quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Dores de Cabeça

       Sentado mais uma vez em frente a uma folha em branco sem saber o que escrever, tomo mais um gole de café como se isso fosse magicamente me dar uma inspiração, olho pela janela e vejo uma paisagem cinzenta de prédios e postes de energia, uma atmosfera putrida e com um cheiro horrível, mas meus pulmões estão tão viciados que absorvem tudo isso como se fosse ar fresco.
       Olho para baixo e tudo o que vejo são mendigos, punguistas, charlatões, trapaceiros, apenas a escória da sociedade ao meus pés. Nessa hora me vem a mente o pensamento de "maldita hora que comprei um apartamento no segundo andar", antes essa era uma área nobre da cidade aonde apenas os mais ricos habitavam, hoje apenas as sombras de um bairro de luxo em ruínas. Eu sou apenas mais um, outrora escritor respeitado de nome, com mulheres aos seus pés, jovens intelectuais almejando estar em meu lugar, hoje com uma realidade diferente e contrastante, falido, acabado, difamado, e sem a capacidade de escrever um mero conto sequer.
       Olho novamente pela janela, me vem a cabeça de trespassa-la com o meu corpo caindo na calçada junto com seus estilhaços, mas de nada adiantaria, saltar do segundo andar, eu apenas conseguiria alguns ossos quebrados, e feridas pelo corpo.
       Minha cabeça começa a latejar, ouço um estrondo no andar de cima, um barulho seco de algo grande e pesado caindo no chão, e ficando imóvel aonde caiu, poderia ser um corpo, mas ignoro seria apenas mais um cadáver neste local. Coloco os fones de ouvido do meu antigo MP3, e começo ouvir AC/DC, mas ouço vozes de pranto e desespero, retiro os fones e não ouço mais nada, será que estou ficando louco? que perdi a minha sanidade?
        Coloco os fones novamente, as vozes retornam, e eu me pergunto o que elas querem, tento ignorá-las mas não posso, não consigo ouvir nada além delas como se suplicassem por ajuda.
         Perco a cabeça, e em um rompante de ódio, medo e desespero, arranco meus fones com violência e grito:
      " O QUE VOCÊS QUEREM COMIGO??"
        A janela fica embaçada, e no vidro embaçado aparece a frase:
       "o mesmo que você quis de mim".



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Baseado no trabalho disponível em relicariodasmentes.blogspot.com

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