pegue uma mão de cada uma das gêmeas e segui para a direção oposta da de mamãe. Se fossemos rápidas pegaríamos o começo de espetáculo.

Diane e Desirè eram meninas muito doces e gentis, ao menos comigo sempre se comportavam muito bem. Imagino que deva ser pelo fato de que sempre convenço a mãe das suas a sair e a levá-las junto, ou também porque sempre que saio com mamãe às convido. E elas adoram passear.

Não demoramos muito para chegar até o tão desejado carrinho de algodão doce. Diane escolheu o rosa e Desirè o amarelo – cores que meninas tendem a escolher. Eu, por minha vez, escolhi o azul. Sempre amei o azul, e preferia que meus olhos fossem azuis a verdes. Mamãe tem os olhos azuis, e eu os acho lindos.

Ficamos paradas em frente ao carrinho enquanto comíamos e admirávamos um palhaço fazendo animais com balões.

Assim que terminamos peguei as mãos de ambas novamente e seguimos para o picadeiro. Enquanto andávamos vimos todo tipo de pessoa e de ator do circo: mulher barbada, anão, bailarina, palhaço... E ríamos muito de tudo isso. Mal eu sabia que toda a graça que eu achava do mundo logo mudaria totalmente...


***

<<Anterior                                                                      Próximo>>

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou dos textos, participe! Sua opinião é super importante para que melhoremos nosso conteúdo! Seja um leitor ativo!