Anita
olhou pela janela da cozinha e Logan e Loren vinham.
–
Pela Deusa, meninos, onde vocês se meteram?
–
Estávamos na cabana durante a chuva. – disse Logan.
Loren
subiu as escadas.
–
Realmente difícil de acreditar com ambos molhados como pinguins! – disse. – Vou
preparar chocolate quente para vocês. O tempo parece que não vai mudar. – disse
e colocou algo no fogo. – Posso falar com você, Logan?
–
Claro. – disse ele.
Ela
o arrastou até a sala de costura.
–
Que diabos você fez para a minha menina? – perguntou em tom baixo, porém
severo.
–
Eu a consolei. – disse. – Você sabia que ela não quer se apegar a ninguém? Ela
me disse isso.
Anita
levou as mãos à boca.
–
É por isso que ela é tão fria comigo? – perguntou Anita, e ele se admirou em
ouvir isso. Ele pensava que ela era diferente com Anita. – Como você conseguiu
fazer ela falar? O que houve?
–
Ela me impediu de matar Eliwood. – disse. – Nós discutimos, quando começou a
chover, e ficamos lá.
–
Filho, Loren não é uma pessoa fácil. – disse ela. – Se ela tem em mente não se
apegar a ninguém, não se apegue a ela.
–
Anita? – chamou ela da cozinha.
Anita
foi até lá, Loren estava com roupas secas, e estava encostada na porta, olhando
para fora, ela apontou para o fogão, onde o chocolate fervia.
–
Oh, quase havia me esquecido.
Logan
olhou para a jovem, e subiu as escadas, entrando no banheiro. Tomou um banho e
foi para o quarto. O céu estava escuro de nuvens pesadas, e Anita abriu a
porta, deixando a caneca de chocolate quente sobre a escrivaninha, puxou a
cadeira e se sentou.
–
Quando eu era jovem, eu era órfã também, e tinha dois irmãos mais novos para
cuidar. – disse. – Não foi fácil cuidar deles sozinha, e eles sumiam das minhas
vistas para aprontar sempre que podiam. – disse sorrindo.
Ele
pegou a caneca e se sentou com as pernas cruzadas, sobre a cama.
–
Raimund e Victor eram os nomes deles. Uma vez Raimund e Victor se perderam na
floresta, perto de onde um dos servos de Spietato moravam. E todo dia àquela
hora ele soltava seus lobos. Um deles pegou Victor, e eu corri para proteger
Raimund, quando seu pai apareceu, matando os lobos. Cliff conseguiu uma grande
confusão pra ele, por ter matado os lobos, mas havia salvado minha vida, e a de
meu irmão também. Eu nunca tive a oportunidade de retribuir o favor... E Loren
me lembra seu pai.
Logan
olhou curioso para Anita.
–
Seu pai era como ela, solitário, evitava as pessoas. Se sentia bem na floresta.
Nunca pensei que ele fosse capaz de se apaixonar, até que ele conheceu uma moça
e sumiu. – disse. – Não cheguei a conhecer a sua mãe, mas ela fez uma mudança
em seu pai.
–
O que está me dizendo, Anita? – indagou, com um sorriso tímido.
Ela apenas sorriu de volta e saiu do quarto,
fechando a porta e o deixando com seus pensamentos. Ele se lembrou do que Loren
havia desenhado no chão da cabana com a ponta da adaga. Ela havia desenhado um
nó celta. Sua mãe o havia dito uma vez, enquanto o ensinava sobre os símbolos,
que ele significava o nó infinito que enlaça todas as coisas, e que ele era um
poderoso símbolo de proteção. O punho da adaga dela era desenhado com o nó
celta, do mesmo modo que a prata trabalhada no relicário da sua mãe. Haviam
muitos significados para o nó. Ele pegou o relicário, e o abriu. Suspirou e o
fechou.***
–
Quer trabalhar aqui? – perguntou o velho, ajeitando os óculos, então o chamou
para entrar na loja.
Nos
fundos da loja havia muita serragem e lascas de madeira, ele colocou um cavalo
esculpido na madeira diante dele, e deu a ele um cubo de madeira. Ele colocou
um cinzel e um martelo diante dele.
–
Mostre-me do que você é capaz. – e saiu.
Logan
olhou o cavalo e pegou o cinzel e o martelo, começando a trabalhar na madeira.
Uma vez tinha aprendido com seu pai que isso poderia ser um bom remédio para
acalmar a ansiedade. Ele sorriu, enquanto tirava o excesso do cubo, e logo
começou a esculpir o cavalo. Começando pelo rosto, o formato dos olhos, e ele
ficou a manhã inteira ali, até que o velho voltou. Ele se chamava Bill.
–
Ora, mas vejam só! Exclamou ele vendo o cavalo que Logan tinha feito. – Você é
raro, garoto.
–
Obrigada, senhor. E então? – indagou, colocando o cinzel na mesa.
–
Muito bom... – murmurava enquanto analisava o cavalo. – Como se chama?
–
Logan. – disse.
–
Muito bom mesmo, Logan. – disse, elogiando ele mais uma vez. – Você acha que
pode fazer algo de porte maior?
–
Acho que sim, o que seria?
–
A filha do ministro quer um piano de cauda. Tenho aqui um esboço das peças, é
mais fácil do que o cavalo, mas tem que ter cuidado com a madeira, um
instrumento feito à mão tem que ter boa qualidade.
