Indecência
Não havia modo de pregar o olho.
Simplesmente eu não conseguia. Mesmo que eu confiasse em mamãe, não conseguia
esconder de mim mesma esta angústia, este medo horrível de me casar com aquele
homem.
“Eu prefiro a morte a me casar sem
amor!” eu disse a meu pai, e ele rebateu cruelmente dizendo “Pois que morra
você e seu amor, no altar, nos braços de Maurice!”. Não consigo compreender meu
pai. Como ele pôde me dizer tal coisa? Sei que fui impetuosa e arrogante com
ele, mas desejar que eu morra? Não o entendo, e sinto que jamais o perdoarei...
Noite passada ouvi meus pais
brigando mais uma vez. Tem sido assim desde que conheci Michel. Mamãe tem
estado sempre do meu lado, acho que ela criou coragem para enfrentar o homem
que a manteve cativa durante anos. Foi a primeira vez que ele não bateu nela...
Ouvi paços no corredor. Deve ser a
empregada me trazendo algo para comer. Estou horrível e com olheiras enormes,
se meu pai me vir assim não sei o que fará.
Como imaginei era a empregada. Ela
deixou a bandeja de prata sobre a escrivaninha e saiu, trancando a porta
novamente. Nem me dei ao trabalho de olhar para ela, permaneci sentada em minha
cama olhando para o céu azul, tentando encontrar o sol que se esconde atrás das
grades da minha janela.
Tirei o vestido amassado e coloquei
outro mais apresentável. Caminhei até a escrivaninha e me sentei. Me surpreendi
ao notar minhas mãos tremendo quando tentei pegar a xícara de chá – nunca havia
precisado usar as duas mãos antes. O calor da xícara me acalmava um pouco, não
como o colo de mamãe, mas já era alguma coisa.
Comi o quanto pude, mas meu
estômago parecia ter sumido. Não demorou muito para que a empregada voltasse
para recolher a bandeja e me trazer um recado desagradável.
- Senhorita Angelique, o Conde pede
para que desça e faça companhia ao senhor Maurice, que veio fazer-lhe a corte.
Tive que me segurar para não
vomitar o pouco que havia comido no rosto de satisfação daquela empregadazinha
medíocre. Foi ela quem delatou a mim e Michel para meu pai. Só depois pude
perceber que ela é apaixonada por Michel, e que fez isso mais por interesse
próprio do que para me prejudicar de fato.
- Diga a meu pai que desço em dez
minutos.
O sorriso que ela abriu ao ouvir
isso foi igual ao de uma criança que havia recebido o melhor presente no dia de
natal. Foi difícil manter a classe na frente dela, minha vontade era de
estapeá-la até mudar o rosto dela de forma.
Lavei meu rosto com água fria na
espera de conseguir um aspecto melhor, mas não funcionou muito bem. Coloquei um
colar de esmeralda no pescoço na esperança de atrair mais olhares para meu
busto do que para meu rosto. Por sorte o vestido que escolhi valorizava meus
seios e atrair os olhos de Maurice para eles seria uma tarefa fácil.
Desci as escadas me agarrando firme
ao corrimão. Minhas pernas eram feitas de gelatina agora, e não falo isso no
bom sentido. Assim que cheguei ao salão de visitas Maurice se levantou de
sobressalto; imagino se o sorriso dele era para mim ou para os seios que ele
estava comprando, pois ele nem fez questão de disfarçar o olhar. É claro que
meu pai ficou mais do que satisfeito com isso.
- Bom dia bela dama! – Disse
Maurice se aproximando de mim e tomando minha mão, beijando-a e pregando os
olhos mais de perto no meu decote.
Nojo não chega nem perto do que senti
naquele momento. Se eu tinha alguma dúvida de que seria infeliz ao lado daquele
homem, naquele instante ela se dissipou e pude ter certeza de que eu o odiaria
para sempre, e mais ainda a meu pai.
O toque de Maurice era repulsivo,
eu vomitaria sobre ele se mamãe não houvesse aproximado de mim e me beijado no
rosto, afastando a mão de Maurice da minha.
