quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Viúva Negra - Capítulo II: O Padrinho (Final)

Peguei minhas coisas e dei um último beijo em Carlos. Fico pensando se nós dois daríamos certo... Talvez se ele não fosse do tipo maníaco as coisas fossem diferentes, mas ele faz parte daquela parcela de homens que precisam ser eliminados, e Carlos era só mais um trabalho chato e desinteressante.

Amor? Ah sim, eu quase o amei, talvez porque ele parecia muito comigo em questões de vida fracassada e tudo o mais, entretanto ele se deixou levar para um lado mais escuro, um lado onde você mata inocentes e gosta disso. Eu quase o amei, mas também eu quase sempre amo todos eles antes de matá-los. Preciso admitir que com Carlos eu me diverti bem mais, ele foi mais corajoso que a maioria, e também chorou e implorou mais que qualquer outro.

Dou uma última olhada no relógio pra conferir se ainda tenho tempo para um café no barzinho de esquina - não, não tenho tempo, a empregada vai chegar em menos de 5 minutos.

Celular, cigarros, embalagem do chocolate, camisinha e luvas: acho que recolhi tudo. David sempre dizia para não esquecer de nada e não fazer nada sem as luvas, bem eu sigo tudo à risca exceto a coisa das luvas - eu preciso tocar no sangue pra sentir que o serviço foi bem feito. Na verdade, eu só tiro as luvas no fim de tudo, mas nunca consigo resistir e acabo me sujando.

Saio do quarto sem olhar para trás - "Nunca olhe, a menos que queira se lembrar" era o que David dizia sempre, mas eu nunca me lembro, mesmo quando tiro as fotos pra mostrar para o cliente que o serviço foi bem feito, nem assim, seus nomes sempre somem e seus rostos sempre se apagam e, com os dias, são apenas borrões e sombras me perturbando enquanto discuto com a minha consciência no banho.

Já na rua eu paro no ponto de ônibus e aguardo à sombra de um poste, então vem o grito e a confusão - já encontraram o corpo. Pego o primeiro táxi que aparece e sumo antes que o gerente consiga ligar para a polícia.

Medo? Ah eu não tenho, nem no começo eu tinha. Michel me fez perder o medo quando despertou o instinto selvagem de sobrevivência em mim.


***

Depois de toda a conversa com David eu só conseguia pensar em uma coisa: preciso dormir. Na minha cabeça tudo era muito surreal e, quem sabe, se eu dormisse, acordaria no dia seguinte e perceberia que tudo não havia passado de um sonho, um mau sonho, um péssimo sonho, um pesadelo!

Segui até o quarto de David e me deixei ser engolida pela sua cama, o edredom e o travesseiro. E então eu dormi, e dormi muito, coisa de seis ou sete horas eu acho, talvez até mais. Quando acordei já estava escuro, me recusei a levantar e sair do quarto, então dormi de novo e só acordei quando senti o peito de David prender a minha respiração.

- Oi. - Ele disse afrouxando o abraço.

Quando me dei conta estava encharcada de suor, meus cabelos grudavam na testa, no pescoço e nas costas.

- O que foi que...

- Você estava gritando, acho que foi um pesadelo. - David me soltou e permaneceu sentado ao meu lado por alguns instantes me analisando, tenho que confessar que fiquei um pouco envergonhada com isso.

Ainda estava escuro, dava para ver as luzes de alguns postes da janela do quarto. Me sentei e esfreguei os olhos com as costas das mãos - só então percebi que estava tremendo.

- Foi mal. - Disse tentando respirar fundo e me acalmar.

David levantou e foi até o armário, tirou uma camisa branca e uma samba-canção, pegou mais uma toalha limpa e me entregou.

- Toma mais uma ducha, vai te ajudar a se acalmar. Enquanto isso vou ver se tem alguma coisa pra gente comer.

Não sei dizer se demorei 5 minutos ou 50 no banho, só sei que quando sai de lá parecia que havia me despido da outra pele, meus dedos estavam murchos agora e minhas pernas tremiam feito varinhas de marmelo.

Quando cheguei na sala - a cozinha de David era separada da sala por um balcão - vi David no fogão cantando Hotel California dos The Eagles, e preciso dizer que ele tinha uma voz linda.

