segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

1. Panquecas e Sangue

A delegacia estava movimentada logo pela manhã, e o delegado John estava em sua mesa, organizando os papeis que o inspetor Jim havia solicitado. Era sobre os últimos casos de mortes suspeitas dos sócios de Frederich Wegolin um dos mais importantes empresários de negócios externos da América. Mordeu sua rosquinha de creme, esquecendo do caso por alguns instantes antes que o inspetor entrasse pela sala.
 - Jogue essa porcaria no lixo imediatamente! - disse irritado, e ele jogou a rosquinha fora, lamentando não ter terminado ela antes.
Logo em seguida entrou dois homens e um deles era Gregorovich, vestindo um terno de risca de giz feito sobre medida. Os cabelos que começavam a ficar grisalhos estavam rigorosamente penteados para trás, e seu bigode bem aparado chegava a dar arrepios no delegado. Seu olhar frio e escuro vasculhava a sala. Atrás dele havia um homem jovem, talvez vinte e cinco anos, os cabelos castanhos claro desorganizados faziam o delegado pensar em um surfista, mas o rosto do jovem era um pouco sério, os olhos claros também olhavam ao redor. Ele vestia um jeans escuro, um sapato social e um paletó aberto cáqui.
 - Bom dia, Sr. Gregorovich  Por favor, sente-se. - disse o inspetor.
 - Eu recuso. O assunto que vim tratar aqui é breve. Este é o detetive Julian Galagher, e eu o contratei para trabalhar neste caso. Peço por gentileza que forneçam uma sala para que ele possa trabalhar com vocês e todo o material da investigação.
Galagher apertou a mão do inspetor e em seguida a do delegado.
 - Sim Sr. Gregorovich .Providenciarei isso.
 - Ótimo. - disse e então conferiu o relógio. - Se me permitem, tenho negócios a tratar. Galagher mantenha me informado.
E então se retirou.
 - Venha comigo Galagher, temos uma sala vaga. - disse o inspetor, e então os dois saíram. O delegado lançou um ultimo olhar tristonho para a rosquinha no lixo, e deixou-se desabar na cadeira.
O inspetor abriu uma porta com vidro na parte superior, sem nenhuma inscrição de nome, e Julian Galagher entrou. Havia uma mesa vazia e uma confortável cadeira, e encostado na parede um armário baixo com uma pequena TV e um vídeo cassete.
- Essa era a sala do nosso detetive, que se aposentou esse ano. Fique a vontade. - disse e colocou sobre a mesa uma pasta e uma fita. - Na pasta tem a ficha dos outros mortos, e aqui, uma fita de segurança que recuperamos da ultima cena do crime.
- Obrigado inspetor.
Ele fez um breve aceno com a cabeça e então se retirou. Julian pegou a fita, colocou no vídeo cassete, e colocou a bolsa sobre a mesa. Tirou do bolso interno do paletó um cigarro e acendeu, então apertou o play, pegando um bloco de papel para anotar suas observações. Aquele era um vídeo de segurança de quinze horas, e ele adiou até o horário que havia no bilhete dentro da pasta.
Na tela da TV, a cena estava dividida entre o corredor que dava acesso ao escritório da vitima, o balcão principal no saguão de entrada, a garagem e outro corredor aleatório. Uma mulher loira com um vestido vermelho curto colado ao corpo apareceu no balcão e então foi na direção dos elevadores. Enquanto isso, do corredor que dava acesso a sala, ele podia ver os seguranças conversando, e todos eles pararam para ver a loira passar. Ela jogou um beijo para eles, e então entrou na sala da vitima. Enquanto a mulher estava lá dentro, o restante do movimento no prédio seguia seu ritmo normal. Carros paravam no estacionamento, pessoas entravam e saiam, com maletas e pastas. Depois de duas horas a mulher saiu do escritório, deu um tchauzinho para os guardas e pela câmera da garagem ele a viu entrar em um carro esportivo, que outro homem dirigia. Anotou a loira como suspeita um, e continuou a assistir.