- Bom dia querida. – Ela disse me
abraçando singelamente. Não pude conter o sorriso aliviado e quase chorei com
isso.
- Por que não nos agracia com uma música,
querida?
A voz de meu pai era carregada de
autoritarismo. Eu sabia que aquilo não era um pedido, mas uma ordem. Mamãe me
dissera para obedecer e fazer parecer que eu estava conformada, mas se eu
fizesse isso tão repentinamente certamente meu pai desconfiaria.
- Gostaria de participar da
conversa um momento, e depois se o senhor Maurice desejar, então tocarei.
O olhar de mamãe foi surpreso e
aliviado. Acho que ela compreendeu minha estratégia e a aprovou.
Meu pai me fuzilou com o olhar e
então se sentou.
- Que seja o que Maurice desejar. –
Disse me desafiando e sorrindo cinicamente. Mais uma vez tive que controlar
minha mão para não sair esbofeteando sem pensar.
Maurice sentou-se ao lado de meu
pai e sorriu, entendendo a mão para mim: queria que eu sentasse a seu lado. Não
havia como fugir disso, então eu segurei sua mão e sentei, me arrependendo
muito disso depois.
Mamãe sentou-se ao lado de meu pai,
de frente para mim de modo que podíamos conversar apenas nos olhando. Estávamos
sentados em volta de uma mesa redonda de madeira escura, havia chá e biscoitos
sobre uma bandeja de ouro branco. À minha direita ficava uma porta de vidro, e
depois dela havia o jardim que eu tanto amava.
Com menos de cinco minutos de
conversa meu estômago começou a embrulhar: Maurice estava acariciando a minha
perna. Por mais que eu empurrasse sua mão, ele persistia, e me olhava sempre
com um sorriso devorador. Ele apertava minha coxa e subia a mão até a minha
virilha. Eu não o deixava passar daí, mas não conseguia fazê-lo parar de me
tocar.
Mamãe percebeu logo de cara o que
ele estava fazendo quando eu o olhei espantada, e ela ficou visivelmente
enojada e furiosa, mas isso era algo que apenas eu percebia. Não sei se meu pai
notou a atitude indecente de Maurice, mas se o fez ignorou-a completamente.
As mãos de Maurice começaram a
puxar a barra do meu vestido, e isso me apavorou. Ele puxou até conseguir
enfiar a mão por debaixo dele e tocar a minha pele. Agarrou a parte de dentro
da minha coxa e apertou forte, tentando chegar além da minha virilha. Como não
deixei ele permaneceu com a mão onde estava, mas então eu me desesperei: ele
começou a esfregar a mão na própria calça.
Não tinha como não olhar. Eu estava
chocada demais para disfarçar. Mamãe pegou no ar o que estava acontecendo, mas
mesmo ela não tinha o que fazer por mim. Meu pai chamou a empregada para
recolher o café e trazer uma bebida para ele para Maurice. Suspirei mais
aliviada imaginando que Maurice teria que parar o que fazia para pegar o copo
de bebida.
Mesmo assim ele não parou. Passava
a mão na minha coxa e apertava, insistia em tentar passar da minha virilha, mas
eu não podia deixar que fosse tão longe. Eu ainda olhava sua outra mão
indignada. Ele tomava um gole da bebida e voltava a mão para sua calça, se
acariciando e fazendo com que o volume crescesse cada vez mais. Ele sorria
descaradamente quando me via olhando para o que ele estava fazendo e avançava
tentando tocar além da minha virilha novamente.
Finalmente meu pai se dirigiu a mim
pedindo que eu tocasse para mostrar minhas qualidades a Maurice. Não hesitei me
levantei de pronto. Maurice tentou me impedir beliscando minha coxa e dizendo a
meu pai que já conhecia boa parte de minhas qualidades. Senti nojo ao ouvir
isso, mas não deixei que me fizesse permanecer a seu lado por mais um minuto
sequer.
Caminhei até o piano e me sentei,
tentando esticar o amassado que Maurice deixara em meu vestido. Se mamãe
duvidara do que ele estava fazendo agora tinha plena certeza.