- E ai, ta melhor? - Ele perguntou assim que me viu sentada no sofá.

Afirmei com a cabeça e comecei a secar meus cabelos outra vez. A camisa branca ficava um pouco transparente e isso me incomodava um pouco pelo fato de que eu não tinha um sutiã. A samba-canção por sua vez era confortável e comprida.

David tinha feito alguma coisa com bacon, dava pra saber só pelo cheiro. Ele desligou o fogo e veio até onde eu estava, então tirou a toalha da minha mão.

- Deixa que eu faço isso. - Disse e começou a secar meus cabelos, exatamente como a minha mãe fazia quando eu era bem mais nova.

- David posso perguntar mais uma coisa? - Fiquei imaginando se ele já não estava com vontade de me bater por causa das minhas milhares de perguntas. Ao contrário do que eu esperava ele riu e concordou, dizendo que eu podia perguntar o que quisesse.

- Você tem família? - Perguntei, e David não hesitou em responder.

- A minha única família era o teu pai. Os meus pais morrerão quando eu ainda era moleque, tinhas uns 7 ou 8 anos. Foi ai que conheci teu pai e ai ele virou minha família.

Fiquei imaginando como meu pai era quando criança, uma pena que eu não tenha nenhuma foto dele pra guardar.

- Tem mais alguma pergunta senhorita curiosa? - David perguntou quando terminou de enxugar meus cabelos.

David deixou a toalha sobre uma cadeira e veio se sentar do meu lado.

- Você disse que cresceu com o meu pai... Mas você não parece tão velho. Quero dizer, meu pai se estivesse vivo teria uns 32 anos eu acho, e você não tem tudo isso. - Eu disse analisando a expressão em seu rosto.

David sorriu e coçou a nuca - pois é, como eu já havia notado isso é um sinal de que ele está nervoso.

- Você quer saber a minha idade? - Ele perguntou sorrindo e fiquei me perguntando se ele sabia o efeito que esse sorriso causava em mim.

Afirmei com a cabeça sem perceber que estava fazendo isso, ele continuou sorrindo e respondeu que ficava feliz em parecer tão mais jovem do que era.

- Eu tenho 28. Seu pai era 4 anos mais velho que eu.

Chocada é o mínimo. Quase exigi ver os documentos dele para ter certeza de que ele falava sério. 28? Não acredito!

- Eu daria no máximo 23, e chutando alto! Tenho que admitir que você ta bem conservado. - Eu disse e isso causou um ataque de riso em David e, é claro, em mim.

Depois de algumas boas risadas ele finalmente me chamou para comer. Meu estômago já estava roncando e o cheiro do bacon denunciava algo bem gostoso naquelas panelas. David se levantou e eu o fiz em seguida, porém quando dei o primeiro passo meus joelhos cederam e, não fosse pela rapidez dos reflexos de David, eu certamente teria caído com tudo no chão.

- Mabel! - David disse quando me segurou.

Eu não sentia minhas pernas, certamente era a fome me desestabilizando, entretanto agora, nos braços de David eu já não sentia mais nem meus braços, mãos, pés, nada. Sentia meu rosto formigar e meu coração bater descompassado. Aqueles olhos me fitavam com tanta preocupação e sequer conseguia responder ao som do meu nome. David me colocou sentada no sofá novamente, estávamos tão próximos que eu conseguia sentir sua respiração no meu rosto.

Quando me dei conta nossas bocas estavam mais próximas do que da última vez, aos poucos eu voltava a ter consciência do meu corpo - as mãos de David nas minhas costas e na minha cintura, minhas mãos em seu pescoço, seus olhos fitando os meus como se nada ao nosso redor importasse agora. Ele se aproximou mais e senti meus seios roçarem no seu peito, o aperto leve de suas mãos me puxando para mais perto. Então ele mordeu o lábio e parou.


- Acho melhor... Você comer alguma coisa Mabel... - Ele disse e então desviou o olhar, me ajeitou no sofá e voltou até a cozinha.

***





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou dos textos, participe! Sua opinião é super importante para que melhoremos nosso conteúdo! Seja um leitor ativo!