segunda-feira, 24 de agosto de 2015

VIII

Ele pode ouvir a voz irritada dela.
– Ora, isso são horas? – exclamou.
– Perdão, minha senhora, estamos só cumprindo ordens.
– Certo, mas sejam rápidos, pois amanhã eu preciso acordar cedo. – disse.
Ele ouviu passos subirem as escadas, e a porta do quarto abriu. Era Hélio, um dos guardas que ajudava sua mãe a descer para as masmorras, outro que ele não conhecia entrou logo atrás.
– Olhe debaixo da cama. – mandou Hélio.
– O que estão procurando, afinal? Ratos? – indagou Anita, com raiva.
– Somente uma vistoria de rotina, senhora.
Então eles saíram do quarto e ele pode ver Loren no corredor, olhando como um gato contrariado os guardas revistarem seu quarto. Logo eles se desculparam e desejaram boa noite. Logan esperou que os som de cascos estivessem longe, e então saiu do esconderijo, e olhou pela janela. Eles estavam vendo todas as casas.
– Essa foi por pouco. – disse Anita, entrando no quarto.
– Como você sabia que eles estavam vindo? – perguntou.
– Eu não sabia. Foi Loren quem me disse deles, ela não gosta de se sentir em divida com ninguém e acabou de retribuir o favor que você fez a ela na floresta. – disse e saiu.
Logan olhou para a porta fechada do quarto dela, e fechou a sua, indo se deitar. Talvez não tivesse pegado em um sono pesado, pois às quatro da manhã ouviu o som de uma porta se fechar. Ele abriu a sua e deu de cara com Loren. Ela segurava o violoncelo com uma mão, e parou ao vê-lo. Eles ficaram em silêncio por um longo tempo.
– Obrigado. – disse ele.
Ela fez um gesto simples com a cabeça, e desceu as escadas.
– Espere! – pediu ele e ela parou. – Você vai tocar?
– Eu não devo dar satisfações a você. – disse, mas não de forma grosseira. Então o olhou e suspirou como se estivesse cansada. – Por que quer saber?
Seu olhar era tão profundo que fazia ele se sentir completamente nu. Ele quase podia ler neles as palavras que não saiam de sua boca.
– Não importa, você tem razão. – disse ele, e subiu as escadas, voltando para o seu quarto.
De manhã ele desceu até a cozinha, e escutou som de maquina de costura na sala ao lado que sempre estava de porta fechada. Ele bateu.
– Entre. – disse Anita.
Ele entrou, a sala era grande, tinha rolos de tecidos em um canto, um sofá, e vários vestidos e trajes a rigor em cabides, dentro de um armário com portas de vidro. Anita olhou para trás, usava óculos.
– Ah, é você Logan. Entre, estou com algumas encomendas para hoje. Já tomou café?
Ele se sentou no sofá.
– Anita, é hoje que Eliwood vem, não é?
– Já deve estar na cidade.
Batem na porta.
– Rápido, vá para trás do armário.
Logan se escondeu atrás do armário, e ela abriu a porta.
– Pela deusa, Joseph, por que está tão pálido? – A indagou.
– Senhora, seu filho... – disse a voz de um jovem, visivelmente sem fôlego.
– Sente-se e recupere o ar. – pediu, mas sua voz estava preocupada. – O que tem Josh?
– Ele fez uma viagem para o sul, não?
– Sim, sim. Acabe com isso e me diga o que houve?
– Pegaram ele e os outros garotos, o Sr. Spietato.
Logan espiou por um canto e viu Anita se sentar, branca como a seda em que ela trabalhava.
– O Sr. Eliwood vai se apresentar em publico hoje, talvez ele diga algo sobre eles. – tentou consolar o garoto.
– Obrigada, Joseph, pode ir.
O garoto saiu, ela trancou a porta e Logan foi até ela.
– Quem é Spietato?
– Ele é o superior dos donos dessas terras. – disse, e levou à mão a boca, aparentemente abalada demais para continuar. – Ele vai levar meu filho pras suas guerras... Meu menino...
– Superior a Eliwood... – repetiu, pensativo. – Guerra?
– Sim, Spietato conquista outras cidades com violência. Como se estivéssemos realmente em uma segunda era medieval. Enforca e empala os traidores e rebeldes, estrupam mulheres, invadem terras com toda a violência de antigamente e a tecnologia de hoje. Porque eles não se privaram da tecnologia, só nós fomos deixados à mercê dessa decadência. Só de pensar no meu menino ao lado desse homem me dá arrepios. – disse. – Mas se ele se rebelar e for descoberto vai ser muito pior.
Logan sentou no sofá novamente. Provavelmente Eliwood era o informante de Spietato nessas terras. Se ele morresse...
– Não sei o que você está pensando, garoto. Mas não faça. – pediu Anita.
– Ele vai estar em publico, talvez eu não tenha outra oportunidade.
E ele saiu da sala. Saiu com o arco e flecha, e vestiu uma blusa com touca. A cidade iria estar cheia de soldados e ele não estava errado. Descobriu que Eliwood ia aparecer as duas, num palco que havia sido montado no centro da praça. Ele olhou ao redor, e viu a torre de uma igreja.
Quando entrou na igreja, ela estava completamente vazia, ele logo encontrou a porta que levava as escadas. Era uma e quarenta e cinco no relógio da igreja, ele subiu e olhou a vista dali. Era perfeita, e não havia nenhuma arvore atrapalhando sua visão. As pessoas já se aglomeravam ao redor do palco, onde estavam vários soldados. Ele escutou passos na escada, provavelmente o padre, e se escondeu. Ele espiou e se surpreendeu ao ver que era Loren.
– Logan, saia dai. – disse ela.
Ele saiu, a olhando com suspeita.
– O que você faz aqui?
Ela assoprou um pó na cara dele, e ele tossiu.
– O que você...? – ele estava tonto, via o rosto dela sumir, como se estivesse dissolvendo, e caiu desmaiado.

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