Após mais algumas horas, viu um rapaz se aproximar do balcão, com duas caixas de pizza, e o guarda indicou os elevadores. Julian podia ver a moto do entregador na garagem. Ele surgiu no corredor, e anunciou a pizza, e então a porta do escritório se abriu, e um homem gordo surgiu, falando algo e gesticulando para o entregador entrar, e foi o que o rapaz fez. Ficou la por três minutos e então saiu com uma das caixas. Ele pausou a fita, e fez mais algumas anotações. Suspeito dois. O entregador de pizza saiu, subindo em sua moto velha com o logo da pizzaria, e um carro BMW parou, um homem com uma maleta na mão desceu, arrumou a gravata e passou pelo balcão. Pode ver ele no corredor, ir à direção da sala da vitima sem olhar para os distraídos guardas, e abrir a porta sem bater. Assim que ele fechou a porta, tudo explodiu. Ele parou a fita.
Voltou a fita novamente, e estudou cada suspeito com mais atenção, e reparando em pequenos detalhes. Por fim desligou a TV e pegou a pasta para analisar os outros casos.
***
– Hiyori! – ela pode ouvir chamar, junto de algumas batidas na porta. – Estou entrando.
Ela moveu a cabeça e abriu os olhos, vendo David se aproximar, com sua costumeira câmera pendurada no pescoço. Estava deitada no sofá, um pé no tapete felpudo ainda com o coturno e o outro apenas de meia sobre o sofá. Havia uma garrafa de saquê Junmai sobre a mesa da sala, junto com um pequeno copo, um notebook aberto que reproduzia ZZ Top, e uma mochila. Ela se sentou, e começou a tirar o outro coturno.
– Pelo que vejo a noite foi bem interessante. – disse David sentando-se na poltrona. – Imagino que tenha sido obra sua aquela explosão...
– O que você quer? – perguntou ela, se levantando e indo em direção ao quarto. Ele a seguiu.
A porta do banheiro estava entreaberta.
– Tenho novidades de Gregorovich.
– Me dê um momento David. – pediu ela do banheiro e ligou o chuveiro.
Ele aguardou pacientemente, e depois de alguns minutos ela saiu secando os cabelos com uma toalha.
- Quais são as novas?
– Gregorovich contratou um detetive para saber quem está causando a morte dos seus sócios. Tirei essa foto hoje pela manhã, o nome dele é Julian Galagher.
Hiyori pegou a foto, e viu um rapaz ao lado do odioso velho.
– Eles estavam indo para a delegacia, e eu tirei essa foto há vinte minutos atrás.
– Isso é bom. – disse com um sorriso. Já tinha saído completamente vestida do banheiro. Usava um jeans rasgado e uma regata do Motörhead. – Isso significa que vai ficar mais interessante.
– Você deveria tomar cuidado?
– Por quê? Acha que ele é mais perigoso do que eu? – perguntou passando um batom vermelho diante do espelho do banheiro.
– Ele pode ser bom, e descobrir quem você é.
– Eu espero que ele seja bom, ou as coisas não serão interessantes. – disse amarrando os cadarços do all star, e então se levantou. – Eu estou indo, obrigada pela informação Dave.
– Eu não mereço uma recompensa? – indagou ele olhando para o belo rosto da jovem, seus lábios vermelhos pareciam tentadores.
– Ah, te encontro naquele bar, eu pago o lanche. – disse se virando.  – Feche a casa ao sair!
Ela subiu na sua moto, colocando o capacete, e saiu do condomínio, em direção a delegacia. Estacionou bem afastado, e desceu, entrando em uma lanchonete e escolhendo uma mesa perto da janela para poder observar o movimento.
– Posso anotar seu pedido?
– Sim, claro. Panquecas, e calda de morango.
– Algo para beber?
– Café expresso.
Olhou para a rua movimentada, e então para a delegacia, e viu o detetive atravessar a rua e ir em direção à lanchonete. “Vai ser um dia bom” pensou, e a garçonete surgiu. Uma família entrava na lanchonete naquele momento.
– Pode me servir no balcão. – disse e cedeu à mesa a família, e a mulher roliça agradeceu.
Viu o detetive se aproximar e não reparou em outro homem que havia entrado e não tirava os olhos dela. Sentiu a sensação de estar sendo observada, mas quando olhou ao redor, só viu alguns pivetes ao fundo. A garçonete a serviu e o detetive sentou no banco ao lado dela. Ela tomou um grande gole do seu café, e sentiu um arrepio descer da nuca e arrepiar seu corpo todo. Virou-se e viu o homem com a arma apontada para o detetive, então o empurrou do banco. O som do tiro fez as pessoas da lanchonete entrarem em pânico, e algumas gritaram devido ao sangue que começava a manchar o balcão.



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Hiyori de J. Carstairs está licenciado com uma LicençaCreative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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