Julian fechou a porta do apartamento, jogou o casaco sobre a poltrona e se jogou no sofá de três lugares. Era começo de tarde, e enquanto em algum lugar longe dali Hiyori começava a planejar o resgate de uma criança, a mente do detetive estava em conflito com o que tinha acontecido pela manhã na delegacia. Acendeu outro cigarro, e o amassou no cinzeiro depois de duas tragadas. Alguns minutos depois de Gregorovich ter saído do seu escritório, no bloco de notas na mão do Kai havia aparecido um endereço de uma fabrica e um horário, que conforme eles pesquisaram não funcionava mais. Depois disso não houve mais nada. Nada daquilo era ilusão, ou só ele teria visto. Ou ele e Kai estavam loucos?
Ele se levantou e esfregou o rosto com as mãos, tentando conter o desejo de acender outro cigarro. Havia acabado com um maço novo em um período de seis horas, e isso só acontecia quando estava sobre tensão, e ele estava. Levantou-se e foi até o banheiro e lavou o rosto. Seja o que for, segundo o ultimo bilhete do fantasma, algo iria acontecer hoje à noite.
- O que vou fazer?
"Você sabe o que vai fazer Julian. Você vai lá e vai ver se é verdade o que os bilhetes disseram. Sua sanidade depende disse" disse uma voz dentro de sua mente. Lavou o rosto novamente, e saiu conferindo o relógio na parede da sala.
Pegou a bolsa e saiu no corredor, correndo até o elevador antes que ele se fechasse. Havia uma senhora de vestido florido e deu um sorriso breve para ele, que retribuiu ajeitando a bolsa no ombro esquerdo. Levou a mão ao bolso em busca dos cigarros e encontrou apenas seu isqueiro. As luzes do elevador piscaram de leve, e ele encostou-se à barra ao lado, tenso. Era só o que faltava ficar preso no elevador. Começou a brincar com o isqueiro, de forma impaciente. Sentiu uma brisa fria e então as luzes piscaram novamente e o elevador deu um tranco. A senhora do vestido florido encolheu os ombros com o susto e se virou para ele. O elevador parou e as luzes de emergência se acenderam, e ele pode ver no rosto da velha um rosto infantil e se encolheu no canto. Mas que merda era aquela agora.
- Perigo... - disse a velha com um sotaque. - Estou fraca... - ela fechou os olhos. - Não deixe ninguém ver minha onee-san... Só... Confio em você.
Julian sentiu um arrepio percorrer sua espinha do começo ao fim, e engoliu em seco.
- Há bandidos... Minha onee-san vai salvar um garoto... Mas ela corre perigo. Kanojo o tasuketekudasai!
- O que disse?
- ... Minha onee-san... Ajude...
O elevador deu outro tranco e o isqueiro caiu. As luzes se reacenderam e ele abaixou pra recuperar o isqueiro sem tirar os olhos da velha, que levou a mão a cabeça.
- Será que houve uma queda de energia? - indagou a velha. - Esses balanços me deixam tonta.
"Houve uma queda sim. Da minha sanidade" pensou guardando o isqueiro no bolso. A porta se abriu e ele desceu na garagem. Que diabos tinha acontecido? Que diabos estava acontecendo? Caminhou até seu Oldsmobile 442 preto com faixas brancas e entrou, jogando a mochila no banco de trás. Deu partida e saiu da garagem. Parou na primeira loja de conveniência que encontrou e entrou na cabine.
- Tachibana Kai. - disse a telefonista, e depositou as moedas solicitadas.
O telefone tocou uma, duas, então ele ouviu o som do telefone ser retirado do gancho.
- Alô?
- Kai? Aqui é o detetive Julian.
- Ah, Julian. Recebeu mais alguma mensagem da garotinha?
Então o detetive explicou o que houve no elevador, e tentou da melhor maneira possível reproduzir o que ouvira a mulher falar em japonês.
- Ela esta pedindo ajuda para salvar a irmã dela. Onee-san é o modo como uma criança chama sua irmã mais velha.
- Vou até a fabrica. - disse sentindo uma enorme vontade de acender um cigarro.
- E se for perigoso? Quer que eu chame reforços?
- Baseado em que? No aviso de um fantasma? - soltou um riso nervoso. - Não Kai, já me sinto louco o suficiente. Apenas fique atento. Se eu realmente ver algo suspeito eu te aviso, ai sim você pode chamar reforços.
- Certo então. Vou aguardar.
- Obrigado. Desculpe mais uma vez por incomodar.
- Somos parceiros nisso agora, não se preocupe. Tenha cuidado detetive.
Então ele devolveu o telefone ao gancho. Respirou fundo e foi até a loja de conveniências. Comprou um maço de cigarros e um copo de café forte sem açúcar. Entrou no Oldsmobile, e bebeu um gole. Deu partida e conferiu o endereço da folha amarela. Ainda estava claro, e seria bom aproveitar para analisar a área. Foi dirigindo devagar, enquanto tomava o café, e assim que terminou, conferiu se sua .45 estava no porta luvas. Estava. Talvez precisasse dela.
