quinta-feira, 20 de agosto de 2015

12 Signos: Aquário - Parte I

O quarto era frio, tão gelado que Clarisse sentia como se fosse inverno ao invés de verão. Os móveis eram os mesmos com os quais já havia ha muito se familiarizado - uma penteadeira ao estivo provençal, assim como a cama, o armário e a escrivaninha, todos com tons entre branco, creme e amarelo pérola.

Levantou meio sonolenta e esfregou os olhos com as mãos. A luz que vinha da janela e passava pela cortina clareava o quarto e os móveis, formando padrões delicados na parede atrás da cama.

Tudo era claro, desde os papéis de parede floridos até o edredom - era assim o gosto do Sr. Altreider, o quarto das "damas", como ele costumava dizer, deveriam ter cores claras como amarelo, creme e branco, que lembrassem o quanto elas devem ser puras. Já o quarto dos "cavalheiros", deveriam ter cores sóbrias como cinza, azul e marrom, para lembrar o quanto eles devem ser corretos.

A família Altreider é uma família inglesa, já foi dona de muitas posses tais como casas, fazendas, fábricas... Fez fortuna em 1800 e alguma coisa, inicialmente eram 10 irmãos e 5 primos, mas a família diminuiu muito com a virada de século, e em 2000 só existiam dois herdeiros: o Sr. Thomas Altreider e seu neto, o jovem Jonathan Altreider. O velho Thomas tivera apenas um filho, que faleceu com a esposa em um trágico acidente de avião à negócios, na ocasião Jonathan era apenas uma criança  com não mais que dez anos de idade, e estava em casa aos cuidados da babá.

Jonathan cresceu sob a tutela do avô, que lhe ensinou tudo sobre a vida e sobre como ser um homem honrado. Aos 19 anos o rapaz já havia assumido seu cargo na empresa da família e demonstrando grande aptidão para os negócios. Aos 20 foi embora para o exterior - Paris - onde fez faculdade e passou a viver e cuidar das demais filiais da família Altreider.

Clarisse jamais imaginou que conheceria o neto do Sr. Altreider dessa forma, e menos ainda imaginou que ele seria tão arrogante e diferente do homem gentil que era seu patrão.


Clarisse era uma jovem de 19 anos, tinhas cabelos castanhos e longos na linha da cintura, seus olhos eram acinzentados e expressivos, não era muito alta, não tinha um corpo magro como o das modelos, mas tinha curvas perigosas que ela tinha o hábito de esconder debaixo das roupas largas. A jovem era jardineira e cuidava das rosas do Sr. Altreider, que a tratava como se fosse parte da família.

Thomas não era um homem rico como a maioria - se é que a maioria é assim -, chato, grosseiro, egocêntrico. O velho Thomas era , na verdade, extremamente simpático, genioso, educado, humilde e falante. Todas as tardes tirava Clarisse de seus afazeres e a fazia tomar chá com ele enquanto conversavam sobre vários assuntos, fazendo a tarde correr tão rápida quanto a água no curso de um rio.

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- Vamos menina, não tenho tempo para perder,  já estou velho, dobrando o cabo da boa esperança! - Disse Thomas rindo enquanto se sentava na mesinha de ferro que ficava no jardim, ao lado das belas roseiras.

Clarisse sorriu e se sentou ao lado do patrão, batendo as mãos enluvadas nas calças do macacão para tirar o excesso de terra antes de tirá-las das mãos.

- Seu Thomas o senhor está me acostumando muito mal, sabia?

Thomas riu, uma risada tranquila e sincera, apanhou o bule e serviu o chá, pegou uma das xícaras e levou aos lábios.

- Hum - Então suspirou - Nada como um bom chá de limão numa tarde tão bonita como esta. - Clarisse já havia tirado as luvas e estava pegando a outra xícara. - Falando em tarde bonita, já lhe disse que não precisa ficar se matando com esse jardim, deixe que Manoel o faça. Você é muito bonita para se desgastar com isso.

Clarisse tomou um gole e segurou a xícara com ambas as mãos, o dia estava fresco e uma brisa leve e carregada com o perfume das rosas tomava conta de todo o jardim.

- Desculpe seu Thomas, mas não me sinto bem assim. O senhor é um homem bom, jamais pensaria mal do senhor, mas vir aqui só para conversar e ganhar um salário grande como o senhor me paga... Não acho isso correto...

Thomas abaixou sua xícara e olhou para as roseiras no jardim, todas estavam cheias de botões e muito em breve estariam cobertas de rosas vermelhas, amarelas, cor-de-rosa, brancas.... O jardim agora era todo colorido, diferente do que era antes de Clarisse chegar.

