- Jogue essa porcaria no lixo imediatamente! - disse irritado, e ele jogou a rosquinha fora, lamentando não ter terminado ela antes.
Logo em seguida entrou dois homens e um deles era Gregorovich, vestindo um terno de risca de giz feito sobre medida. Os cabelos que começavam a ficar grisalhos estavam rigorosamente penteados para trás, e seu bigode bem aparado chegava a dar arrepios no delegado. Seu olhar frio e escuro vasculhava a sala. Atrás dele havia um homem jovem, talvez vinte e cinco anos, os cabelos castanhos claro desorganizados faziam o delegado pensar em um surfista, mas o rosto do jovem era um pouco sério, os olhos claros também olhavam ao redor. Ele vestia um jeans escuro, um sapato social e um paletó aberto cáqui.
- Bom dia, Sr. Gregorovich Por favor, sente-se. - disse o inspetor.
- Eu recuso. O assunto que vim tratar aqui é breve. Este é o detetive Julian Galagher, e eu o contratei para trabalhar neste caso. Peço por gentileza que forneçam uma sala para que ele possa trabalhar com vocês e todo o material da investigação.
Galagher apertou a mão do inspetor e em seguida a do delegado.
- Sim Sr. Gregorovich .Providenciarei isso.
- Ótimo. - disse e então conferiu o relógio. - Se me permitem, tenho negócios a tratar. Galagher mantenha me informado.
E então se retirou.
- Venha comigo Galagher, temos uma sala vaga. - disse o inspetor, e então os dois saíram. O delegado lançou um ultimo olhar tristonho para a rosquinha no lixo, e deixou-se desabar na cadeira.
O inspetor abriu uma porta com vidro na parte superior, sem nenhuma inscrição de nome, e Julian Galagher entrou. Havia uma mesa vazia e uma confortável cadeira, e encostado na parede um armário baixo com uma pequena TV e um vídeo cassete.
- Essa era a sala do nosso detetive, que se aposentou esse ano. Fique a vontade. - disse e colocou sobre a mesa uma pasta e uma fita. - Na pasta tem a ficha dos outros mortos, e aqui, uma fita de segurança que recuperamos da ultima cena do crime.
- Obrigado inspetor.
Ele fez um breve aceno com a cabeça e então se retirou. Julian pegou a fita, colocou no vídeo cassete, e colocou a bolsa sobre a mesa. Tirou do bolso interno do paletó um cigarro e acendeu, então apertou o play, pegando um bloco de papel para anotar suas observações. Aquele era um vídeo de segurança de quinze horas, e ele adiou até o horário que havia no bilhete dentro da pasta.
Na tela da TV, a cena estava dividida entre o corredor que dava acesso ao escritório da vitima, o balcão principal no saguão de entrada, a garagem e outro corredor aleatório. Uma mulher loira com um vestido vermelho curto colado ao corpo apareceu no balcão e então foi na direção dos elevadores. Enquanto isso, do corredor que dava acesso a sala, ele podia ver os seguranças conversando, e todos eles pararam para ver a loira passar. Ela jogou um beijo para eles, e então entrou na sala da vitima. Enquanto a mulher estava lá dentro, o restante do movimento no prédio seguia seu ritmo normal. Carros paravam no estacionamento, pessoas entravam e saiam, com maletas e pastas. Depois de duas horas a mulher saiu do escritório, deu um tchauzinho para os guardas e pela câmera da garagem ele a viu entrar em um carro esportivo, que outro homem dirigia. Anotou a loira como suspeita um, e continuou a assistir.
Após mais algumas horas, viu um rapaz se aproximar do balcão, com duas caixas de pizza, e o guarda indicou os elevadores. Julian podia ver a moto do entregador na garagem. Ele surgiu no corredor, e anunciou a pizza, e então a porta do escritório se abriu, e um homem gordo surgiu, falando algo e gesticulando para o entregador entrar, e foi o que o rapaz fez. Ficou la por três minutos e então saiu com uma das caixas. Ele pausou a fita, e fez mais algumas anotações. Suspeito dois. O entregador de pizza saiu, subindo em sua moto velha com o logo da pizzaria, e um carro BMW parou, um homem com uma maleta na mão desceu, arrumou a gravata e passou pelo balcão. Pode ver ele no corredor, ir à direção da sala da vitima sem olhar para os distraídos guardas, e abrir a porta sem bater. Assim que ele fechou a porta, tudo explodiu. Ele parou a fita.
