Ele saiu do banho, e sentiu um cheiro doce vir do quarto de frente ao dele, lembrava maçãs. Ele desceu as escadas, Anita mexia em sua pequena horta, ele se sentou encostado na cerca.
– Bom dia. – disse ela, e parou para olhá-lo melhor, ele estava pálido. – Você está bem?
– Sim. – disse.
– Você comeu os biscoitos? Acabei de fazê-los e ...
– Anita. – disse ele e ela parou. – Quando eu tinha quatro anos, Eliwood invadiu nossa casa.
Ela parou para olhá-lo, com a beterraba nas mãos. Quase esquecendo o que ia fazer.
– Foi uma noite. Ele veio com cinco soldados. Meu pai desceu primeiro, depois minha mãe e eu fui atrás. Lembro-me muito pouco do que ele disse para meu pai, antes de atirar nele, e se virou para os soldados, e eles seguraram minha mãe. Ele me viu, e mandou me levarem também. Eu era a fraqueza dela, e ele me levou por isso. Ele a obrigou a se casar com ele, me ameaçando. Ele queria que eu não soubesse ler, nem escrever, e me mantinha nas masmorras, ás vezes me deixando subir para servir as visitas. Mas sempre que ele saia, minha mãe descia com livros e me ensinava tudo. – ele sorriu ao lembrar. – Minha mãe sempre teve um gênio difícil. Como meu pai dizia, ela era indomável, com um mustangue. Ela havia conseguido de alguma forma, recuperar um arco que meu pai tinha trago pra mim, e me ensinou como usá-lo. Sempre longe dos olhos de Eliwood. Até que um dia ela foi às masmorras, chorando, tinha uma mancha roxa no braço, e eu sabia que suas lágrimas não eram de tristeza. Ela me disse que Eliwood tinha abusado dela, e jurou para mim, que se o médico dissesse que ela estava grávida, ela ia abortar. Ela estava furiosa, e disse que não teria um filho de Eliwood, nem que isso custasse sua vida. E eu sabia que nada que eu dissesse a impediria. Dois meses depois o medico disse que ela estava grávida. Não sei como ela fez, mas sei que ela teve um aborto violento e arriscado. Você pode imaginar quanto sangue ela perdeu, Anita? – indagou, engolindo em seco. – Ela ficou muito fraca e Eliwood furioso. Ele não permitiu que o médico voltasse, mesmo sabendo o estado dela, e a ultima vez que eu a vi, quase não a reconheci. Ela sempre foi cheia de vida, e depois que fora submetida a morar com Eliwood, seu rosto era uma máscara de arrogância. Mas naquele dia ela estava tão branca, seus olhos não me mostravam o brilho do verão mais, e eu sabia o que estava por vir. Depois daquele momento, Eliwood gritou comigo, e me proibiu de vê-la. E só quando fiquei sabendo que ela havia morrido, que eu fugi.
Anita parecia estar vidrada nele, até que piscou, e colocou a beterraba no buraco que havia cavado, cobrindo com terra.
– Por que Eliwood iria atrás de você?
– Eu não sei, acho que ele precisa me matar pra ter seu desejo realizado. Não basta destruir uma família, ou sugar a vida de uma pessoa aos poucos, tem que ir além. – disse. – Se eu não o matar antes.
– Não seja tolo, Logan. – disse Anita, pegando outra muda de um balde, e cavando um buraco. – Tudo nessa vida tem retorno. Veja, eu estou plantando beterrabas, e beterrabas nascerão. Se eu plantasse ódio, estaria me envenenando, e um dia eu teria que colhê-lo. A deusa se encarregará dele.
– Eu não espero mais nada disso aqui. – disse ele. – Não há mais ninguém. Não quero viver num deserto para sempre. E se eu tiver que sofrer, eu não me importo. Vou fazê-lo pagar por tudo que ele me causou e Deusa nenhuma terá essa satisfação; Ela será minha.
Ele se levantou, e Anita observou com tristeza ele entrar na casa, um rapaz alto e esguio, seus cabelos negros brilhando no sol. Era tão parecido com seu pai, mas pelo visto havia puxado o gênio da mãe.
Horas mais tarde, Logan saiu, dizendo que ia caçar. Segundo suas contas, talvez amanhã chegassem os guardas de Eliwood, para ver se a cidade era segura. Ele entrou na floresta. Se ele ficasse em um lugar alto o suficiente, e Eliwood fosse fazer um anuncio em publico, somente uma flecha seria preciso. Ele parou. No silencio da floresta, ele ouvia um som, suave e distante.
Ele começou a caminhar em direção ao som, e se escondeu atrás de algumas arvores. Loren estava sentada em um toco de árvore. Seus olhos fechados enquanto tocava. No seu rosto havia tanta tristeza, que parecia que ela havia perdido algo muito importante. Quando de repente ela mudou o ritmo, e sua expressão se tornou furiosa, e ele sabia que os sentimentos dela fluíam pelos braços, alcançando um arco que atritava com as cordas, e os transformavam em música.
Ele ficou ali por um bom tempo, de olhos fechados, sentindo sua fúria e sede de vingança se misturar com o som. O som começou a acalmar o ritmo, se tornando suave e cheio de esperança, e aquele sentimento o invadia, o deixando mais tranquilo. Como se em algum lugar ainda houvesse uma casa segura, e sua mãe iria recebê-lo de braços abertos. Talvez fosse assim seu céu, e morrer parecia uma fuga. Ele se encostou no tronco da árvore, enquanto aquela música triste o preenchia, como se ele fosse vazio e não soubesse. Ela tirava notas agudas e suaves do violoncelo, com o rosto tranquilo, sem abrir os olhos em nenhum minuto. Como se ela também pudesse ver seu paraíso.
Quando a musica parou, Logan abriu os olhos como se acordasse de um sonho. Olhou por entre as arvores. Ela pegava o violoncelo, e já estava indo, quando ouviu um ruído, e Logan também. Ele se abaixou, pegando uma flecha. Era um dos homens daquele dia. Trazia uma besta na mão e ria.
– Oi, doçura. – disse ele, e ela deu alguns passos para trás. Logan viu que ela tirava uma adaga de trás da blusa. – Sabe aquele nosso amigo que levou uma flecha? – indagou. – Ele está morto! – gritou. Seu rosto vermelho de raiva.
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