Ele
acordou e olhou ao redor. Estava em uma cabana, e pela a janela podia ver que
estava ficando de noite. Ele olhou ao redor, procurando seu arco.
–
Está procurando por isso? – perguntou Loren, saindo das sombras, com o arco
dele nas mãos.
Ele
foi até ela, e ela apontou a adaga para ele.
–
Não seja tolo. – disse, e entregou a ele o arco. – Você devia me agradecer,
afinal.
–
Agradecer? – disse irritado. – Você me fez perder a oportunidade...
–
De cometer um erro terrível e matar todos nós. De nada. – interrompeu ela, se
encostando no pilar de madeira.
–
Claro que não. Eliwood provavelmente é informante de Spietato. Se ele
morresse...
–
Seria como gritar;Hey, Spietato, venha nos matar, vamos começar uma rebelião. –
disse ela, irritada também.
Logan
voltou a se sentar no chão, entendendo o que ela dizia.
–
Mas se nunca houver uma rebelião, nunca haverá liberdade. – disse ele. – E
sempre será miséria para nós.
–
Sim, tem que haver rebeldes. – concordou. – Mas não aqui, e não agora. Spietato
pode destruir uma cidade mais rápido do que imagina.
Ele
a olhou por alguns segundos.
–
Você é uma rebelde?
Ela
olhou pela janela, ele se levantou e a segurou pelos ombros.
–
Chega dessa desconfiança, ok? – disse. – Por que você tem que ser assim? O que
você está escondendo?
Ela
se virou, evitando olhá-lo.
–
Ouça, se uma guerra começasse hoje, eu ficaria do lado dos rebeldes. E tenho
certeza de que você também ficaria.
–
Sim, eu ficaria. – disse com fúria. – Mas eu ficaria ao lado deles por um
motivo mais nobre do que vingança.
–
Como sabe que quero vingança?
–
Ora, você praticamente transpira vingança. – disse irritada, se afastando dele.
–
E qual seria seu motivo?
Ela
se virou, para olhá-lo nos olhos, e ele sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.
–
Justiça. – ela fechou os olhos e respirou fundo. – Vamos ter que dormir aqui.
–
Por quê?
–
Tempestade. – disse e um trovão clareou a cabana. Uma chuva forte começou a
cair no telhado.
Ele
olhou para ela, impressionado. Ela foi até um armário e tirou dois colchonetes
e quatro cobertores.
–
De quem é essa cabana?
–
Anita. – respondeu, colocando em um canto um colchonete e dois cobertores. –
Você dorme ali.
Ela
arrumou o seu um pouco distante, pegou um pouco da lenha que havia empilhada
ali e acendeu a lareira. Logan se cobriu com uma coberta, usando a outra de
travesseiro, e ficou pensando. Loren tinha razão, justiça era um bom motivo
para lutar, não vingança. Ele observou ela ir para seu colchonete se deitar e
se encolher como uma criança desamparada. A chuva era forte do lado de fora e
demorou muito tempo para ele perceber que ela chorava.
Da
onde ele estava, ele podia ver as costas dela, e seu cabelos castanho dourado
espalhado pelo travesseiro. Ele se apoiou no cotovelo, o vento forte assobiava,
mas ele podia ouvir os soluços dela. Ele se lembrou da primeira noite que
passou nas masmorras, longe da sua mãe, e com a cena de seu pai fresca na
cabeça. Ele havia se deitado exatamente daquele jeito e chorado muito. Ele se
levantou e foi até ela, se sentando ao lado, e ela se virou, desconfiada. Seus
olhos estavam vermelhos, e ela secava as lágrimas na manga.
–
Eu posso ajudar? – perguntou ele.
Ela
se sentou.
–
Ninguém pode. – disse ela, se cobrindo até o pescoço com a coberta. Seu olhar
era distante, e ele podia ver o brilho das chamas no reflexo do seus olhos
cinzentos.
–
Eu já passei por noites parecidas. – disse ele. – Às vezes é ruim estar
sozinho.
–
Eu... – começou ela, e se afastou. – Prefiro do meu jeito.
–
Eu sei que do seu jeito não está funcionando. Eu escuto você chorar todas as
noites. – disse.
Ela
olhou para ele.
–
O que há de errado com você? O que te fez prestar atenção em mim?
–
Sua musica. – disse, cutucando a madeira do chão com uma flecha. – Você é
Feiticeira?
Ela
sorriu de leve.
–
Pensa que eu sou uma?
–
Sua musica parece enfeitiçar...
–
A musica, quando tocada com a alma, consegue ser magica por si só. Eu não sou
feiticeira.
–
Sua musica, aquele dia no teatro, me fez lembrar de coisas ruins na minha vida.
– disse ele. – Já na floresta, ela me acalmou.
Ela
encostou a cabeça no armário.
–
Eu não deveria falar com você. – disse ela de repente.
–
Por quê?
Ela
pegou a adaga e começou a desenhar algo no chão.
–
Eu quero perder a capacidade de me apegar às pessoas. – disse ela. – Porque eu
sei que um dia eu vou perdê-las. Nada é para sempre, só a dor e o sofrimento, e
é só isso que resta pra quem fica.
Ele
olhou para o fogo, e depois voltou a olhá-la.
–
Isso é muito triste Loren. – disse. – Mas se você pensar assim, nunca vai
experimentar o que é amar, ou ser feliz.
Ela
o olhou, e segurou os joelhos. Parecia à beira das lágrimas novamente.
–
Passamos por desilusões, dores, e feridas que nunca de fecham de verdade.
Injustiça e sofrimento está por toda a parte. Só temos que aprender a ser
fortes. É tudo isso que nos torna fortes. E é somente quando vemos uma
injustiça que queremos a justiça. – disse ele.
Uma
lágrima solitária caiu dos olhos dela. Mas ela não o olhava, fitava as chamas
com olhos distantes.
–
Quando eu tinha quatro anos, eu acreditava que meus pais eram imortais. Pensei
que eles estariam para sempre do meu lado, me ensinando... Me protegendo. Eu os
perdi para sempre agora, e confesso que não vejo sentido em continuar vivendo,
além de me vingar, o que você me mostrou que era errado.
Mais
lágrimas caiam de seus olhos. Ele ofereceu a ela um abraço, ela olhou receosa
por tempo suficiente para ele desistir, mas ela o abraçou no ultimo instante,
ainda lutando contra lágrimas persistentes.
–
Minha mãe e meu pai foram queimados vivos na minha frente, e eu não pude fazer
nada... – então as lágrimas caíram sem controle. – Todos os dias eu sonho com
eles, e eu nunca vou poder mudar o que aconteceu.
Ela
se separou dele e jogou a adaga, que parou cravada na parede do outro lado. Ela
voltou a se encolher, escondendo o rosto e ele ficou sem ação. Ele queria poder
abraçá-la novamente, tentar acalmá-la, mas ela se levantou, abrindo a porta da
cabana e saindo. Ele se levantou e foi atrás.
–
Loren!
Ela
havia se escondido atrás de uma arvore, se esvaziando dos sentimentos que
faziam suas pernas tremerem, doía dentro da alma.
Logan
foi até ela e a abraçou, enquanto o dia amanhecia sobre eles.
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