–
Posso fazer. – disse olhando o desenho das partes nas folhas de Bill.
–
Ótimo, garoto! Está contratado. A Srta. Bianchi vem todos os dias aqui, e estou
ficando maluco. Tenho muitas outras coisas a fazer.
–
Srta. Bianchi?
–
A filha do ministro. – disse um pouco irritado, e olhou para o arco dele. –
Belo arco, filho. Você quem fez?
–
Não, foi um presente.
–
Você sabe usá-lo?
–
Certamente. – disse.
–
Bom, muito bom. Você começa já. Veja, aquela é a madeira que eu separei para o
piano. Você pode começar. Preciso comprar algumas coisas, cuide da loja pra
mim, certo? Sempre que a sineta tocar, você vai ao balcão. Tentarei voltar logo.
Logan
observou Bill sair, e voltou-se para a madeira. Anita tinha dito a ele que Bill
estava precisando de alguém, e um serviço era uma boa distração. Ele espiou no
esboço, e mediu a madeira, moldando as beiradas, e lixando. Ele ficou por horas
trabalhando naquilo, e as duas maiores partes já estavam prontas e lixadas, ele
ia começar as menores, quando a sineta tocou.
Ele
tirou o pó da madeira da roupa e saiu. Uma jovem bonita, de cabelos castanhos e
olhos verdes, muito bem vestida, estava ali, e olhou para Logan como se
estivesse olhando para algo fascinante.
–
Posso ajudá-la? – perguntou.
–
Ah... Eu... Encomendei um piano de cauda... E... – disse, quase como se não
conseguisse se lembrar.
–
Você é a Srta. Bianchi? – indagou.
–
Sim, sou eu. – disse.
–
Seu piano está sendo feito por mim. – disse ele. – Comecei hoje, e não tenho
previsão de quando ficará pronto. – completou, sendo profissional.
–
Hmm, ah, certo. – disse, sem se mover.
–
Oh, Srta. Bianchi! – exclamou Bill, entrando com grandes pacotes e Logan foi
ajudá-lo. – Veio saber sobre o piano, imagino.
–
Ah, sim... – disse, observando Logan carregar os pacotes para dentro da loja. –
Ele está fazendo, certo?
–
Grande jovem. – disse Bill. – Difícil encontrar alguém com talento assim. Quer
se sentar?
–
Oh, não, obrigada pela gentileza. Amanhã retorno.
–
Claro, até breve, então.
Bill
entrou nos fundos da loja, e viu as duas peças do piano.
–
Minha nossa, você é ágil. Deus me abençoou com você, quanto mais rápido este
piano ficar pronto, menos visitas da Srta. Bianchi. – disse.
Logan
terminou algumas peças pequenas, e perto do anoitecer, foi para casa. Ouvia-se
vozes da sala de costura, o que significava que Anita estava com clientes. Ele
subiu e tomou banho, deixou seu arco sobre a cama e desceu para a sala, onde
haviam vários livros. A lareira estava acessa, e ele pode ver que Loren estava
na poltrona, pois uma mecha de seu cabelo escapava da silhueta do móvel.
Ele
olhou para a prateleira, grande parte dos livros de Anita eram celta, o tipo de
livros que tinham na prateleira de seu pai e ele pegou um de contos, e se
sentou em uma poltrona, completamente fora do campo de visão de Loren. Abriu o
livro em um conto que se chamava Cerridwen e Gwyon. Mas ele não conseguia se
concentrar na história e tinha que ler a mesma frase mais de uma vez, até que
desistiu e foi à cozinha.
–
Anita. – disse ao vê-la cozinhar. – Consegui o emprego.
–
Eu já sei. – disse sorrindo.
–
Como?
–
Dora Bianchi é uma de minhas clientes. Estava super empolgada, falando de um
jovem belo e misterioso que está trabalhando com o Sr. Bill. – disse.
Logan
riu.
–
Belo e misterioso? Mas ela só me viu hoje!
–
Não seja assim! Ela está apaixonada, deixe ela se expressar.
–
Anita, eu não tenho tempo para essas futilidades. – disse. – Vou juntar um
dinheiro e ir atrás dos rebeldes.
–
Ah, sim! É tudo que eu precisava, de mais um maluco nessa casa! – disse,
mexendo algo no tacho. – Você sabe como se punem os rebeldes?
–
Isso não me faz perder o sono. Mas já percebi que preciso ganhar tempo e informações
antes de fazer algo.
–
E não chame o amor é fútil. – disse. – Ele é algo maravilhoso.
Loren
passou por eles com o violoncelo, e saiu para a noite, ele a observou sumir e
voltou a olhar para Anita.
–
Dora está encantada com o fato de você estar fazendo o piano dela.
Principalmente por que Bill te elogiou, e todos sabemos como Bill é seletivo
com isso.
–
Hmm. – fez ele, bebendo um copo de suco.
–
Ah, inclusive ela quase desmaiou quando soube que você mora comigo.
Ele
engasgou.
–
O que foi? – perguntou ela. – Deixei de por açúcar?
–
Anita, ela é filha do ministro. E se Eliwood informou sobre um possível
fugitivo?
–
Não se preocupe, Dora não fala sobre essas coisas com o pai dela. E apesar de
você pensar desse modo, ela pode nos informar sobre Eliwood, coisas que ela
consegue facilmente.
Ele
levantou as sobrancelhas, pensando sobre o assunto.
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