O quarto era frio, tão gelado
que Clarisse sentia como se fosse inverno ao invés de verão. Os móveis eram os
mesmos com os quais já havia ha muito se familiarizado - uma penteadeira ao
estivo provençal, assim como a cama, o armário e a escrivaninha, todos com tons
entre branco, creme e amarelo pérola.
Levantou meio sonolenta e
esfregou os olhos com as mãos. A luz que vinha da janela e passava pela cortina
clareava o quarto e os móveis, formando padrões delicados na parede atrás da
cama.
Tudo era claro, desde os papéis
de parede floridos até o edredom - era assim o gosto do Sr. Altreider, o quarto
das "damas", como ele costumava dizer, deveriam ter cores claras como
amarelo, creme e branco, que lembrassem o quanto elas devem ser puras. Já o
quarto dos "cavalheiros", deveriam ter cores sóbrias como cinza, azul
e marrom, para lembrar o quanto eles devem ser corretos.
A família Altreider é uma
família inglesa, já foi dona de muitas posses tais como casas, fazendas,
fábricas... Fez fortuna em 1800 e alguma coisa, inicialmente eram 10 irmãos e 5
primos, mas a família diminuiu muito com a virada de século, e em 2000 só
existiam dois herdeiros: o Sr. Thomas Altreider e seu neto, o jovem Jonathan
Altreider. O velho Thomas tivera apenas um filho, que faleceu com a esposa em
um trágico acidente de avião à negócios, na ocasião Jonathan era apenas uma
criança com não mais que dez anos de
idade, e estava em casa aos cuidados da babá.
Jonathan cresceu sob a tutela
do avô, que lhe ensinou tudo sobre a vida e sobre como ser um homem honrado.
Aos 19 anos o rapaz já havia assumido seu cargo na empresa da família e demonstrando
grande aptidão para os negócios. Aos 20 foi embora para o exterior - Paris -
onde fez faculdade e passou a viver e cuidar das demais filiais da família Altreider.
Clarisse jamais imaginou que
conheceria o neto do Sr. Altreider dessa forma, e menos ainda imaginou que ele
seria tão arrogante e diferente do homem gentil que era seu patrão.
Clarisse era uma jovem de 19 anos, tinhas cabelos castanhos e longos na linha da cintura, seus olhos eram acinzentados e expressivos, não era muito alta, não tinha um corpo magro como o das modelos, mas tinha curvas perigosas que ela tinha o hábito de esconder debaixo das roupas largas. A jovem era jardineira e cuidava das rosas do Sr. Altreider, que a tratava como se fosse parte da família.
Thomas não era um homem rico
como a maioria - se é que a maioria é assim -, chato, grosseiro, egocêntrico. O
velho Thomas era , na verdade, extremamente simpático, genioso, educado, humilde
e falante. Todas as tardes tirava Clarisse de seus afazeres e a fazia tomar chá
com ele enquanto conversavam sobre vários assuntos, fazendo a tarde correr tão
rápida quanto a água no curso de um rio.
₪ ₪ ₪
- Vamos menina, não tenho tempo
para perder, já estou velho, dobrando o
cabo da boa esperança! - Disse Thomas rindo enquanto se sentava na mesinha de
ferro que ficava no jardim, ao lado das belas roseiras.
Clarisse sorriu e se sentou ao
lado do patrão, batendo as mãos enluvadas nas calças do macacão para tirar o
excesso de terra antes de tirá-las das mãos.
- Seu Thomas o senhor está me
acostumando muito mal, sabia?
Thomas riu, uma risada
tranquila e sincera, apanhou o bule e serviu o chá, pegou uma das xícaras e
levou aos lábios.
- Hum - Então suspirou - Nada
como um bom chá de limão numa tarde tão bonita como esta. - Clarisse já havia
tirado as luvas e estava pegando a outra xícara. - Falando em tarde bonita, já
lhe disse que não precisa ficar se matando com esse jardim, deixe que Manoel o
faça. Você é muito bonita para se desgastar com isso.
Clarisse tomou um gole e
segurou a xícara com ambas as mãos, o dia estava fresco e uma brisa leve e carregada com o perfume das rosas tomava conta de todo o jardim.
- Desculpe seu Thomas, mas não
me sinto bem assim. O senhor é um homem bom, jamais pensaria mal do senhor, mas
vir aqui só para conversar e ganhar um salário grande como o senhor me paga...
Não acho isso correto...
Thomas abaixou sua xícara e
olhou para as roseiras no jardim, todas estavam cheias de botões e muito em
breve estariam cobertas de rosas vermelhas, amarelas, cor-de-rosa, brancas....
O jardim agora era todo colorido, diferente do que era antes de Clarisse
chegar.