Toquei incansavelmente quatro
músicas, desejando que Maurice se cansasse e fosse embora. Mas ele não o fez,
pelo contrário, de onde eu estava podia ver ele se tocando e olhando para mim.
Mantive meus olhos nas teclas do piano o máximo que pude.
Mamãe passou por mim e deu um
sorriso triste. Certamente meu pai havia pedido que ela se retirasse. Pude
ouvir ele dizendo a Maurice “mas é claro, falarei com ela hoje mesmo” e isso me
apavorou. Terminei a melodia e meu pai me chamou para sentar ao lado de Maurice
novamente.
Sentei segurando meu vestido o mais
firme que pude. Maurice não colocou a mão sobre minha perna novamente, mas dava
para ver que ainda se tocava.
- Maurice me fez um pedido e não
tenho como recusar. Como vocês se casarão em três dias não vejo problema algum
nisso.
Agora meu desespero começava a
aumentar. Algo na entonação do que meu pai dizia denunciava que eu não iria
gostar daquilo.
- Pois diga meu pai, o que o Senhor
Maurice deseja?
Tentei ser o mais educada e cortês
que pude. Não podia deixar que meu pai desconfiasse de nada, mesmo que eu não
soubesse ao certo do que ele poderia desconfiar. Mamãe fez certo em não me
contar nada – no desespero eu abriria a boca.
- Por favor linda Angelique, me
chame apenas de Maurice. Logo seremos casados, não é necessária tanta
formalidade.
Engoli em seco ao ouvir o que
Maurice dizia. Minha vontade foi de gritar que eu jamais seria dele. Tentei
sorrir, mas não sei dizer se obtive sucesso.
- Maurice deseja ficar a sós com
você. Já que irão se casar é preciso que se conheçam melhor, e eu bem sei que
vocês moças gostam de um romance. E não acho que vá ser apropriado eu ficar
olhando enquanto trocam juras de amor. Por isso – então meu pai se levantou da
mesa – deixarei ambos a sós por um momento.
Meu pai sorriu para Maurice e saiu
do salão. Meus olhos acompanharam o trajeto de meu pai até que sua sombra
sumisse na porta, e meu coração tenho certeza de que quase parou neste momento.
Dessa vez Maurice não foi cuidadoso
ao subir a saia do meu vestido, ele o fez velozmente e brutalmente. Não tive nem
tempo para dizer “não”, quanto dei por mim ele já estava com a mão em mim, no
único lugar abaixo da minha cintura que ele ainda não tinha passado a mão.
Ele puxou minha coxa para cima de
sua perna com uma mão, com a outra puxou minha cintura e antes que eu pudesse
empurrá-lo estava lambendo meu pescoço. Não pensei duas vezes antes de tentar
me levantar e empurrá-lo, mas ele era mais forte e estava me encaixando sentada
sobre seu colo, de pernas abertas.
Eu sabia o que ele queria fazer,
mas não conseguia impedir. Estava a ponto de chorar – de raiva, de mágoa, de
arrependimento. Ele impulsionava seu quadril em direção a mim, roçando o volume
da sua calça na minha virilha e na parte mais quente do meu corpo. Segurava meu
quadril com as duas mãos forçando-o a se mexer no mesmo ritmo que o próprio
quadril. Ele puxou minha mão para tocá-lo, mas eu a puxei de volta.
-É assim que eu gosto de foder, e vou
foder você assim todos os dias sua vadiazinha gostosa. Vou foder seus seios e
meter na sua boca.
Não pude acreditar que ele estava
sussurrando aquilo no meu ouvido. Não consegui não chorar depois de ouvir isso.
Ele acelerou as investidas sob minhas pernas e gemeu. Eu sabia o que aquilo
significava e isso só me dava mais nojo. Então ele relaxou e tentou me beijar,
soltando minhas pernas, só então consegui me desvencilhar dele e sair de seu
colo. Não pensei duas vezes antes de subir correndo para o meu quarto. Nunca
desejei tanto ficar trancada nele como desejava agora.
***
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