Tudo parecia
igual quanto partiu para Paris, a mesma decoração impecável, os mesmos vasos de
flores nos mesmos lugares, alguns retratos a mais nas paredes, um o outro
criado diferente.
- Ainda é como
me lembro. - Disse Jonathan olhando ao redor.
- Thomas não
gostava muito de mudanças. - Disse Magda com um sorriso sutil.
Ambos estavam
na sala de visitas, sentados nas poltronas tomando café com bolo de laranja - o
bolo preferido do avô de Jonathan.
- Desculpe
perguntar tia, mas...
- Só falta
decidir onde será o enterro. O resto já foi providenciado. - Disse Magda com um
resto de voz que quase não se ouvia.
Jonathan
engoliu o pedaço de bolo e se levantou. Caminhou até a porta sem dizer qualquer
coisa e saiu. Magda permaneceu sentada, tomando o café e comendo o bolo
enquanto as lágrimas desciam e molhavam suas mãos pálidas sobre o colo.
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Jonathan sumiu
por horas, e só reapareceu na hora do velório. Haviam muitas pessoas, a maioria
sequer fazia parte do vínculo de amizades de Thomas, mas todas certamente
queriam testemunhar o fim de um dos homens mais ricos do país.
O rapaz se
limitou a observar o vai e vem de carros e pessoas. Não cumprimentou ninguém,
não se aproximou do caixão, não se moveu - do instante em que chegou ao local,
permaneceu imóvel ao lado da janela.
- Jonathan... -
Chamou uma voz familiar.
Quando o rapaz
se virou para ver quem era sentiu dois braços miúdos a lhe envolverem pelo
pescoço - era Sofia, uma ex-namorada e colega de infância.
Sofia era uma
moça atraente, sempre bem vestida, unhas e cabelos feitos, jóias enfeitando o pescoço
e mãos. O salto a deixava quase na altura de Jonathan, os olhos castanhos
marejados permaneciam fechados durante o abraço, e o cabelo ondulado hoje não
exibia um penteado bonito, apenas uma presilha mantendo-os presos sem cair aos
olhos, do jeito que sempre usava.
- Sofi... -
Sussurrou Jonathan se deixando envolver naquele abraço quente e solidário - Eu
não sabia que ainda morava por aqui.
Sofia o soltou
e o pegou pela mão, arrastando-o para um canto da sala, fazendo-o sentar um
instante.
- Na verdade...
- Disse passando as mãos pelos joelhos por cima da calça social escura - Não
moro, mas vim assim que a tia Magda ligou.
- Então foi ela
quem avisou todo mundo... - Concluiu Jonathan passando as mãos pelos olhos
pesados e com olheiras.
- Não, não na verdade
fui eu. - Sofia coçou a nuca e estalou o pescoço, mostrava estar cansada de um
jeito que, em outras ocasiões, jamais demonstraria - Ela me pediu e, você sabe,
não consegui dizer que não. Eles eram muito próximos, nem consigo imaginar como
ela deve estar se sentindo. Dar a notícia uma vez já dói o bastante, eu não
podia ajudar com mais, então pelo menos alguns telefonemas...
- Entendo... -
Jonathan olhou mais uma vez ao redor, todos os fotógrafos, jornalistas, famosos
da região... Tantas pessoas falsas, e tão poucas amigas... - Você ligou para os
fotógrafos também?
Jonathan estava
com um olhar frio e a voz se mostrava trincada, como se fosse despedaçar em
milhares de facas afiadas por todo o lugar.
Sofia olhou na
direção dos fotógrafos e suspirou.
- Desculpe, eu
avisei ao Alex, ele fazia as fotos do seu avô. Ele deve ter aberto a boca para
alguns amigos inconvenientes.
- Espero que
ele não se incomode por eu ser um pouco inconveniente com ele e os amigos
agora.
Jonathan se
levantou na fúria de uma tempestade, tão feroz quanto à chuva que caía lá fora.
Caminhou cego até os repórteres, jornalistas e fotógrafos. As câmeras que
avistou jogou no chão, quebrando-as em pedaços. Os intrusos, curiosos e mal
intencionados foram expulsos a empurrões e palavrões. Manoel o ajudou assim que
percebeu a intenção do rapaz - apenas amigos e família deveriam estar presentes
num momento tão triste.
Magda ouviu o
alvoroço e foi correndo ver o que estava havendo, chegou quando as portas já
estavam fechadas e, na sala que antes quase não havia espaço para andar, agora
estavam não mais que dez ou quinze pessoas, incluindo funcionários.
- Nathan! Querido o que foi isso? - Perguntou
aproximando-se do rapaz que estava encharcado pela chuva.
- Só colocamos
uns intrometidos pra fora tia. - disse Manoel trocando olhares com Jonathan.
- Obrigado Manoel.
Acho melhor ir se trocar agora.
Manoel se
retirou, deixando Jonathan aos cuidados de Magda e Sofia.
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- Estou bem
tia, já disse que estou bem! - Reclamava o rapaz enquanto trocava a camisa
molhada pela que Magda trouxera para ele.
- Não me
responda assim! Não me importa se você não gosta que cuidem de você, pois vou
cuidar mesmo assim! - Disse Magda arrancando bruscamente a camisa da mão de
Jonathan.
O rapaz sentou
na cadeira e se debruçou sobre a mesa. Estavam na cozinha, Sofia ao fogão
tirava alguma coisa para Jonathan comer.
- E é melhor
que coma, antes que desmaie. - Disse a moça empurrando um prato de macarrão
requentado para Jonathan.
Jonathan olhou
para as duas mulheres, cuidando e zelando por ele, era disso que seu avô
falava, pessoas que gostam de você por quem é, e cuidam de você, sem querer
nada em troca, nem agradecimento, nem reconhecimento. Mas isso não significa
que você não tem que agradecer...
- Obrigado...
Por toda a paciência, por toda a calma... Enfim, por tudo. - Disse o rapaz
segurando as malditas lágrimas que estava há muito engolindo. - E me desculpem
pela grosseria e tudo o mais.
Magda afagou os
cabelos do rapaz como se a sua frente não houvesse um homem, mas apenas um
menino. O menino que veio ficar sob seus cuidados aos dez anos.
- É isso o que
as pessoas fazem quando gostam de alguém, elas cuidam. E não se importam com as
grosserias. - Então ela sorriu, e saiu carregando as roupas molhadas.
Sofia sentou ao
lado de Jonathan e ficou com o rapaz enquanto ele comia um pouco do macarrão.
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