Jonathan chegara em casa recebendo
a notícia de que o advogado de seu avô já havia retornado de sua viagem, agora
com toda a documentação necessária para a leitura do testamento.
- Conforme ele disse - informava o
criado Eduardo - a leitura poderá ser feita entre amanhã e sexta-feira. Ele
pediu para que o senhor retorne a ligação, caso precise de detalhes.
- Perfeito! - Disse Jonathan
deixando o casaco atrás da porta - Se ele ligar novamente me avise.
Jonathan subiu as escadas em
direção a seu quarto, que antes era o do avô. Nas paredes haviam retratos, dele
pequeno com os pais, com seu avô, com alguns colegas da escola. Alguns retratos
de Thomas com os empregados, ora em uma pescaria, ora em um churrasco. Então um
retrato chamou a sua atenção, e o rapaz se perguntou como não havia prestado
atenção nele antes - Clarisse, com as mãos sujas de terra, um macacão horrível
e seu avô, ao lado, ambos sorrindo ao mexer no jardim, um jardim que Jonathan
só conheceu quando veio para o enterro do avô.
O rapaz sorriu. O sentimento que o
invadiu foi de felicidade, ver o avô feliz sempre lhe deixou contente. Ficava
se perguntando se tivesse percebido que o avô o queria mais perto, se talvez...
"Bom, pensar nisso agora não ajuda" dizia a si mesmo. Então apanhou o
retrato da parede. "Não me lembro de já tê-la visto sorrir dessa
forma" pensou acariciando o retrato, perdido na figura de Clarisse.
Jonathan finalmente terminou as
escadas e chegou ao seu quarto. Deixou o retrato sobre a escrivaninha, tomou um
banho rápido, vestiu uma calça e uma camisa e saiu apressado do quarto, ainda
enxugando os cabelos com a toalha. Ao passar novamente pelo corredor, antes de
descer as escadas, ouviu um som doce se espalhando pela casa. A melodia era,
apesar de doce, triste.
O rapaz começou a descer as
escadas, sabia que o som vinha da sala de música, mas não chegou a tempo de
conferir quem estava tocando.
- Está procurando algo Nathan? -
Perguntou Magda ao ver o olhar perdido do rapaz.
- Tia... Eu... - Então ele sorriu
- Nada, só... Pensei que havia ouvido alguém ao piano. Era a música do vovô.
Magda se aproximou do rapaz e
tomou a toalha, pegou-o pelo braço e o fez se sentar no banco do piano. Então
começou a secar os cabelos de Nathan.
- Sente falta dele, não é? -
Perguntou.
Nathan então a abraçou pela
cintura e se deixou chorar pela primeira vez desde que havia chego de viagem. E
chorou como se nada ao redor importasse, como se ainda fosse aquele menino que
acabara de perder os pais.
Magda afagou-lhe os cabelos e o
deixou chorar. Era exatamente disso que ele precisava, desabafar, mesmo que não
dissesse palavra. Ele vinha guardando isso há dias, ou melhor dizendo, anos, já
que não se permitiu chorar no enterro dos pais.
Nathan chorou, e chorou, e
soluçou, até que aos poucos foi se acalmando, os braços afrouxando na cintura
de Magda, as lágrimas parando de cair.
- Desculpe tia, não queria perder
o controle. - Disse abaixando o rosto.
Magda se ajoelhou e ficou na
altura dos olhos do rapaz, então puxou seu rosto e olhou fixamente.
- Muitas vezes precisamos perder o
controle. Chorar não é sinal de fraqueza Nathan, é sinal de força. - Seu
sorriso gentil fez com que Nathan derramasse mais algumas lágrimas, mas agora
com um sorriso nos lábios.
- Obrigado tia... Muito
obrigado... - Disse a voz embargada.
Magda deu-lhe um beijo na testa e
se levantou, com a toalha em mãos saiu deixando para trás a mudança no coração
de Jonathan.
∞
Clarisse havia
chorado muito, e estava agora dormindo sob o efeito de calmantes. Magda estava
cuidando de todos os preparativos para o velório do velho Altreider, o neto
Jonathan deveria chegar em algumas horas para cuidar do resto.
A casa estava
em silêncio pela primeira vez em anos, nenhum criado falava, seus passos eram
silenciosos e a tarde fria só fazia a piorar a sensação de vazio que se
espalhava pela grande casa.
- Senhora
Magda, o senhor Jonathan acaba de chegar. - Informou Rafael.
- Mas tão
cedo... - Magda deixou o retrato de Thomas sobre o piano e seguiu para a porta
da frente.
O céu estava
cinzento, anunciando uma chuva horrível para mais tarde. No jardim as rosas
eram só botões, nenhuma ousou desabrochar. Pelo caminho de pedras vinha
Jonathan, imponente e sério, firme como um pilar que sustenta uma grande
edificação.
Ao ver Magda
parada à porta, em lágrimas, o rapaz se apressou e ao encontrá-la não disse
palavra, apenas a abraçou e a deixou chorar, o choro daqueles que haviam
perdido um pedaço de si.
- Oi tia... -
Sussurrou enquanto abraçado à Magda, caminhava para dentro da casa da família
Altreider.
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