- Se você sair assim sem avisar
outra vez... - Dizia Magda enquanto servia o frango com batatas - Juro pela
minha mãe que eu lhe ensinarei uma boa lição!
Clarisse e
Manoel estavam sentados na cozinha dos empregados segurando o riso enquanto
levavam uma bronca.
- E não ria
Manoel! Você também saiu sem avisar! - Completou Magda entregando o prato para
o rapaz.
Manoel pegou o
prato e deu logo uma garfada. O rapaz podia ter beleza, mas não tinha modos
invejáveis à mesa, e isso fazia Magda frequentemente lhe puxar as orelhas - não
que ele não soubesse se portar, ele sabia, o que lhe faltava era vontade.
- Desculpa tia,
nem lembrei de avisá-la! - Disse Manoel de boca cheia.
- Manoel! -
Disso Magda indignada com a falta de modos do rapaz.
Clarisse
segurou um riso e continuou beliscando alguns pedaços do frango, mas não passou
disso, ela não estava com fome. Aliás, o apetite a havia abandonado no dia em
que o Senhor Altreider faleceu.
- Está melhor
querida? - Perguntou Magda se desvencilhando do avental.
- Estou sim
Magda... Andar sempre me fez bem. - Disse empurrando o prato para o lado - E
Manoel faz qualquer um rir. - Completou olhando para o rapaz que já estava nas
últimas garfadas.
- Não que eu
seja um palhaço, certo? - Disse de boca cheia, e Magda tacou-lhe o avental como
protesto pela falta de educação à mesa.
- Por Deus!
Tente ser menos ogro rapaz! Você não é mais um garoto!
Clarisse riu e
Magda não resistiu em fazer o mesmo. Manoel terminou seu prato e atacou os
restos de Clarisse - a jovem praticamente nem havia tocado na comida.
- Ainda está
chateada com Jonathan?
Magda podia ser
uma pessoa reservada e discreta, mas era sobretudo observadora, amiga e direta.
A senhora sabia como Clarisse se sentia, mas também sabia que a jovem precisava
por para fora, guardar as angústias apenas para ela mesma a faria mal, muito
mal.
- Não estou
chateada Magda. Estou ofendida e isso não vai mudar. - Clarisse esfregou os
olhos contra as mãos - Será que é possível ele me ignorar? Porque eu gostaria
de ignorá-lo até a leitura do testamento.
Clarisse a cada
minuto parecia mais cansada, exausta, infeliz, triste... O brilho e vida que
antes emanavam da moça, aos poucos a estavam abandonando, e talvez o que
restasse depois disso fosse apenas uma casca vazia.
Magda se sentou
e pegou as mãos da moça. Estavam frias e um pouco trêmulas, seus olhos estavam
com olheiras, a roupa amassada, o coração em pedaços.
- Não sei se
consigo esperar mais Magda. Minha vontade é de ir embora, abrir mão de qualquer
coisa que o Tio Thomas tenha deixado...
- Não diga isso
nem de brincadeira! Ele certamente não aprovaria isso! - Interrompeu a senhora
apertando com força as mãos de Clarisse.
- Você sabe,
não sabe Magda? Que só estou aqui por ele, para fazer a última vontade dele. No
que dependesse de mim...
- Já teria
partido há muito tempo. Teria partido no dia em que ele faleceu.
Então houve
silêncio, Clarisse tentava conter as lágrimas com dificuldade, mas algumas
escapavam involuntariamente, Magda se segurava para não abraçar a moça, sabia
que era disso que Clarisse precisava naquele momento, mas isso a faria perder o
controle e chorar feito uma menina, e Magda sabia que Clarisse não queria isso,
não queria chorar na frente de ninguém.
- Tia Magda a
senhora sabe o que tem no testamento, não sabe? - Perguntou Manoel agarrando o
copo de suco com tanta força que poderia quebrar.
Magda soltou as
mãos de Clarisse e fitou o rapaz. Clarisse conteve as últimas lágrimas, enxugou
as que já haviam caído e também fixou o olhar em Manoel.
- Por que eu
saberia Manoel?
Manoel não era
apenas um faz-tudo na casa da família Altreider, ele crescera ali também, fora
acolhido por Thomas e criado como se fosse da família, exatamente como
acontecera com Clarisse. O rapaz não era ingênuo como Clarisse.
- Porque, pelo
que conheço - conhecia - do tio Thomas, ele não contaria pra mais ninguém. - O
rapaz suspirou e engoliu o resto do suco - Não precisa contar se não quiser.
Magda se levantou
e apanhou o avental caído ao lado de Manoel. Afagou os cabelos do rapaz e deu
um beijo em Clarisse.
- Acho que essa
conversa está encerrada. - Deu meia volta e saiu pela porta que levava à área
de serviço.
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