O Circo
Era
uma tarde fria de Setembro. Mamãe e eu
havíamos ido à igreja para rezar pela mãe de uma amiga de família que eu
sinceramente não lembro o nome. Estávamos em cinco mulheres: eu, mamãe, Dona
Madeleine Mèrgier e suas duas filhas gêmeas, Diane e Desirè. Papai nos havia deixado na igreja e fora
cuidar de assuntos relacionados à nossa fazenda no Sul junto com o senhor
Mérgier, deixando conosco a carruagem e pedindo que o esperássemos quando a
missa terminasse.
Ao
término da missa das 19h fomos tomar um café na doceria que não ficava longe
dali, o cocheiro foi orientado a aguardar papai em frente à igreja como ele
havia pedido, e informá-lo de que estávamos no café.
Estava
mais quente do que estivera quando saímos de casa para ir à missa, apesar de já
estar escuro. Ficamos tomando café e comendo guloseimas durante mais ou menos
duas horas. As gêmeas começaram a se entediar, não eram muito educadas, mas
afinal que criança com treze anos é educada quando está entediada? Dona
Madeleine estava começando a ficar irritada com a chateação das gêmeas.
-
Por favor, meninas, não estou mais suportando vocês!
Dona
Madeleine era uma mulher de quarenta e poucos anos, mas muito bem conservada,
aparentando não mais que trinta e cinco. Mamãe também era bem conservada, tendo
quarenta e dois e aparentando apenas trinta. Eu, por minha vez, aparentava
quatorze apesar de já ter dezesseis. Sempre fui muito pequena, mesmo tendo
algumas curvas, das quais me orgulho muito, minha altura e meu rosto são muito
infantis.
Estávamos
as cinco já ficando de mau humor por ter de esperar tanto tempo papai aparecer
quando notei um cartaz colado no carrinho de pipoca: “Cirque L'étoile de Feu”.
Fiquei
imaginando o motivo do nome. E minha imaginação como sempre despertou uma
grande curiosidade.
-
Dona Madeleine, por que não damos uma passada no circo? – Sugeri
instantaneamente sem pensar. Notei que Dona Madeleine ficou indecisa a ponto de
recusar, então emendei novamente sem pensar – Aposto que as gêmeas vão gostar,
e será uma forma mais divertida de passar o tempo enquanto esperamos meu pai.
Os
olhos das gêmeas brilharam no mesmo instante. Fizeram ambas um olhar de súplica
para a Dona Madeleine, que olhou para mamãe como que pedindo uma sugestão.
-
Imagino que a ideia seja bem apropriada. – Mamãe sempre sabia o que dizer, e
como sempre sua convicção cativou dona Madeleine que consentiu.
Pagamos
a conta e saímos nos dirigindo ao circo, mais uma vez informando nosso
paradeiro ao cocheiro para não preocupar papai e o senhor Mérgier.
Por
mais incrível que possa parecer eu nunca havia ido ao circo. Já havia visto
alguns espetáculos de rua, mas nunca havia vindo ao local onde o grande
espetáculo realmente acontecia. Estava lotado, muitas e muitas pessoas andando de
um lado para o outro.
Quantas
barracas! Nunca havia visto tanta comida em um único lugar. E quem diria que o
circo ocuparia um espaço tão grande! Há duas semanas todo o lugar era apenas um
terreno baldio, e agora comportava inúmeras barraquinhas e uma tenda enorme.
-
Aquela tenda é o picadeiro, meu anjo. – Mamãe disse apontando a tenda logo a
nossa frente. Pude notar que ela estava se divertindo com a minha expressão de
surpresa com o lugar.
Mamãe,
minha melhor amiga. Nunca me trouxe a um circo antes porque papai não a deixa
sair de casa à noite, e eu menos ainda. Papai jamais viria a um circo só para
que eu conhecesse, na verdade ele nunca sai para se divertir, vive para o
trabalho e apenas isso. Bem, o azar é dele.
Andamos
cerca de meia hora até as gêmeas decidirem que queriam algodão doce. Já
havíamos passado pela barraca de algodão doce há muito tempo e Dona Madeleine
já estava cansada de andar, na verdade estávamos procurando algum banco para
ela.
-
Posso levar as gêmeas, se a senhora não se importar. – Perguntando olhando para
Dona Madeleine e para mamãe, esperando permissão.
-
Ah eu não me importo! Faça essa gentileza sim! – Dona Madeleine disse pegando
algumas moedas na bolsinha de crochê e entregando-as a mim – Espero que não se
importe, Maxine.
Maxine
é o nome de mamãe. Sempre achei seu nome lindo, e ela é a definição perfeita de
seu significado. Mamãe me olhou e deu um sorriso carinhoso, é claro que não
diria “não” para mim, ela confiava cegamente em mim, e eu nela.
-
Angelique,levarei Madeleine até o picadeiro, lá certamente ela poderá se sentar
um pouco. – Então mamãe tirou três dos bilhetes que já havíamos comprado de sua
bolsa e me entregou – Leve as gêmeas até lá assim que comprarem o algodão doce.
E não fiquem andando sozinhas por aí, mesmo sendo um lugar cheio de gente é
sempre perigoso três moças bonitas desacompanhadas. – Mamãe falava agora
olhando para mim e para as gêmeas, mas tive a impressão de era uma mensagem
subliminar para mim, por conta da minha sempre, incansável e incurável,
curiosidade desmedida.
Pegue
uma mão de cada uma das gêmeas e segui para a direção oposta da de mamãe. Se
fossemos rápidas pegaríamos o começo de espetáculo.
Diane
e Desirè eram meninas muito doces e gentis, ao menos comigo sempre se
comportavam muito bem. Imagino que deva ser pelo fato de que sempre convenço a
mãe das suas a sair e a levá-las junto, ou também porque sempre que saio com
mamãe às convido. E elas adoram passear.
Não
demoramos muito para chegar até o tão desejado carrinho de algodão doce. Diane
escolheu o rosa e Desirè o amarelo – cores que meninas tendem a escolher. Eu,
por minha vez, escolhi o azul. Sempre amei o azul, e preferia que meus olhos
fossem azuis a verdes. Mamãe tem os olhos azuis, e eu os acho lindos.
Ficamos
paradas em frente ao carrinho enquanto comíamos e admirávamos um palhaço
fazendo animais com balões.
Assim
que terminamos peguei as mãos de ambas novamente e seguimos para o picadeiro. Enquanto
andávamos vimos todo tipo de pessoa e de ator do circo: mulher barbada, anão,
bailarina, palhaço... E ríamos muito de tudo isso. Mal eu sabia que toda a
graça que eu achava do mundo logo mudaria totalmente...
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente o que achou dos textos, participe! Sua opinião é super importante para que melhoremos nosso conteúdo! Seja um leitor ativo!