Voltou a fita novamente, e estudou cada suspeito com mais atenção, e reparando em pequenos detalhes. Por fim desligou a TV e pegou a pasta para analisar os outros casos.
***
– Hiyori! – ela pode ouvir chamar, junto de algumas batidas na porta. – Estou entrando.
Ela moveu a cabeça e abriu os olhos, vendo David se aproximar, com sua costumeira câmera pendurada no pescoço. Estava deitada no sofá, um pé no tapete felpudo ainda com o coturno e o outro apenas de meia sobre o sofá. Havia uma garrafa de saquê Junmai sobre a mesa da sala, junto com um pequeno copo, um notebook aberto que reproduzia ZZ Top, e uma mochila. Ela se sentou, e começou a tirar o outro coturno.
– Pelo que vejo a noite foi bem interessante. – disse David sentando-se na poltrona. – Imagino que tenha sido obra sua aquela explosão...
– O que você quer? – perguntou ela, se levantando e indo em direção ao quarto. Ele a seguiu.
A porta do banheiro estava entreaberta.
– Tenho novidades de Gregorovich.
– Me dê um momento David. – pediu ela do banheiro e ligou o chuveiro.
Ele aguardou pacientemente, e depois de alguns minutos ela saiu secando os cabelos com uma toalha.
- Quais são as novas?
– Gregorovich contratou um detetive para saber quem está causando a morte dos seus sócios. Tirei essa foto hoje pela manhã, o nome dele é Julian Galagher.
Hiyori pegou a foto, e viu um rapaz ao lado do odioso velho.
– Eles estavam indo para a delegacia, e eu tirei essa foto há vinte minutos atrás.
– Isso é bom. – disse com um sorriso. Já tinha saído completamente vestida do banheiro. Usava um jeans rasgado e uma regata do Motörhead. – Isso significa que vai ficar mais interessante.
– Você deveria tomar cuidado?
– Por quê? Acha que ele é mais perigoso do que eu? – perguntou passando um batom vermelho diante do espelho do banheiro.
– Ele pode ser bom, e descobrir quem você é.
– Eu espero que ele seja bom, ou as coisas não serão interessantes. – disse amarrando os cadarços do all star, e então se levantou. – Eu estou indo, obrigada pela informação Dave.
– Eu não mereço uma recompensa? – indagou ele olhando para o belo rosto da jovem, seus lábios vermelhos pareciam tentadores.
– Ah, te encontro naquele bar, eu pago o lanche. – disse se virando. – Feche a casa ao sair!
Ela subiu na sua moto, colocando o capacete, e saiu do condomínio, em direção a delegacia. Estacionou bem afastado, e desceu, entrando em uma lanchonete e escolhendo uma mesa perto da janela para poder observar o movimento.
– Posso anotar seu pedido?
– Sim, claro. Panquecas, e calda de morango.
– Algo para beber?
– Café expresso.
Olhou para a rua movimentada, e então para a delegacia, e viu o detetive atravessar a rua e ir em direção à lanchonete. “Vai ser um dia bom” pensou, e a garçonete surgiu. Uma família entrava na lanchonete naquele momento.
– Pode me servir no balcão. – disse e cedeu à mesa a família, e a mulher roliça agradeceu.
Viu o detetive se aproximar e não reparou em outro homem que havia entrado e não tirava os olhos dela. Sentiu a sensação de estar sendo observada, mas quando olhou ao redor, só viu alguns pivetes ao fundo. A garçonete a serviu e o detetive sentou no banco ao lado dela. Ela tomou um grande gole do seu café, e sentiu um arrepio descer da nuca e arrepiar seu corpo todo. Virou-se e viu o homem com a arma apontada para o detetive, então o empurrou do banco. O som do tiro fez as pessoas da lanchonete entrarem em pânico, e algumas gritaram devido ao sangue que começava a manchar o balcão.

Hiyori de J. Carstairs está licenciado com uma LicençaCreative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
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