quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Viúva Negra - Capítulo III: Encomenda

Tentei me ajeitar melhor no sofá. Havia algo me pinicando entre as almofadas, mas na dúvida entre ser chata e indelicada, preferi ignorar e fingir que não havia nada. David preparou um lanche com hambúrguer, ovo frito e bacon - é claro que era esse o cheiro tão bom que eu havia sentido. Não que eu quisesse algo melhor, mas ele parecia tão concentrado quando apareci que eu imaginei que fosse algo mais... Elaborado.

- É melhor comer tudo... Pra não desmaiar. - Ele disso sentando a minha frente com um lanche maior que o meu.

Permaneci em silêncio enquanto comia. Não sei dizer se estava com vergonha ou o que, só sei que não conseguia olhar pra ele e nem falar com ele. Acho que ele também ficou meio estranho com o que quase aconteceu, já que não disse mais nenhuma palavra depois que terminou de comer.

Mas o que é que eu tô pensando?! Não aconteceu nada de mais, ele apenas me ajudou a sentar no sofá, só isso. E nada aconteceria além disso. O que mais eu podia esperar do cara é meu "padrinho". Puta merda, isso tudo já está me deixando de saco cheio.

David levantou pra levar os pratos e depois foi para o quarto. Não demorou muito e apareceu vestido com uma jaqueta escura e uma mochila pequena.

- Fique aqui. Vou fazer umas coisas e mais tarde volto. - Então seguiu até a porta e, antes de sair deu uma última olhada em mim - Tranque a porta e não abra pra ninguém.

Fazer o que ele pediu foi fácil, difícil foi ficar horas trancada sem fazer nada. O lado positivo foi que tive muito tempo pra refletir sobre várias coisas, tempo pra processar toda aquela história maluca, tempo pra entender, me acalmar e aceitar...

***

Mal cheguei no ponto de encontro e Nathanael já estava me esperando. A sua direita estava o cliente, Senhor Maxwell, um homem alto de cabelos grisalhos e um sorriso encantador - ninguém diria que faz parte da maior rede de prostituição que já se ouviu falar.

- Vejam só se não é a minha menina! - Disse Nathanael vindo me abraçar - E então, como foi?

- Imagino que bem doloroso, como o cliente pediu. - Disse me soltando do abraço - E o dinheiro?

Maxwell carregava uma maleta preta, ele a entregou a mim.

- Pode conferir se desejar. - Disse me fitando de um jeito que me fez pensar no quanto ele deveria ser obsceno.

Apanhei a maleta e dei as costas. Conferi novamente as horas no relógio e virei o rosto para me despedir de Nathanael.

- Foi um prazer revê-lo tio. Quando quiser falar sobre mais trabalho sabe onde me encontrar.

- Bem... - Disse ele colocando a mão sobre o ombro de Maxwell - É exatamente por isso que Max veio entregar o dinheiro pessoalmente querida. Ele deseja lhe fazer uma proposta.

Virei meu rosto para frente, e respirei fundo.

- Desculpe tio, só trabalho para o senhor. Encomendas extras são perigosas. - Então comecei a caminhar em direção ao meu carro, que estava parado a alguns metros do ponto de encontro.

O ponto de encontro era uma fábrica abandonada de reciclagem - eu havia escolhido o lugar justamente pela relação que isso tem com o meu passado. Sempre que alguma dúvida chegasse até mim sobre o meu papel ser correto ou não, o lugar deveria servir como um lembrete do motivo pelo qual eu entre nesse jogo. Entretanto acho que isso faz pouca diferença, já que nunca hesitei em pegar qualquer encomenda.

- Três vezes o valor que te paguei hoje. - Disse Maxwell, e isso me fez parar de andar - E estou falando apenas de sinal. Cinco vezes mais quando o serviço for completado. Dinheiro vivo ou ouro, se preferi. Também trabalho com jóias e roupas, você pode escolher a forma de pagamento que melhor lhe convir.

Abri o carro e joguei a pasta no banco do passageiro.

- E qual é a encomenda? - Disse me virando para Nathanael e me encostando no carro - Só aceito depois que souber onde estou me metendo. Caso contrário nem penso no assunto.

Maxwell apanhou um envelope marrom que um dos seus seguranças estava segurando e o ofereceu a mim.

- Tudo o que precisa saber está aqui. - Então entregou a Nathanael - Não precisa responder agora. Não tenho tanta pressa. Mas quero uma resposta.

Então ele se virou e seguiu na direção do que deveria ser o seu carro. Nathanael veio caminhando até mim com um sorriso de satisfação.  A essa altura eu já estava me corroendo por dentro de curiosidade sobre o que havia dentro do envelope.

- Vai pensar no assunto? - Nathanael me perguntou após me entregar o envelope, abrindo a porta do carro para que eu entrasse.

Entrei e coloquei o envelope sobre a pasta.

- Certamente. Eu sempre penso no assunto. - Então sorri. Nathanael mal fechou a porta do carro e saí cantando o pneu. Não que houvesse perigo ficar ali, mas nunca se sabe, principalmente quando se está carregando milhares de euros dentro de uma pasta.

***

David chegou já estava quase de manhã. Não que eu tivesse passado a noite acordada, eu até cochilei umas duas ou três vezes, mas é que ele disse pra não abrir a porta pra ninguém, e isso soou mais como "o lugar não é seguro".

Eu estava largada no sofá com uma revista no colo quando ouvi o barulho da maçaneta virando. Se fosse um ladrão eu certamente estaria ferrada, porque no tempo que levei pra levantar e chegar até a porta David já havia entrado.

- Oi. - Ele disse.

- Oi. - Eu respondi reparando que ele estava sem a mochila e segurando uma sacola pequena.

David tirou a jaqueta e a jogou no sofá. Deixou a sacola sobre a bancada e pegou uma cerveja na geladeira.

- Ficou acordada? - Perguntou evitando me olhar diretamente. tenho que dizer que isso me irrita muito.

- Não. Acordei agora a pouco. - Disse e tranquei a porta que ele havia deixado aberta. Caminhei até o sofá e apanhei a revista.

Ouvi David resmungar algo como "não faça isso", e fiquei mais irritada do que já estava.

- O que foi que disse? - Perguntei me virando para ele.

David deu um gole na cerveja e apanhou a sacola, atirando-a para mim.

- Eu disse... Pra não fazer isso. - Ele disse dessa vez me olhando diretamente - Esses são seus novos documentos.

David deu mais um gole na cerveja enquanto eu me sentava no braço do sofá e vasculhava a sacola pra saber o que tinha dentro: um passaporte, uma carteira de habilitação, um celular...

- Eu não sei dirigir. - Disse e quando me dei conta David estava na minha frente, um pouco perto demais, eu acho...

Ele deu mais um gole na cerveja, e percebi que ele também fazia isso quando estava nervoso.

- Isso não importa. A habilitação substitui o RG e o CPF, por isso sai mais barato. - Então deu mais gole na cerveja - Não use o celular pra falar com pessoas que eu não autorizar. É perigoso. - David se sentou a minha frente e me olhou como se me analisasse - A partir de agora você tem 18 anos, se chama Mary Ann e é minha prima.

O meu silêncio não foi uma reprovação, foi mais um "ta, entendi". Mas David ficou esperando eu responder. Enfiei tudo de volta na sacola e deixei sobre a mesinha de centro.


- Mary Ann é um bom nome. - Disse e vi David relaxar - Você disse pra eu não fazer "isso". - Eu mal terminei a frase e vi David começar a ficar ansioso e nervoso - Agora me explica: o que é pra eu não fazer? 




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