Aquela área era praticamente deserta. "Estranhamente deserta" pensou. Circulou por ela e logo encontrou a fabrica. Parou atrás de um caminhão abandonado, com a pintura descascada e os vidros quebrados, e esperou.
- Vou ajudar a sua irmã, feliz? - disse para o nada. - Então pare de me assombrar, estou me sentindo doente.
Rasgou o plástico do maço de cigarros, abriu a janela e acendeu um cigarro. Fechou os olhos por um momento. Iria esperar. Enquanto ainda havia luz do dia ele resgatou alguns quadrinhos do Wolverine do porta luvas, e começou a ler, até que escurecesse. Tudo estava calmo por ali, e quando ele pensou que nada iria acontecer, viu dois caras entrarem na fabrica, um deles cumprimentando outro que saía. Era uma troca de turno? Julian pode notar que todos estavam armados. Suspeito. Realmente suspeito. Observou por mais alguns instantes, mas tudo ficou tranquilo.
Após algumas horas, ele viu alguém se aproximar. Pelo corpo podia-se perceber que era uma mulher, mas ela usava uma mascara e um acessório no cabelo que fez ele lembrar de um enfeite de gueixa que sua mãe tinha ganhado. Seria Hiyori? Será que ela achava que conseguiria entrar e salvar o tal garoto sozinha e desarmada?
- Sua irmã é maluca. - disse abrindo o porta luvas e pegando sua .45, saindo do carro. Pretendia seguir ela, mas viu dois vigias, e mais nenhum sinal dela.
Voltou ao carro, e procurou o seu celular. Usava-o pouco. Ligou para Kai.
- Está realmente acontecendo algo estranho por aqui, Kai. Tem alguns homens armados. Avise que foi uma denuncia anônima. Peça uma viatura para averiguar.
- Afirmativo. - disse ele.
Ele desligou o aparelho e jogou no banco de trás. Iria invadir. Deu a volta no quarteirão para poder fazer o mesmo caminho que a Hiyori havia feito, e entrou, se escondendo no mesmo local que ela. De onde estava podia ver a porta e um homem sentado em uma cadeira. Sua cabeça pendia de modo anormal. O detetive olhou ao redor, e assim que os vigias do portão deram uma brecha ele correu até o homem sentado na cadeira, confirmando suas suspeitas. Ele estava morto. Quem havia matado ele? Hiyori? Tentou abrir a porta e ela estava destrancada, e então saiu em um corredor. Começou a caminhar por ele com a .45 preparada para atirar em quem surgisse a sua frente. Passou por uma porta fechada, por duas, e logo o corredor chegou ao fim, onde ele virava para a direita. Ali ele encontrou uma escada para um andar superior e uma entrada para o grande salão, onde provavelmente era a área de produção. Subiu as escadas, e encontrou as portas abertas, em uma delas um homem morto. Olhou pelo vidro que dava para o galpão, e pode ver um aglomerado de maquinas coberto por plásticos e poeira. E pode ver a cabeça de dois homens no centro delas, mas dali não via mais nada alem. Pensou em ligar para Kai novamente e se lembrou de que havia deixado o celular no carro. Desceu as escadas, e subiu novamente ao ver um dos homens ir em direção ao salão. Pode ouvir a voz dele ecoar pelo galpão. Estava relatando a morte do parceiro do lado de fora e informando que havia um intruso. Pode ouvir o outro das ordens e o homem voltou. Após ele ter partido, Julian desceu e correu para o meio das maquinas bem a tempo de escapar do campo de visão de um dos homens que fora ordenado rondar a área. Ficou escondido, e então minutos depois ouviu um som de briga. Aproximou-se devagar, e chegou a tempo de ver a mascarada soltar o garoto.
- Se esconda ali. - disse a jovem empurrando o garoto e então vários capangas surgiram.
Eram mais de cinco. "Cadê você, Kai?". Hiyori sacou a arma de forma tão rápida que ele apenas viu um borrão e ouviu os tiros. Ela havia desarmado três, atirando em suas mãos, e então se aproximou para luta corpo a corpo. Olhei e percebi um deles mirando nela, então atirei nele. Um deles era grande, e deu um soco em Hiyori a mandando longe, e atirei em sua perna. A porta do galpão se abriu e um policial falou pelo megafone.
- Todos parados e com as mãos na cabeça! - disse a voz do inspetor. - Soltem as armas. Vocês estão cercados.
Jogaram uma luz forte com os holofotes, e Julian aproveitou a distração para correr pelas maquinas até chegar onde Hiyori estava caída. A voz sinistra da velha dizia em sua mente: Não deixe ninguém ver minha onee-san.
Ela estava desacordada. Ele a pegou e saiu pelo outro lado, onde a policia não estava fixada nos bandidos. Conseguiu passar despercebido pelo caminho que viera, e colocou a garota desacordada no banco do passageiro do Oldsmobile. Conferiu para ver se ela estava ferida e percebeu que ela havia levado um tiro de raspão no braço e outro de raspão na perna. Garota de sorte. Desatou a mascara dela, e observou seu rosto pálido por alguns instantes antes de dar partida e ir ao hospital.

Hiyori de J. Carstairs está licenciado com uma LicençaCreative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
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