segunda-feira, 23 de março de 2015

8. Confissão


Ela abriu os olhos lentamente para um teto bege. Virou a cabeça e viu uma janela com as cortinas fechadas, e pelo pouco brilho que entrava, deduziu que fosse quase noite. Olhou ao redor. Era um quarto simples, uma estante com alguns livros e uma poltrona marrom. Não era um hospital, certamente. Tentou mexer a mão, e depois a outra, e sentiu uma agulhada no pulso ferido, mas não estava algemada. Sentou-se e afastou as cobertas. Estava com a mesma roupa, a jaqueta estava pendurada em um cabideiro próximo a porta. Conferiu os danos. Havia levado dois tiros de raspão, um na perna e outro que realmente iria matá-la se um dos capangas não tivesse a distraído. Sentiu que estava se esquecendo de algo, e após uma pausa lembrou do garoto. Ia colocar os pés para fora da cama quando a porta se abriu. Ela esperava ver Bob, algum amigo dele, e até um provável inimigo, mas não o detetive. Que diabos tinha acontecido? Ele trazia uma sopeira na mão, e ela sentiu seu estomago doer.
– Srta. Hiyori, que bom vê-la consciente. – disse ele, colocando a sopeira sobre a mesa de cabeceira. – Não fui eu quem preparou a sopa, então pode comer.
– Onde estamos? – perguntou.
– No meu apartamento. – disse ele indo até a poltrona e se sentando nela.
– O que estou fazendo no seu apartamento?
Ele deu um breve sorriso, olhando ela nos olhos.
– Digamos que sua irmã tenha me contado que você estaria em encrenca hoje.
Ela o olhou por um momento. Que tipo de brincadeira era aquela?
– Minha irmã está morta, detetive.
– Eu sei.
Ela continuou encarando ele. Mizuki só aparecia pra ela. Não podia ser verdade o que ele estava dizendo... Ele pareceu perceber o pensamento dela e então tirou do bolso da calça duas folhas amarelas, um pouco amassadas, e entregou a ela. Ela pegou e reconheceu os kanjis infantis da irmã. Ela nunca se intrometera antes... E porque avisar o detetive? Justo o detetive! Sentiu o sangue fugir do rosto.
– Ela estava preocupada com você, e pelo que vi, ela tinha razão. – disse. – Precisamos conversar.
– Sim, precisamos. – disse ela, sua voz séria e seus olhos frios. – Há quanto tempo trabalha para Gregorovich, detetive Galagher?
Ele pareceu surpreso com a pergunta.
– Não sei como isso se encaixa aqui...
– Mas saberá. Responda minhas perguntas, ou vai dormir com as suas sem respostas.
– Menos de uma semana. – respondeu ele.
– Defende o dinheiro ou a justiça?
Ele olhou para ela, a confusão em seus olhos.
– Justiça.
– Gregorovich tem um comércio sujo e ilegal por baixo da empresa atual. E seus sócios fazem parte deles. Alguns policiais que chegaram perto dessa verdade não estão mais vivos e isso inclui meu pai. Ele faz contrabando de jovens de outros países para sua grande real empresa, e o produto é o sexo. Eles são levados a prostituição, ou então são mortos ao desobedecer as regras. – contou.
Ele piscou, parecendo momentaneamente surpreso demais para falar. Abriu a boca e a fechou.
– Ele pode pagar bem para você, mas vai te matar se descobrir que você conhece essas informações.
– Como sabe de tudo isso?
Ela deu um breve sorriso.
– Vamos lá, detetive, sei que é mais inteligente que isso.
Quase podia ouvir de onde estava o som das peças se encaixando dentro da cabeça dele, seu rosto bonito expressando claramente que ele havia chegado a resposta.
– Você é a assassina. – concluiu com olhos distantes, e eles foram focando ela devagar. – Porque matar? Porque não os denunciou?
– Não ouviu o que eu acabei de dizer? Isso não vai resolver. Gregorovich vai matar quem for descartável e pagar quem for preciso. Eu quero toda essa escória morta. – disse e quando percebeu que ele iria falar algo, o cortou. – Nem pense em me impedir, detetive.
Ele passou a mão pelos cabelos, os bagunçando mais, e cobriu o rosto. Ela se virou e pegou a sopeira, a sopa estava morna, mas seu estomago não se importava. Galagher se levantou da poltrona e sentou-se na beira da cama.
– E o garoto? – perguntou ela.
– Garoto? – indagou ele distraído com seus pensamentos. – O garoto que estava na fabrica? Ele está com um amigo meu.
– Estou desacordada a muito tempo?
– Algumas horas. – disse ele, e ela viu em seu relógio de pulso que eram quase cinco horas da manhã. Colocou a sopeira de volta na mesa de cabeceira. – Hiyori... Você pretende matar todos eles?
– Sim. É necessário. Eles não sabem que sou eu, mas desconfiam de mim. Estão tentando concluir o que deixaram pra trás no passado, detetive. – então explicou a ele sobre o assassino contratado para matá-la sob ameaça de matarem seu filho, e sobre o acordo que fizeram.
– Meu deus, essa história só está ficando pior. Se importa? – perguntou indicando o maço de cigarros e ela deu de ombros. Ele acendeu um.
– Desculpe a pressão, detetive...
– Me chame de Julian. – pediu. – Prossiga.
– Preciso saber que posição vai tomar referente a tudo que te contei. – disse ela direta.
Ele soltou a fumaça que estava presa na boca, e por um instante observou ela desenhar padrões desconexos e então se desfazer.
– No momento vou seguir como se não soubesse nada de Gregorovich e que você é assassina. Até decidir o que vou fazer. – disse ele.
– Tudo bem. – então colocou os pés pra fora da cama. – Eu agradeço por hora. Agora preciso levar o garoto para o pai.
– Ligue e avise. – disse ele, conferindo o relógio. – Coma e descanse. É muito cedo. O telefone daqui funciona.
Então ele se levantou e foi em direção a porta, lançou a ela um ultimo olhar e então saiu. Ela ficou na mesma posição por um tempo, decidindo. Por que Mizuki estava confiando em um estranho? Suspirou e pegou o telefone, discando para Bob.
– Alô? – atendeu ele, sem nenhum pingo de sono na voz.
– Bob, sou eu.
– Hiyori! Onde diabos você se meteu? A fabrica está cheia de tiras, e ainda não consegui entrar. Você está bem?
– Relaxe, Bob, eu estou bem. Estou na casa de um... amigo. Ouça, consegui resgatar o garoto. Avise Rick que ele está bem e que quando for sete horas eu estarei na casa dele com o menino.
– Tudo bem. Fico mais tranquilo por saber que você está bem. Nos vemos mais tarde.
– Até. – e então desligou.
Pegou a sopeira e terminou a sopa, depois voltou a se deitar. A cabeça girava de perguntas referente a porque Mizuki tinha se comunicado com o detetive. Por quê? O que ele tinha feito para ganhar a confiança dela? Por quê? E então adormeceu, sendo vencida pelo cansaço e dores.



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Hiyori de J. Carstairs está licenciado com uma LicençaCreative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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