- Quando você apareceu, toda suja e machucada, pedindo trabalho ao invés de comida - Disse pensativo -, não pensei que falasse sério. Pedi que preparassem um lanche e lhe dessem uns trocados. Você agradeceu e foi embora.

Thomas fez uma pausa para tomar mais um gole do chá. Clarisse também tomou outro gole e deixou a xícara sobre a mesinha branca.

- Pensei que havia feito uma boa ação e que não a veria mais. No dia seguinte, quando você apareceu no portão, mais suja e mais machucada que antes, mas com um sorriso enorme no rosto, eu fiquei surpreso. Não esperava que voltasse e, se fizesse isso, jamais imaginaria que diria o que me disse naquele dia.

- "Vim pagar pela comida de ontem senhor. O que eu preciso fazer? Onde tenho que varrer?" - Disse Clarisse com um sorriso nos lábios, sua expressão era a de um pessoa que se lembrou de algo muito corajoso que fez na infância.

- Ah sim - Riu Altreider - E você foi logo até as empregadas perguntar onde tinha uma vassoura, e assim que te mostraram você foi logo pegando e varrendo todo o lugar, da garagem atém o jardim. - Thomas gesticulava com as mãos que tremiam pela idade e pela doença em estágio avançado.

A lembrança ainda estava bem fresca nas mentes de Thomas e de Clarisse, ao relembrar o primeiro encontro de ambos Clarisse começou a rir como uma criança.

- Ah seu Thomas, eu era uma criança só, tinha o que, dez ou onze anos?

Thomas riu alto e tomou mais um gole do chá.

- Não, o que quero dizer é que a sua determinação em retribuir pelo que eu havia lhe dado foi o que me surpreendeu. Você foi justa e correta, qualidade que prezo acima de qualquer outra. - Thomas pegou um biscoito no pote de cristal e o enfiou na boca - Mas você não era muito boa em varrer o chão, devo dizer.

Clarisse fez uma careta como se tivesse ficado ofendida e pegou dois biscoitos enfiando-os de um jeito nada delicado na boca.

- Eu era uma criança afinal, o que esperava?

A forma como Thomas e Clarisse se tratavam lembrava muito a maneira como um pai trata uma filha. Clarisse era órfã e viveu durante muito tempo sozinha nas ruas, até encontrar Thomas, por isso considerava-o como um pai. Thomas, por sua vez, era muito solitário na grande casa da família Altreider, seu neto quase não o visitava e ele não tinha outros parentes vivos, quando Clarisse apareceu foi como se toda a tristeza e solidão a que ele havia se agarrado fossem arrancadas dele, Clarisse passou a ser a filha que jamais tivera a oportunidade de ter.

- Ah sim, mas veja bem - disse pegando mais biscoitos e imitando o gesto de Clarisse - foi você quem sugeriu que eu fizesse daquele pedaço de terra um jardim, e você se mostrou uma ótima jardineira. - Então houve silêncio e Thomas olhou firme para Clarisse - Não fosse você, não haveria uma única flor nesta casa, assim como não haveria um pingo de felicidade em mim. Sou muito grato por tudo o que tem feito desde que apareceu em meu portão.

Clarisse sentiu os olhos arderem com a vontade súbita de chorar que lhe subiu na garganta. A jovem engoliu como pôde os biscoitos, puxou uma mecha de cabelo que havia se soltado do coque para trás da orelha e tentou sorrir sem chorar.

- Eu é que agradeço. Não fosse o senhor só Deus sabe onde eu estaria agora, em que condições e vivendo de que. O senhor me deu a oportunidade de ter uma vida digna, e faço o que posso para retribuir, e com muito bom grado. - Sempre que Clarisse falava com Thomas, balançava a cabeça em afirmativa, como se fosse realmente uma criança e isso fazia o velho Altreider sorrir como um menino.

Altreider serviu mais chá nas xícaras vazias, o vento que soprava fazia seus cabelos brancos e cacheados balançarem, o que fazia Clarisse pensar em algodão doce.

- Quando disse que podia deixar o jardim aos cuidados de Manoel, disse porque agora já tenho um belo jardim, - Thomas olhava ternamente para Clarisse - mas ainda não tenho uma bela filha. Você é como uma orquídea que se esconde por trás das grandes folhagens. Quero que seja uma moça linda, com roupas bonitas, com sapatos bonitos e bolsas bonitas, assim como todas as outras moças. Não desmereço o trabalho que teve até agora, mas acho que já está na hora de ser mais menina e menos jardineira.   



Psique                                                                   Próximo >>




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