sexta-feira, 19 de junho de 2015

O diário dos Morrigan

Capitulo 1


Arcanum 



Na velha vitrola um disco de Nina Simone tocava em alto e bom som uma versão de "My sweet lord". A faixa perfeita... O disco perfeito pensou Alec ao acender a pequena vela que ficava ao pé da pequena imagem de Santa Sara Kali e um crucifixo de caravaca que ganhara da velha Badja, a mulher mais sábia da família a qual pertencia e embora tivesse total noção de que não poderia ser totalmente humano, pois era incapaz de envelhecer desde o fatídico dia a mais de 300 anos atrás em que suas memorias simplesmente sumiram. Alec sempre respeitou as leis pessoais da família mesmo sendo, tecnicamente, o membro mais antigo ainda vivo nunca se engrandeceu por seus "dons", na verdade sempre encarou tudo com certa descrição porem sentia sempre muita amargura, uma dor inexplicável daquelas que dão um nó na garganta e te fazem chorar aquela única lagrima solitária. Ele senta-se na pequena cadeira de madeira em frente a uma igualmente pequena mesa que funciona como oratório e começa a fazer suas orações como já era de costume desde que os tais pesadelos começaram e a imagem da tal moça ruiva não saíra de sua cabeça.
     
"Crux sancta sit mihi lux

Vade retro satana
Numquam suade mihi vana
Non draco sit mihi dux
Sunt mala quae libas
Ipse venena bibas"

As luzes do pequeno trailer onde morava começaram a piscar, o vento uivava forte fazendo um barulho ensurdecedor causando a impressão das arvores terem sido arrancadas do chão, as paredes, armários cama, tudo tremia... A noite de clara de repente se fez escura e um  ZIIIIP... Rompeu sua concentração quando o som de seu disco favorito foi interrompido. Então Alec se deu conta de que não estava sozinho as trevas estavam a sua volta e não era a primeira vez que isto ocorria mas era a primeira vez que tal coisa acontecera a ponto de mexer com o mundo real, isso só poderia significar uma coisa,  um mal muito grande acabara de ser libertado. Ele prontamente abre uma pequena caixa de madeira que estava em frente ao crucifixo e retira uma carta do velho baralho de marcella que costumava usar como oraculo e para sua surpresa... La mort seguida de le diable, uma sensação horripilante tomou conta do coração de Alec que sentiu seu corpo inteiro gelar, ao olhar no pequeno espelho que usara para se maquiar antes das apresentações do circo, ao invés de ver seu rosto iluminado apenas pela pequena chama da vela viu rosto de uma jovem, a mesma de seus sonhos, mas agora ao invés de sorrir uma força negativa e tomava conta de seu corpo, uma nuvem negra e densa entrando lentamente pelos olhos, boca e ouvidos. Alec não pensa em mais nada, monta em sua moto e sai roncando pelas ruas da cidade na esperança de encontrar a tal moça que sentira clamando por sua ajuda.

Alice corria fugindo da sombra negra que estava perseguindo-a. Um ronco maléfico e disforme gritava incessantemente “Beatrice... Beatrice... Seus pecados devem pagos com sangue”, Ela pisava fundo no acelerador da caminhoneta fugido da voz que ouvia dentro de sua cabeça e das sombras que via através do retrovisor que nem pode notar o caro de seu irmão vindo logo atrás com medo de que algum acidente acontecer. As vozes estavam se tornando cada vez mais fortes, o coração de Alice batia tão forte que ela temia ter um infarto, suas mãos suavam frias enquanto ela segurava firme no volante tentando impedir a tremedeira que sentia pelo corpo todo. As ruas de pedra da cidade já estavam próximas, uma névoa fria e densa que tomava conta das ruas era dissipada pela força do vento que de tão forte parecia poder arrancar os telhados das casas em volta.
Um sussurro leve e gélido dizendo “Beatrice...” arrepiou a nuca de Alice que com o susto perdeu o controle do carro e acertou em cheio uma arvore numa das ruas próximas à cidade. Meio tonta e com a testa sangrando ela abre a porta da caminhoneta e sai cambaleando pelas ruas na tentativa de escapar das sombras que a esta altura já estavam em toda parte rodeando-a e dizendo repetidamente o mesmo nome... BEATRICE. A sensação era sufocante, Alice estava sendo dominada pelas sombras, sentia seu corpo paralisado como rocha ser suspendido no ar enquanto aquela coisa negra entrava lentamente pela sua garganta. Sua consciência estava a ponto de abandona-la quando uma voz forte gritou ao fundo...
Lux
Uma estranha e forte luminescência surgiu dissipando a escuridão e varrendo a densa e obscura nuvem negra para longe de Alice que desmaiou em seguida. Alec ia repetindo a mesma palavra em latim enquanto usava a luz saindo da palma de suas mãos para conter aquela escuridão quando alguns metros em seguida o carro de Nícolas parou. Ele correu desesperado para socorrer sua irmã, que estava jogada no chão quando as sombras voltaram se para ele, rapidamente o dominaram e antes que Alec pudesse salva-lo elas desceram garganta à dentro. Ele pega Alice nos braços coloca dentro do carro que Nícolas havia deixado aberto e ainda ligado e leva Alice para o único lugar segura que conhecera o acampamento onde morava.  

            
       

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