quinta-feira, 30 de julho de 2015

Viúva Negra - Capítulo II: O Padrinho (Continuação)

Explodir o lugar foi algo incrível, primeiro a expectativa, depois o barulho e o fogo, e então as cinzas. David me levou pro apartamento dele depois disso, me comprou algumas roupas e disse que eu podia  dormir na cama dele que ele dormiria na sala.

Fiquei meio perdida logo de cara, as coisas aconteceram muito rápido pra assimilar - primeiro Michel, depois minha mãe, agora um padrinho que nem conheço e uma casa nova... O pior não foi a rapidez em que tudo acontece, mas o fato de que eu havia matado 3 garotos, e David me ajudou a encobrir tudo.

Depois que cuidamos do velho galpão, David levou o carro de Michel até um desmanche de uns amigos dele, fiquei me perguntando se estava me enfiando em um lugar de onde eu não conseguiria sair depois.

- Se importa se eu te fizer umas perguntas? - Disse ao David enquanto secava meu cabelo com a toalha, tinha acabado de sair do banho, eu precisava muito de um.

David se jogou no sofá ao meu lado com uma latinha de cerveja na mão e sorriu.

- Seria estranho se você não tivesse perguntas. Manda ai.

Pensei em tudo o que eu queria perguntar, mas eram muitas coisas e se eu não me controlasse iria acabar parecendo um daqueles CD players riscados que você quer jogar fora.

- Pra começar... Você disse que minha mãe não te queria perto, e só pelo fato de você ter amigos nem desmanche de carros eu começo a me perguntar se ela não estava com a razão... - Disse mais pra mim mesma do que pro David.

David apoiou os cotovelos sobre os joelhos enquanto segurava a latinha numa mão e coçava o queixo com a outra.

- Cê tá com medo que seja um mau elemento? - Ele perguntou meio sério e meio risonho.

- Não! Não, por Deus, não é isso! - Eu meio que fiquei desesperada, ele era um aliado, um amigo, eu estava soando como uma ingrata - O que eu quero dizer... Você conheceu meu pai, minha mãe nunca falava dele e eu lembro pouca coisa... Além disso, eu matei três caras e ao invés de você chamar a polícia, você me ajudou a destruir as provas, todas elas... - Então olhei nos olhos de David - Não que você seja um mau elemento, e não que você não seja, mas eu tô bem confusa e nem sei por onde começar a perguntar tudo o que eu quero saber.

David olhou para as próprias mãos por um segundo e então começou a falar coisas que eu nem imaginava que ele poderia dizer sobre a minha família.


- Seu pai e eu crescemos juntos, no pior bairro que uma criança poderia morar. É claro que nos tornamos o que todo adolescente que morava lá se tornava: mula. Depois de um tempo trabalhando no tráfico resolvermos que já era hora de ter o nosso próprio negócio, e então começamos a nossa própria banca. - David disse se encostando no sofá e colocando os pés sobre a mesinha de centro, cheia de revistas pornôs.

- Não foi fácil, mas também não é nada difícil se você quer saber. Então seu pai conheceu a Lea, eles começaram a sair e ele descobriu que a família dela tinha um negócio tão bom quanto o nosso, entretanto era menos perigoso, com menos riscos: um desmanche. Nós paramos com o nosso negócio, passamos tudo pra um outro cara que vendia com a gente, é claro que de cara a gente se fodeu, tivemos que bancar do nosso bolso pra conseguir sair de boa, mas até ai a gente já esperava, isso sempre acontece.

David deu um último gole na latinha e jogou ela pela janela, fiquei imaginando se havia alguém passando na rua lá embaixo.

- Então nós começamos com o lance do desmanche e a grana que entrava era fácil, não tão fácil quanto o negócio antigo, mas era bem menos perigoso, tinha vários laranjas pra assumir a culpa e isso facilitava pro nosso lado.  Acontece que o pai da Lea acabou sendo morto por uns caras, pelo o que eu fiquei sabendo era uma treta das antigas e aquilo foi pura retaliação. A Lea não se conformou e queria foder os caras, ai ela queimou eles pra um policial que ela conhecia, eles tinham um desmanche bem menor que o dela e usavam o lugar pra traficar também.  Ai já viu né, ela fodeu os caras e depois os caras foderam com ela. O incêndio na sua casa não foi acidental, pode ter certeza. Aliás, eu tava lá na sua rua não porque fiquei sabendo do incêndio, eu tava lá porque me ligaram avisando que os caras tinham saído da gaiola, e eu fui pra avisar a sua mãe. - Ele disse olhando pra mim de um jeito que fez arrepiar até o meu último fio de cabelo.

- Pera ai, você ta querendo dizer que... - Eu queria formar uma frase inteira, mas as palavras não vinham, eu estava perplexa demais pra pensar em algo que fosse coerente, aliás toda a história até agora me parecia viagem demais pra assimilar.

David passou as mãos nos cabelos e começou a coçar a nuca, percebi que isso era um sinal de que ele estava um pouco desconfortável e nervoso.

- Não tô querendo dizer nada princesa, eu tô dizendo, e pode acreditar que eu não ia inventar essa porra toda. Agora escuta que ainda não acabou.

David voltou a ficar na posição inicial: cotovelos sobre os joelhos, agora com as mãos entrelaçadas.

