segunda-feira, 30 de maio de 2016

Angelique - CAPÍTULO I

Lágrimas a Fio

Fechada a porta não havia mais nada que eu pudesse fazer. Caí ajoelhada sem me importar em machucar os joelhos. Mamãe me dizia sempre para ter cuidado e não colecionar cicatrizes, pois os homens não gostam de cicatrizes. Acho que neste momento tudo o que desejo é um monte delas para fazer com que Maurice não goste de mim.

Maurice Régnier não é um homem ruim, sempre foi muito gentil e delicado comigo, nunca deu motivos para que eu o rejeitasse, e talvez minha falha tenha sido não deixar claro para ele que, por mais que não rejeitasse sua companhia, não a desejava em minha cama.

Meu pai é um Conde, ele é muito influente e repeitado, mas só eu e minha mãe sabemos o quão cruel ele pode ser. E é exatamente isso o que ele está sendo agora. Ele prometeu minha mão para Maurice, sabendo que meu coração já pertence à outra pessoa...


Maurice é dono da maior alfaiataria da cidade. Ele é rico, muito rico, e dono de muitas outras propriedades. Sua fazenda é líder na produção de algodão e lã – não é pretensão da minha parte dizer que ele veste literalmente toda a cidade. Ele é um homem maravilhoso, e também velho. Ele tem quase três vezes a minha idade e já teve duas esposas que, incrivelmente, faleceram de causas desconhecidas.

Tenho medo de Maurice, apesar de ele nunca ter feito nada em especial para que eu sentisse isso. Na verdade, só o fato de ele ter sido viúvo duas vezes causa calafrios em toda a minha espinha. Eu sei que há algo de muito errado que o envolve, mas quem sou eu para apontar qualquer coisa? Sou apenas a filha de um Conde que almeja poder e mais poder, pois é apenas por isso que estou prometida à Maurice.

As lágrimas correram de meus olhos sem que eu pudesse contê-las, e na verdade eu nem tentei fazê-lo. Tudo de que eu precisava neste instante era chorar, esvaziar a dor em meu peito. Tenho apenas três dias agora, três dias agonizantes para tentar amar Maurice ,ou pelo menos me convencer de que a vida a seu lado não será tão ruim. Três dias antes de me tornar Angelique Régnier.

Permaneci ajoelhada em frente à porta trancada de meu quarto não sei dizer por quanto tempo, só sei que ouvi o barulho da maçaneta virando e quando ergui meu rosto vi a figura de minha mãe, com os olhos tãoúmidos quanto os meus. Ela trancou a porta por dentro e se ajoelhou em minha frente, me envolvendo em seus braços tão aconchegantes e protetores.

Mamãe estava sofrendo por mim. Ambas estávamos sofrendo e eu sabia disso, mas parecia que a dor dela sempre seria bem maior que a minha.  Ela afagou maus cabelos e tentou silenciar meus soluços. Permanecemos ali por pouco tempo, ela não podia demorar, meu pai a havia proibido de me ver até o dia do casamento. Ele acabara descobrindo que mamãe estava ajudando Michel a me ver.

Michel, meu querido Michel... Acabei desgraçando sua vida... Não fosse por minha curiosidade desmedida jamais o teria conhecido, jamais o teria feito se apaixonar por mim, Jamais teria me apaixonado por ele, jamais teria feito-o sofrer tanto...

Mamão me diz sempre que o amor não é algo que possamos controlar ou conter, que se eu o encontrei em Michel, jamais o encontraria em outra pessoa, e é por isso que mamãe sofre por mim... Assim como ela, estou fada a me casar pelo bem dos interesses de meu pai, e a viver uma vida de rainha sem nenhum amor... Tenho para mim que mamãe amava outro quando foi obrigada a se casar com meu pai. E acredito que é por isso que ela deseja me preservar de um futuro tão ruim...

- Querida ouça-me com bastante atenção agora.

Mamãe secava minhas lágrimas, afagando meus cabelos e me olhando profundamente nos olhos. Tentei conter o ímpeto de chorar mais, pois sabia que precisava ouvir o que ela tinha a dizer.

- Fique bem meu amor, não chore mais, apenas fique bem. Resolveremos isso, custe o que me custar não deixarei que aquele homem a tenha. Não permitirei que sofra mais do que seu pai já a fez chorar.

Engoli as últimas lágrimas e abracei minha mãe com toda a força que eu podia, com toda  a dor que eu sentia.

- Como será possível, minha mãe? O que mais, que ainda não tentamos, podemos fazer para me salvar deste futuro horrível? Que outras cartas podemos jogar?

Percebi um sorriso mínimo nos lábios de mamãe, ela certamente tinha algo em mente, mas só me diria se tivesse plena certeza de que poderia funcionar.

- Apenas faça o que lhe pedi, está bem? Não contrarie as vontades de seu pai. Se lhe disser para comer; coma. Se lhe disser para sorrir; sorria. Se lhe pedir para tocar; toque. Não o responda ou desafie. Haja como se estivesse de acordo com este casamento. Comporte-se bem e não deixe, de modo algum, de dormir e se alimentar.

Pensei alguns instantes no que minha mãe me falava. Ela nunca me decepcionara, e jamais mentira para mim. Tudo o que eu fizera desde sempre fora confiar cegamente nela, e é o que eu deveria fazer agora.

- Se o que estou pensando funcionar vai precisar estar muito bem de saúde para que dê certo. – Disse, agora sorrindo para mim.

Então mamãe se levantou me erguendo junto. Ajeitou os cachos que estavam caindo sobre o rosto, secou as lágrimas e esticou o tecido do vestido bege.

- Não tornarei a vir vê-la até o terceiro dia, para não correr o risco de seu pai notar algo. Os empregados desta casa nos estão vigiando, só posso contar com Monique, e mesmo assim não confio muito nela.

Dei mais um abraço em mamãe antes que ela saísse e me trancasse novamente naquele que um dia fora meu quarto, e hoje não passava de uma cela, com as janelas trancadas e com barras a porta sempre fechada, com empregados do lado de fora, à espreita.

Eu estava com medo, muito medo. Apenas três dias me separavam de minha liberdade ou de minha eterna prisão. Mamãe me pediu para aguardar até o terceiro dia, ser paciente e fazer as vontades de meu pai... Precisava fazer exatamente como ela me pedia, só precisava obedecer e encenar... 


***

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