- Quando você apareceu, toda
suja e machucada, pedindo trabalho ao invés de comida - Disse pensativo -, não
pensei que falasse sério. Pedi que preparassem um lanche e lhe dessem uns trocados.
Você agradeceu e foi embora.
Thomas fez uma pausa para tomar
mais um gole do chá. Clarisse também tomou outro gole e deixou a xícara sobre a
mesinha branca.
- Pensei que havia feito uma
boa ação e que não a veria mais. No dia seguinte, quando você apareceu no
portão, mais suja e mais machucada que antes, mas com um sorriso enorme no
rosto, eu fiquei surpreso. Não esperava que voltasse e, se fizesse isso, jamais
imaginaria que diria o que me disse naquele dia.
- "Vim pagar pela comida
de ontem senhor. O que eu preciso fazer? Onde tenho que varrer?" - Disse
Clarisse com um sorriso nos lábios, sua expressão era a de um pessoa que se
lembrou de algo muito corajoso que fez na infância.
- Ah sim - Riu Altreider - E você
foi logo até as empregadas perguntar onde tinha uma vassoura, e assim que te
mostraram você foi logo pegando e varrendo todo o lugar, da garagem atém o
jardim. - Thomas gesticulava com as mãos que tremiam pela idade e pela doença em estágio avançado.
A lembrança ainda estava bem
fresca nas mentes de Thomas e de Clarisse, ao relembrar o primeiro encontro de ambos Clarisse começou a rir como uma criança.
- Ah seu Thomas, eu era uma
criança só, tinha o que, dez ou onze anos?
Thomas riu alto e tomou mais um
gole do chá.
- Não, o que quero dizer é que
a sua determinação em retribuir pelo que eu havia lhe dado foi o que me
surpreendeu. Você foi justa e correta, qualidade que prezo acima de qualquer
outra. - Thomas pegou um biscoito no pote de cristal e o enfiou na boca - Mas
você não era muito boa em varrer o chão, devo dizer.
Clarisse fez uma careta como se
tivesse ficado ofendida e pegou dois biscoitos enfiando-os de um jeito nada
delicado na boca.
- Eu era uma criança afinal, o
que esperava?
A forma como Thomas e Clarisse
se tratavam lembrava muito a maneira como um pai trata uma filha. Clarisse era
órfã e viveu durante muito tempo sozinha nas ruas, até encontrar Thomas, por
isso considerava-o como um pai. Thomas, por sua vez, era muito solitário na
grande casa da família Altreider, seu neto quase não o visitava e ele não tinha
outros parentes vivos, quando Clarisse apareceu foi como se toda a tristeza e
solidão a que ele havia se agarrado fossem arrancadas dele, Clarisse passou a
ser a filha que jamais tivera a oportunidade de ter.
- Ah sim, mas veja bem - disse
pegando mais biscoitos e imitando o gesto de Clarisse - foi você quem sugeriu
que eu fizesse daquele pedaço de terra um jardim, e você se mostrou uma ótima
jardineira. - Então houve silêncio e Thomas olhou firme para Clarisse - Não
fosse você, não haveria uma única flor nesta casa, assim como não haveria um
pingo de felicidade em mim. Sou muito grato por tudo o que tem feito desde que
apareceu em meu portão.
Clarisse sentiu os olhos
arderem com a vontade súbita de chorar que lhe subiu na garganta. A jovem
engoliu como pôde os biscoitos, puxou uma mecha de cabelo que havia se soltado
do coque para trás da orelha e tentou sorrir sem chorar.
- Eu é que agradeço. Não fosse
o senhor só Deus sabe onde eu estaria agora, em que condições e vivendo de que.
O senhor me deu a oportunidade de ter uma vida digna, e faço o que posso para
retribuir, e com muito bom grado. - Sempre que Clarisse falava com Thomas, balançava a cabeça em afirmativa, como se fosse realmente uma criança e isso fazia o velho Altreider sorrir como um menino.
Altreider serviu mais chá nas
xícaras vazias, o vento que soprava fazia seus cabelos brancos e cacheados
balançarem, o que fazia Clarisse pensar em algodão doce.
- Quando disse que podia deixar
o jardim aos cuidados de Manoel, disse porque agora já tenho um belo jardim, -
Thomas olhava ternamente para Clarisse - mas ainda não tenho uma bela filha.
Você é como uma orquídea que se esconde por trás das grandes folhagens. Quero
que seja uma moça linda, com roupas bonitas, com sapatos bonitos e bolsas
bonitas, assim como todas as outras moças. Não desmereço o trabalho que teve
até agora, mas acho que já está na hora de ser mais menina e menos jardineira.
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