quarta-feira, 17 de junho de 2015

Viúva Negra - Capítulo I: O Degolado


Finalmente está feito. Depois de tanto tempo planejando e criando coragem, finalmente consegui terminar isso. Por um lado fico feliz, é mais uma conquista, um valioso troféu o qual, devo dizer, foi extremamente difícil conseguir; por outro lado estou um pouco triste, afinal de contas eu estava começando a gostar mesmo dele, mas não me arrependo – fiz um ótimo trabalho.

Acabo de terminar de escrever a seguinte frase na parede: 

“A vida nos proporciona belos momentos, e a morte nos traz ótimas recordações”. 

Achei apropriada para ele. Esse é o lado bom da morte, você sempre vai lembrar as coisas boas que a pessoa fez, e não as ruins – pelo menos por um bom tempo.

Pois é, velórios são lugares onde as pessoas demonstram o melhor de sua hipocrisia – “como ele era bom”, “ele ajudava tanto em casa”, “ele era trabalhador” e mais um monte de bosta que as pessoas falam, mais pra acreditarem elas mesmas que o que dizem é verdade. Acho que é por isso que não vou a funerais, não suporto.

Limpo minhas mãos ensanguentadas no meu vestido branco florido e procuro na minha bolsa, jogada perto da janela, meu maço de cigarros. Saco um e acendo, dando um trago bem longo em seguida. Jogo o maço na cama, cruzo meus braços e fico admirando a minha obra de arte – a visão da cabeça dele em cima da escrivaninha ficou linda. Caminho até o tronco degolado e o arrasto para fora da cama, deixando-o bem debaixo da frase escrita com o sangue dele na parede.

Essa cena me lembra de minha primeira vez, quando eu tinha quinze anos.


~ ~ ~

Estou na sala de aula, a professora de física é uma vaca – me deu zero na prova, e por isso vou ter que fazer recuperação no verão. Por sorte o professor que dá a recuperação é amigo de infância da minha mãe, então mesmo que eu não venha ele vai me dar uma boa nota.

O sinal soou e eu jogo meu material de qualquer jeito na mochila, apanho minha blusa no encosto da cadeira e saio em disparada pela porta, atravessando o corredor sem ver ninguém a minha frente. Acabo trombando com uma pessoa aqui e ali, levando alguns xingamentos, mas nem me importo: hoje eu vou sair com o Michel!

 Corro o mais rápido que posso até o ponto de ônibus, mas mesmo assim, eu perco o expresso que passa na minha rua. Agora vou ter que pegar a linha normal e andar uns dez minutos até chegar em casa – isso me aborrece muito. Minha sorte é que o expresso não demora muito pra passar. Vou apertada feito uma sardinha dentro desse ônibus, mas hoje não me importo, estou muito feliz pra me importar.

Michel e eu somos amigos desde a quarta série, começamos a namorar tem duas semanas e ontem ele me pediu pra transar com ele. É claro que não rolou, porque ainda sou virgem, e eu disse isso a ele. Ele ficou muito empolgado e me disse que se eu quisesse ele podia me levar em um lugar especial pra minha primeira vez acontecer. Bem, eu topei. Estou muito nervosa, e com medo. Eu sei que vai doer, mas ele me deixou louca ontem e agora eu quero muito isso. 

Assim que desço do ônibus dou a sorte de ganhar uma carona da Emma, minha vizinha. Agradeço apressada e corro pra dentro de casa, minha mãe está jogada no sofá, mais uma vez bêbada. Me controlo ao máximo pra não brigar com ela por isso – ela já está no quinto emprego em menos de dois meses, e sempre que ela bebe falta no trabalho, motivo pelo qual ela sempre é despedida. Na verdade fico surpresa com a facilidade que ela tem pra arrumar trabalho – eu só queria que ela conseguisse ao menos ficar em um deles por mais de uma semana.

Sou eu que sustento a casa. Trabalho meio período em um café no centro da cidade – se é que a gente pode chamar esse buraco de cidade. Eu lavo pratos e sirvo as mesas no Café Dan. Não ganho muita coisa, mas as gorjetas me salvam sempre. Com o que ganho consigo pagar as contas de água e energia elétrica, ainda sobra um pouco pra mistura e outras coisas – minha sorte é a cesta básica que ganho do Daniel, meu chefe. Ele é muito gente boa, e conhece a situação da minha mãe.

Na verdade não há uma pessoa na cidade que não conheça minha mãe. Desde que meu pai morreu – já tem uns quatro ou cinco anos – ela começou a beber, nunca aceitou a morte dele. Na verdade nem eu entendo bem o que aconteceu, mas também não gosto de falar disso. O caso é que ela é alcoólatra desde então.

