Tentei me ajeitar melhor no
sofá. Havia algo me pinicando entre as almofadas, mas na dúvida entre ser chata
e indelicada, preferi ignorar e fingir que não havia nada. David preparou um
lanche com hambúrguer, ovo frito e bacon - é claro que era esse o cheiro tão
bom que eu havia sentido. Não que eu quisesse algo melhor, mas ele parecia tão
concentrado quando apareci que eu imaginei que fosse algo mais... Elaborado.
- É melhor comer tudo... Pra
não desmaiar. - Ele disso sentando a minha frente com um lanche maior que o
meu.
Permaneci em silêncio enquanto
comia. Não sei dizer se estava com vergonha ou o que, só sei que não conseguia
olhar pra ele e nem falar com ele. Acho que ele também ficou meio estranho com
o que quase aconteceu, já que não disse mais nenhuma palavra depois que
terminou de comer.
Mas o que é que eu tô
pensando?! Não aconteceu nada de mais, ele apenas me ajudou a sentar no sofá,
só isso. E nada aconteceria além disso. O que mais eu podia esperar do cara é
meu "padrinho". Puta merda, isso tudo já está me deixando de saco
cheio.
David levantou pra levar os pratos
e depois foi para o quarto. Não demorou muito e apareceu vestido com uma
jaqueta escura e uma mochila pequena.
- Fique aqui. Vou fazer umas
coisas e mais tarde volto. - Então seguiu até a porta e, antes de sair deu uma
última olhada em mim - Tranque a porta e não abra pra ninguém.
Fazer o que ele pediu foi
fácil, difícil foi ficar horas trancada sem fazer nada. O lado positivo foi que
tive muito tempo pra refletir sobre várias coisas, tempo pra processar toda
aquela história maluca, tempo pra entender, me acalmar e aceitar...
Mal cheguei no ponto de
encontro e Nathanael já estava me esperando. A sua direita estava o cliente,
Senhor Maxwell, um homem alto de cabelos grisalhos e um sorriso encantador -
ninguém diria que faz parte da maior rede de prostituição que já se ouviu
falar.
- Vejam só se não é a minha
menina! - Disse Nathanael vindo me abraçar - E então, como foi?
- Imagino que bem doloroso,
como o cliente pediu. - Disse me soltando do abraço - E o dinheiro?
Maxwell carregava uma maleta
preta, ele a entregou a mim.
- Pode conferir se desejar. -
Disse me fitando de um jeito que me fez pensar no quanto ele deveria ser
obsceno.
Apanhei a maleta e dei as costas.
Conferi novamente as horas no relógio e virei o rosto para me despedir de
Nathanael.
- Foi um prazer revê-lo tio.
Quando quiser falar sobre mais trabalho sabe onde me encontrar.
- Bem... - Disse ele colocando
a mão sobre o ombro de Maxwell - É exatamente por isso que Max veio entregar o
dinheiro pessoalmente querida. Ele deseja lhe fazer uma proposta.
Virei meu rosto para frente, e
respirei fundo.
- Desculpe tio, só trabalho
para o senhor. Encomendas extras são perigosas. - Então comecei a caminhar em direção
ao meu carro, que estava parado a alguns metros do ponto de encontro.
O ponto de encontro era uma
fábrica abandonada de reciclagem - eu havia escolhido o lugar justamente pela
relação que isso tem com o meu passado. Sempre que alguma dúvida chegasse até
mim sobre o meu papel ser correto ou não, o lugar deveria servir como um
lembrete do motivo pelo qual eu entre nesse jogo. Entretanto acho que isso faz
pouca diferença, já que nunca hesitei em pegar qualquer encomenda.
- Três vezes o valor que te
paguei hoje. - Disse Maxwell, e isso me fez parar de andar - E estou falando
apenas de sinal. Cinco vezes mais quando o serviço for completado. Dinheiro
vivo ou ouro, se preferi. Também trabalho com jóias e roupas, você pode
escolher a forma de pagamento que melhor lhe convir.
Abri o carro e joguei a pasta
no banco do passageiro.
- E qual é a encomenda? - Disse
me virando para Nathanael e me encostando no carro - Só aceito depois que
souber onde estou me metendo. Caso contrário nem penso no assunto.
Maxwell apanhou um envelope
marrom que um dos seus seguranças estava segurando e o ofereceu a mim.
- Tudo o que precisa saber está
aqui. - Então entregou a Nathanael - Não precisa responder agora. Não tenho
tanta pressa. Mas quero uma resposta.
Então ele se virou e seguiu na
direção do que deveria ser o seu carro. Nathanael veio caminhando até mim com
um sorriso de satisfação. A essa altura
eu já estava me corroendo por dentro de curiosidade sobre o que havia dentro do
envelope.
- Vai pensar no assunto? -
Nathanael me perguntou após me entregar o envelope, abrindo a porta do carro
para que eu entrasse.
Entrei e coloquei o envelope
sobre a pasta.
- Certamente. Eu sempre penso
no assunto. - Então sorri. Nathanael mal fechou a porta do carro e saí cantando
o pneu. Não que houvesse perigo ficar ali, mas nunca se sabe, principalmente
quando se está carregando milhares de euros dentro de uma pasta.
***
David chegou já estava quase de
manhã. Não que eu tivesse passado a noite acordada, eu até cochilei umas duas
ou três vezes, mas é que ele disse pra não abrir a porta pra ninguém, e isso
soou mais como "o lugar não é seguro".
Eu estava largada no sofá com
uma revista no colo quando ouvi o barulho da maçaneta virando. Se fosse um
ladrão eu certamente estaria ferrada, porque no tempo que levei pra levantar e
chegar até a porta David já havia entrado.
- Oi. - Ele disse.
- Oi. - Eu respondi reparando que
ele estava sem a mochila e segurando uma sacola pequena.
David tirou a jaqueta e a jogou
no sofá. Deixou a sacola sobre a bancada e pegou uma cerveja na geladeira.
- Ficou acordada? - Perguntou
evitando me olhar diretamente. tenho que dizer que isso me irrita muito.
- Não. Acordei agora a pouco. -
Disse e tranquei a porta que ele havia deixado aberta. Caminhei até o sofá e
apanhei a revista.
Ouvi David resmungar algo como
"não faça isso", e fiquei mais irritada do que já estava.
- O que foi que disse? -
Perguntei me virando para ele.
David deu um gole na cerveja e
apanhou a sacola, atirando-a para mim.
- Eu disse... Pra não fazer
isso. - Ele disse dessa vez me olhando diretamente - Esses são seus novos
documentos.
David deu mais um gole na
cerveja enquanto eu me sentava no braço do sofá e vasculhava a sacola pra saber
o que tinha dentro: um passaporte, uma carteira de habilitação, um celular...
- Eu não sei dirigir. - Disse e
quando me dei conta David estava na minha frente, um pouco perto demais, eu
acho...
Ele deu mais um gole na
cerveja, e percebi que ele também fazia isso quando estava nervoso.
- Isso não importa. A
habilitação substitui o RG e o CPF, por isso sai mais barato. - Então deu mais
gole na cerveja - Não use o celular pra falar com pessoas que eu não autorizar.
É perigoso. - David se sentou a minha frente e me olhou como se me analisasse -
A partir de agora você tem 18 anos, se chama Mary Ann e é minha prima.
O meu silêncio não foi uma
reprovação, foi mais um "ta, entendi". Mas David ficou esperando eu
responder. Enfiei tudo de volta na sacola e deixei sobre a mesinha de centro.

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