"Gostaria de sugerir que, para escrever com o máximo de suas habilidades, convém construir
sua própria caixa de ferramentas e depois trabalhar a musculatura para carregá-la com você.
Assim, em vez de topar com um trabalho difícil e desanimar, talvez você saiba pegar a ferramenta
certa e partir para o trabalho imediatamente."
Aqui, King recomenda que tenhamos dentro de nossas cabeças uma caixa de ferramentas, onde você terá todo material para escrever. Isso é importante e necessário. Na verdade essencial, por exemplo, ele cita que devemos ter na parte de cima da nossa caixa de ferramentas as ferramentas mais comuns e mais usadas, então nessa parte da nossa caixa devemos ter o principal: o vocabulário. vpu colocar aqui pra voces alguns exemplos que ele cita.
"Alguns escritores têm vocabulários portentosos; são sujeitos que sabem se realmente existem
coisas como ditirambos insalubres ou narradores safardanos, gente que, em trinta anos ou mais,
jamais errou uma pergunta de múltipla escolha do livro It Pays to Increase Your Word Power [Vale
a pena aumentar seu poder com as palavras], clássico da lexicologia americana, de autoria de
Wilfred Funk. Veja um exemplo:
A qualidade coriácea, infungível e quase indestrutível era um atributo inerente da organização da criatura e pertencia a
algum ciclo palco-arcaico de evolução invertebrada inteiramente fora de nossas qualidades especulativas.
H. P. Lovecraft, “Nas montanhas da loucura”
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Gostou? Aqui tem outro:
Em alguns [dos vasos] não havia qualquer evidência de que alguma coisa havia sido plantada; em outros, caules
marrons esmorecidos davam testemunho de alguma depredação inescrutável.
T. Coraghessan Boyle, Budding Prospects
[Chance em desenvolvimento; tradução livre]
E um terceiro — este é bom, você vai gostar:
Alguém arrancou a venda da mulher e ela e o malabarista foram enxotados às bofetadas e quando a companhia se
arrumou para dormir e a fogueira agonizante rugia sob o açoite do vento como uma coisa viva aqueles quatro ainda se
agachavam na orla da luz entre seus estranhos pertences e observavam o modo como as chamas desiguais vergavam ao
sabor do vento como que sugadas por algum maelstrom ali no meio do nada, algum vórtice naquela vastidão desolada
para o qual tanto a passagem do homem como seus juízos houvessem sido abolidos.
Cormac McCarthy, Meridiano de sangue
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Outros escritores usam um vocabulário menor e mais simples. Exemplos dessa escrita quase
não são necessários, mas vou oferecer alguns de meus favoritos, mesmo assim:
Ele foi ao rio. O rio estava lá.
Ernest Hemingway, “Big Two-Hearted River”
[O grande rio de dois corações; tradução livre]
Pegaram o menino fazendo algo sujo debaixo das arquibancadas.
Theodore Sturgeon, Some of Your Blood
[Parte de seu sangue; tradução livre]
Foi o que aconteceu.
Douglas Fairbairn, Shoot
[Tiro; tradução livre]
Alguns dos senhorios eram bons porque detestavam o que tinham que fazer; outros ficavam irritados porque detestavam
ser cruéis, e ainda outros eram frios, porque havia muito tinham descoberto que não se podia ser senhorio de terras sem
se ser frio.
John Steinbeck, As vinhas da ira [tradução livre]
A frase original de Steinbeck é especialmente interessante. Em inglês, são cinquenta palavras.
Dessas, 39 têm apenas uma sílaba. Sobram 11, mas mesmo este número é enganador; Steinbeck
usa “because” [porque] três vezes, “owner” [senhorio], duas, e “hated” [detestavam], duas. Não
existe palavra de mais de duas sílabas na frase. A estrutura é complexa; o vocabulário não está
muito distante daquele usado em antigas histórias infantis. As vinhas da ira é, obviamente, um
grande romance. Acredito que Meridiano de sangue seja outro, embora haja grandes trechos do
livro que não entendo completamente. E qual é o problema disso? Também não consigo decifrar
as letras de muitas músicas que adoro.
Também têm palavras que você nunca vai encontrar no dicionário, mas que fazem parte do
vocabulário. Veja só:
“Egggh, whaddaya? Whaddaya want from me?” [Iiiih, quequié? Quequié que cê quer que eu faça?]
“Here come Hymie!” [“Lá vem o Hymie
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!”]
“Unnh! Unnnh! Unnnhh!”
“Chew my willie, Yo’ Honor.” [Chupa minha caceta, otoridade.]
“Yeggghhh, fuck you, too, man!” [Iiiih, vai se fudê cê também, mané!]
Tom Wolfe, A fogueira das vaidades [tradução livre]
Esse último é uma transcrição fonética do vocabulário de rua. Poucos escritores têm a
capacidade de Wolfe para traduzir este tipo de fala para a página. (Elmore Leonard é outro que
consegue fazer isso.) Algumas palavras do rap de rua acabam chegando ao dicionário, mas, por
segurança, só depois de caírem em desuso. E duvido que você algum dia vá encontrar palavras
como “Yeggghhhh” em um dicionário tradicional.
Coloque seu vocabulário na primeira bandeja de sua caixa de ferramentas e não faça qualquer
esforço consciente para melhorá-lo. (Você vai fazer isso enquanto lê, é claro... mas vamos deixar
esse assunto para depois.) Uma das piores coisas que se pode fazer é tentar enfeitar o vocabulário,
procurando por palavras longas porque tem vergonha de usar as curtas de sempre.
12 Fazer isso é
como enfeitar seu animal de estimação com roupas sociais. O bichinho fica morrendo de
vergonha, e a pessoa que cometeu esse ato de fofurice premeditada deveria ficar ainda mais. Faça
agora mesmo uma promessa solene de nunca usar “gratificação” quando quiser dizer “gorjeta” e
jamais usar “John parou tempo suficiente para realizar um ato de excreção” quando quiser dizer
“John parou tempo suficiente para cagar”. Se você acha que “cagar” seria ofensivo ou inadequado
para seu público, fique à vontade para dizer “John parou tempo suficiente para se aliviar” (ou
talvez “John parou tempo suficiente para ‘empurrar’”). Não estou tentando fazer com que você
use palavrões, mas que seja objetivo e direto. Lembre que a regra básica do vocabulário é: use a
primeira palavra que lhe vier à cabeça, se for adequada e interessante. Se hesitar e ponderar, você
vai encontrar outra palavra — claro que vai, sempre existe outra palavra —, mas é bem provável
que ela não seja tão boa quanto a primeira, ou tão próxima do que você realmente quer dizer."
Concordam? Bem, como essa postagem ficou um bocado longa, prossigo na próxima segunda. O importante, como vocês viram, é usar o que tem, para que seu texto não perca o sentido. Não se envergonhem do seu vocabulário, quando verificar eles na parte superior da sua caixa de ferramentas, você deve trabalhar com o que tem. O enriquecimento do mesmo vem com a leitura, e isso é automático. Ate a próxima!
PS: Lembrem-se, estou dando um resumo e pulando bastante coisa, então recomendo que leiam se tiver interesse, vale a pena!
PSS: Perdoem por postar com atraso!
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