Ignoro meus instintos de dar uma bronca nela e subo pro meu quarto. Logo que entro agradeço a dona Michele por nos deixar morar de favor aqui, não fosse ela eu certamente estaria morando debaixo de uma ponte ou em lugar pior.

São exatamente 18h 40min. Tenho só vinte minutos pra tomar banho e me arrumar, antes de Michel chegar. Tomo o banho mais rápido da minha vida e me visto com a primeira roupa que vejo assim que abro meu armário. Apanho minha mochila e coloco outra peça de roupa, só por precaução. Saio do quarto com tanta pressa que tropeço no primeiro degrau e quase rolo escada a baixo.

 Quando estou passando pela cozinha minha mãe desperta do sono de bebedeira.

- Onde você vai Maria Izabel?

Ela está tão bêbada ainda que da porta da cozinha consigo sentir o hálito azedo que vem dela, estirada no sofá.

- Vou sair. Não me espere acordada, vou voltar tarde. Talvez até durma fora. – Digo girando a maçaneta e abrindo a porta. Nem me dou ao trabalho de olhar nos olhos dela porque sei que ela não vai me fitar.

- Me desculpe querida... Me desculpe... – Ela diz começando a chorar feito uma criança. Eu a amo, apesar de ela não estar sendo uma boa mãe há muito tempo, mas neste momento estou com pena dela, apenas isso.

- Não me peça desculpas, porque não vou aceitar. Vai procurar um tratamento e vê se para de beber. Já me cansei de bancar a babá. É você quem deveria cuidar de mim, e veja só. Olha pra você mãe.

Não consigo disfarçar a amargura na minha voz. Estou muito decepcionada com ela, e estou cansada, muito cansada de fazer de tudo pra ajudar ela e ela mesma não se ajudar. É como dar murro em ponta de faca.

Ela começa a soluçar e tenta levantar do sofá.

- Não! Nem adianta levantar. É melhor você continuar aí deitada, quando o efeito do álcool passar você levanta e toma um banho. Se quiser falar comigo me espera acordada amanhã de manhã.
Ela volta a sentar e me olha.

- Eu tenho que trabalhar amanhã...

Não consigo conter o riso. Eu não estou debochando dela, mas é irônico como eu a conheço tão bem a ponto de saber o que ela vai ou não fazer, e ela insiste em mentir sempre, e todos os dias pra si mesma.

- Nós duas sabemos que isso não vai acontecer. Você não vai estar em condições pra trabalhar amanhã. Então não diga que tem trabalho amanhã. Vou voltar de manhã então, se quiser conversar, esteja acordada.

Dizendo isso saí sem olhar pra trás. Pude ouvir ela chorar mais alto e afundar no sofá velho e sujo de molas. Tive que me segurar pra não voltar e ir abraçá-la, mas sei que se eu fizer isso só vou piorar as coisas – ela tem que aprender, ela tem que querer mudar.

Engulo as lágrimas que ameaçavam cair e me forço a lembrar do porque estou saindo a essa hora de casa – Michel. Quando chego à esquina de casa ele já está lá, de carro, me esperando com um sorriso enorme.

Quando chego perto do carro noto que tem mais dois amigos no banco de trás. Olho para o Michel com ar interrogativo e ele destrava a porta do lado do passageiro.

- São uns amigos, gata. Vou dar uma carona pra eles.

Nunca tive motivos pra desconfiar de Michel, então dou de ombros e relaxo. Entro no carro e me ajeito no banco. Michel tem 18 anos, tem olhos verdes e cabelos castanhos na altura dos ombros, é tipo atlético e é filho único – razão pela qual já tem um carro, um presente do papai rico dele.

- Preparada gata? – Michel pergunta antes de ligar o carro.

- Estou sim. – Digo meio tímida, porque sei a que ele se refere.

                                                                   * * *

Só hoje vejo como fui ingênua. Eu estava tão desesperada por um pouco de atenção que me agarrei ao primeiro idiota que apareceu.  Confiar num cara que conhecia há apenas duas semanas foi mais que ingenuidade, foi burrice. Paguei por isso da pior forma. Na minha cabecinha eu achava que sabia a que Michel se referia, mas só fui descobrir uma hora mais tarde, quando os amigos de Michel decidiram participar da minha primeira vez.





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou dos textos, participe! Sua opinião é super importante para que melhoremos nosso conteúdo! Seja um leitor ativo!