- Depois que o pai da Lea morreu ela quis se desfazer do negócio, deixou tudo na mão de um primo, ou seja, o cara pra quem eu levei o carro. Enfim, ela ficou meio desnorteada e disse que queria parar com tudo, inclusive pediu um tempo pro Fael. Eu e o teu pai ficamos sem grana, sem trampo, sem nada. Então apareceu uma oportunidade de ouro, um amigo do pai da Lea veio perguntar se a gente não queria fazer uns serviços pra ele, coisa rápida e uma grana alta envolvida: queima de arquivo. O cara trabalhava, e ainda trabalha, com documentação falsa e venda de artigos no exterior, ou seja, todo tipo de objeto de valor, seja jóia, vaso, dente, qualquer porcaria, ele tem um contato no exterior que vende ou desmancha e transforma em algo que possa ser vendido.

- Mas porque não vender aqui mesmo, porque levar pra fora do país pra vender? - Os fatos iam se encaixando com pequenas coisas que a minha mãe falava quando estava muito bêbada, antes eu pensava que era apenas invenção pra chamar a minha atenção, mas agora eu começava a entender e a me interessar pelo que realmente havia acontecido.

David pensou uns instantes sobre a minha pergunta, pra ele a resposta era óbvia, mas pra mim, que não entendo nada do assunto - pelo menos ainda - essa pergunta é bem relevante.

- Imagina que seja um quadro famoso ou um colar de pedras, alguns itens como esses ficam visados pela polícia, ai quando você tenta vender no mercado negro você é pego. Por isso o contato no exterior.

Soltei um "Ah" que me fez sentir uma idiota, isso fez David rir, e tenho que admitir que o sorriso dele é lindo demais. Ele voltou a se esticar no sofá, agora de pernas cruzadas e novamente coçando o queixo.

- Bom, esse amigo do pai da Lea, Nathanael, fez a nossa cabeça, e de pés de chinelo que vendem droga e evoluem pra desmanches, nós nos transformamos em assassinos de aluguel. A gente só precisava de uma foto e um contato, fosse telefone, e-mail, endereço... Qualquer coisa. O Nathanel deu uma espécie de treinamento pra gente, desde tiro e facas até defesa pessoal e combate corpo a corpo.  Depois de três meses e um treinamento infernal, nós começamos o trabalho, e sinceramente era mais fácil e mais rentável, a grana entrava mais fácil e em quantidade maior. O problema foi que a Lea entrou em contato com o Fael, ela tava grávida de você e desesperada porque não sabia o que fazer, ela tava sozinha no mundo. O Fael contou pra ela o que a gente tava fazendo e disse que ela ia ter que escolher, se fosse ficar com ele, que fosse de vez, mas se não, pra nunca mais aparecer. Ai nem preciso dizer, os dois se casaram e eu fiquei no ramo sozinho.

- Acontece que o Fael nunca foi muito bom em trabalhos honestos, e por mais que ele se esforçasse, não parava num único emprego. O último emprego dele você já tinha uns quatro ou cinco anos, ele foi mandado embora por brigar com um dos funcionários. Vocês moravam de aluguel e o Fael não ia ter dinheiro pra pagar os atrasados e menos ainda pro mercado.

David se aproximou de mim e colocou a mão sobre o meu ombro, acho que ele estava tentando me confortar.

- Eu lembro que naquela noite o Fael veio desesperado, chorando praticamente falar comigo e com o Nathanael, disse que precisava do trampo e que ia ser só dessa vez, mas que não era pra deixar a Lea saber. O Nathanael topou na hora e então a gente saiu pra ir apagar um cara que tava cheio de dívidas. A gente fez o serviço direitinho, sem evidências, o problema é que a gente não revistou o lugar como de costume, o Fael tava na pressa pra pegar a grana, pagar o aluguel e dar o resto rpa Lea ir no mercado, ele disse "a minha monstrinha ta morrendo de fome, não tem um grão de arroz no armário, tenho que pegar a grana logo, me corta o coração ver ela chorar de fome".

Eu não aguentei ouvir aquilo, me levantei e caminhei até a janela, eu estava prestes a rasgar a toalha nas minhas mãos com a força que eu a estava segurando, meus dedos ficaram brancos e eu podia sentir meu rosto ficando quente.

David passou uma mão pelos cabelos novamente e me olhou de canto de olho.

- Eu não pensei duas vezes, a gente saiu o mais rápido que conseguiu, o Fael pegou a grana com o Nathanael e vazou. No dia seguinte teu pai tava vindo até a minha casa, acho que pra me agradecer ou pra tomar uma breja sei lá, acontece que apagaram ele no meio do caminho a paulada, ele ficou... - David respirou fundo, aquela lembrança parecia dolorosa demais - Irreconhecível...

 David levantou e foi até a geladeira, atrás do balcão que separava a sala da cozinha, pegou mais uma latinha de cerveja e deu um longo gole.

- O cara endividado que a gente matou tinha uns amigos interessantes, e um desses amigos viu a gente saindo da casa daquele maldito.  Depois de um tempo eu apaguei ele também, não podia deixar a morte do Fael impune.

- Então ele não morreu em um acidente de carro... Mataram meu pai... A paulada... - Eu disse enquanto me sentava numa poltrona velha, minhas pernas ficando como gelatina, minhas mãos relaxando - E por que... Por que eu não conheci você antes? - Foi o máximo que consegui perguntar, na verdade eu tentei desviar o assunto porque a minha vontade era de começar a chorar.

David puxou um dos bancos do balcão e se sentou a minha frente com duas latinhas, ele me ofereceu uma, eu aceitei logo de cara.

- Porque a Lea disse pro Fael que também tinha umas condições, e uma delas era o Fael não ter contato com nenhum dos amigos da vida antiga. Mas a gente se falava, mesmo sem a Lea saber, a gente era como irmãos, então não tinha como isso acontecer.

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