terça-feira, 15 de setembro de 2015

IX

Ele acordou e olhou ao redor. Estava em uma cabana, e pela a janela podia ver que estava ficando de noite. Ele olhou ao redor, procurando seu arco.
– Está procurando por isso? – perguntou Loren, saindo das sombras, com o arco dele nas mãos.
Ele foi até ela, e ela apontou a adaga para ele.
– Não seja tolo. – disse, e entregou a ele o arco. – Você devia me agradecer, afinal.
– Agradecer? – disse irritado. – Você me fez perder a oportunidade...
– De cometer um erro terrível e matar todos nós. De nada. – interrompeu ela, se encostando no pilar de madeira.
– Claro que não. Eliwood provavelmente é informante de Spietato. Se ele morresse...
– Seria como gritar;Hey, Spietato, venha nos matar, vamos começar uma rebelião. – disse ela, irritada também.
Logan voltou a se sentar no chão, entendendo o que ela dizia.
– Mas se nunca houver uma rebelião, nunca haverá liberdade. – disse ele. – E sempre será miséria para nós.
– Sim, tem que haver rebeldes. – concordou. – Mas não aqui, e não agora. Spietato pode destruir uma cidade mais rápido do que imagina.
Ele a olhou por alguns segundos.
– Você é uma rebelde?
Ela olhou pela janela, ele se levantou e a segurou pelos ombros.
– Chega dessa desconfiança, ok? – disse. – Por que você tem que ser assim? O que você está escondendo?
Ela se virou, evitando olhá-lo.
– Ouça, se uma guerra começasse hoje, eu ficaria do lado dos rebeldes. E tenho certeza de que você também ficaria.
– Sim, eu ficaria. – disse com fúria. – Mas eu ficaria ao lado deles por um motivo mais nobre do que vingança.
– Como sabe que quero vingança?
– Ora, você praticamente transpira vingança. – disse irritada, se afastando dele.
– E qual seria seu motivo?
Ela se virou, para olhá-lo nos olhos, e ele sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.
– Justiça. – ela fechou os olhos e respirou fundo. – Vamos ter que dormir aqui.
– Por quê?
– Tempestade. – disse e um trovão clareou a cabana. Uma chuva forte começou a cair no telhado.
Ele olhou para ela, impressionado. Ela foi até um armário e tirou dois colchonetes e quatro cobertores.
– De quem é essa cabana?
– Anita. – respondeu, colocando em um canto um colchonete e dois cobertores. – Você dorme ali.
Ela arrumou o seu um pouco distante, pegou um pouco da lenha que havia empilhada ali e acendeu a lareira. Logan se cobriu com uma coberta, usando a outra de travesseiro, e ficou pensando. Loren tinha razão, justiça era um bom motivo para lutar, não vingança. Ele observou ela ir para seu colchonete se deitar e se encolher como uma criança desamparada. A chuva era forte do lado de fora e demorou muito tempo para ele perceber que ela chorava.
Da onde ele estava, ele podia ver as costas dela, e seu cabelos castanho dourado espalhado pelo travesseiro. Ele se apoiou no cotovelo, o vento forte assobiava, mas ele podia ouvir os soluços dela. Ele se lembrou da primeira noite que passou nas masmorras, longe da sua mãe, e com a cena de seu pai fresca na cabeça. Ele havia se deitado exatamente daquele jeito e chorado muito. Ele se levantou e foi até ela, se sentando ao lado, e ela se virou, desconfiada. Seus olhos estavam vermelhos, e ela secava as lágrimas na manga.
– Eu posso ajudar? – perguntou ele.
Ela se sentou.
– Ninguém pode. – disse ela, se cobrindo até o pescoço com a coberta. Seu olhar era distante, e ele podia ver o brilho das chamas no reflexo do seus olhos cinzentos.
– Eu já passei por noites parecidas. – disse ele. – Às vezes é ruim estar sozinho.
– Eu... – começou ela, e se afastou. – Prefiro do meu jeito.
– Eu sei que do seu jeito não está funcionando. Eu escuto você chorar todas as noites. – disse.
Ela olhou para ele.
– O que há de errado com você? O que te fez prestar atenção em mim?
– Sua musica. – disse, cutucando a madeira do chão com uma flecha. – Você é Feiticeira?
Ela sorriu de leve.
– Pensa que eu sou uma?
– Sua musica parece enfeitiçar...
– A musica, quando tocada com a alma, consegue ser magica por si só. Eu não sou feiticeira.
– Sua musica, aquele dia no teatro, me fez lembrar de coisas ruins na minha vida. – disse ele. – Já na floresta, ela me acalmou.
Ela encostou a cabeça no armário.
– Eu não deveria falar com você. – disse ela de repente.
– Por quê?
Ela pegou a adaga e começou a desenhar algo no chão.
– Eu quero perder a capacidade de me apegar às pessoas. – disse ela. – Porque eu sei que um dia eu vou perdê-las. Nada é para sempre, só a dor e o sofrimento, e é só isso que resta pra quem fica.
Ele olhou para o fogo, e depois voltou a olhá-la.
– Isso é muito triste Loren. – disse. – Mas se você pensar assim, nunca vai experimentar o que é amar, ou ser feliz.
Ela o olhou, e segurou os joelhos. Parecia à beira das lágrimas novamente.
– Passamos por desilusões, dores, e feridas que nunca de fecham de verdade. Injustiça e sofrimento está por toda a parte. Só temos que aprender a ser fortes. É tudo isso que nos torna fortes. E é somente quando vemos uma injustiça que queremos a justiça. – disse ele.
Uma lágrima solitária caiu dos olhos dela. Mas ela não o olhava, fitava as chamas com olhos distantes.
– Quando eu tinha quatro anos, eu acreditava que meus pais eram imortais. Pensei que eles estariam para sempre do meu lado, me ensinando... Me protegendo. Eu os perdi para sempre agora, e confesso que não vejo sentido em continuar vivendo, além de me vingar, o que você me mostrou que era errado.
Mais lágrimas caiam de seus olhos. Ele ofereceu a ela um abraço, ela olhou receosa por tempo suficiente para ele desistir, mas ela o abraçou no ultimo instante, ainda lutando contra lágrimas persistentes.
– Minha mãe e meu pai foram queimados vivos na minha frente, e eu não pude fazer nada... – então as lágrimas caíram sem controle. – Todos os dias eu sonho com eles, e eu nunca vou poder mudar o que aconteceu.
Ela se separou dele e jogou a adaga, que parou cravada na parede do outro lado. Ela voltou a se encolher, escondendo o rosto e ele ficou sem ação. Ele queria poder abraçá-la novamente, tentar acalmá-la, mas ela se levantou, abrindo a porta da cabana e saindo. Ele se levantou e foi atrás.
– Loren!
Ela havia se escondido atrás de uma arvore, se esvaziando dos sentimentos que faziam suas pernas tremerem, doía dentro da alma.

Logan foi até ela e a abraçou, enquanto o dia amanhecia sobre eles.

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