Explodir o lugar foi algo
incrível, primeiro a expectativa, depois o barulho e o fogo, e então as cinzas.
David me levou pro apartamento dele depois disso, me comprou algumas roupas e
disse que eu podia dormir na cama dele
que ele dormiria na sala.
Fiquei meio perdida logo de
cara, as coisas aconteceram muito rápido pra assimilar - primeiro Michel,
depois minha mãe, agora um padrinho que nem conheço e uma casa nova... O pior
não foi a rapidez em que tudo acontece, mas o fato de que eu havia matado 3
garotos, e David me ajudou a encobrir tudo.
Depois que cuidamos do velho
galpão, David levou o carro de Michel até um desmanche de uns amigos dele,
fiquei me perguntando se estava me enfiando em um lugar de onde eu não conseguiria
sair depois.
- Se importa se eu te fizer
umas perguntas? - Disse ao David enquanto secava meu cabelo com a toalha, tinha
acabado de sair do banho, eu precisava muito de um.
David se jogou no sofá ao meu
lado com uma latinha de cerveja na mão e sorriu.
- Seria estranho se você não
tivesse perguntas. Manda ai.
Pensei em tudo o que eu queria
perguntar, mas eram muitas coisas e se eu não me controlasse iria acabar
parecendo um daqueles CD players riscados que você quer jogar fora.
- Pra começar... Você disse que
minha mãe não te queria perto, e só pelo fato de você ter amigos nem desmanche
de carros eu começo a me perguntar se ela não estava com a razão... - Disse
mais pra mim mesma do que pro David.
David apoiou os cotovelos sobre
os joelhos enquanto segurava a latinha numa mão e coçava o queixo com a outra.
- Cê tá com medo que seja um
mau elemento? - Ele perguntou meio sério e meio risonho.
- Não! Não, por Deus, não é
isso! - Eu meio que fiquei desesperada, ele era um aliado, um amigo, eu estava
soando como uma ingrata - O que eu quero dizer... Você conheceu meu pai, minha
mãe nunca falava dele e eu lembro pouca coisa... Além disso, eu matei três
caras e ao invés de você chamar a polícia, você me ajudou a destruir as provas,
todas elas... - Então olhei nos olhos de David - Não que você seja um mau
elemento, e não que você não seja, mas eu tô bem confusa e nem sei por onde
começar a perguntar tudo o que eu quero saber.
David olhou para as próprias
mãos por um segundo e então começou a falar coisas que eu nem imaginava que ele
poderia dizer sobre a minha família.
- Seu pai e eu crescemos
juntos, no pior bairro que uma criança poderia morar. É claro que nos tornamos
o que todo adolescente que morava lá se tornava: mula. Depois de um tempo
trabalhando no tráfico resolvermos que já era hora de ter o nosso próprio
negócio, e então começamos a nossa própria banca. - David disse se encostando
no sofá e colocando os pés sobre a mesinha de centro, cheia de revistas pornôs.
- Não foi fácil, mas também não
é nada difícil se você quer saber. Então seu pai conheceu a Lea, eles começaram
a sair e ele descobriu que a família dela tinha um negócio tão bom quanto o
nosso, entretanto era menos perigoso, com menos riscos: um desmanche. Nós
paramos com o nosso negócio, passamos tudo pra um outro cara que vendia com a
gente, é claro que de cara a gente se fodeu, tivemos que bancar do nosso bolso
pra conseguir sair de boa, mas até ai a gente já esperava, isso sempre
acontece.
David deu um último gole na
latinha e jogou ela pela janela, fiquei imaginando se havia alguém passando
na rua lá embaixo.
- Então nós começamos com o
lance do desmanche e a grana que entrava era fácil, não tão fácil quanto o
negócio antigo, mas era bem menos perigoso, tinha vários laranjas pra assumir a
culpa e isso facilitava pro nosso lado. Acontece
que o pai da Lea acabou sendo morto por uns caras, pelo o que eu fiquei sabendo
era uma treta das antigas e aquilo foi pura retaliação. A Lea não se conformou
e queria foder os caras, ai ela queimou eles pra um policial que ela conhecia,
eles tinham um desmanche bem menor que o dela e usavam o lugar pra traficar
também. Ai já viu né, ela fodeu os caras
e depois os caras foderam com ela. O incêndio na sua casa não foi acidental,
pode ter certeza. Aliás, eu tava lá na sua rua não porque fiquei sabendo do
incêndio, eu tava lá porque me ligaram avisando que os caras tinham saído da
gaiola, e eu fui pra avisar a sua mãe. - Ele disse olhando pra mim de um jeito
que fez arrepiar até o meu último fio de cabelo.
- Pera ai, você ta querendo
dizer que... - Eu queria formar uma frase inteira, mas as palavras não vinham,
eu estava perplexa demais pra pensar em algo que fosse coerente, aliás toda a história
até agora me parecia viagem demais pra assimilar.
David passou as mãos nos
cabelos e começou a coçar a nuca, percebi que isso era um sinal de que ele
estava um pouco desconfortável e nervoso.
- Não tô querendo dizer nada
princesa, eu tô dizendo, e pode acreditar que eu não ia inventar essa porra toda.
Agora escuta que ainda não acabou.
David voltou a ficar na posição
inicial: cotovelos sobre os joelhos, agora com as mãos entrelaçadas.
- Depois que o pai da Lea
morreu ela quis se desfazer do negócio, deixou tudo na mão de um primo, ou
seja, o cara pra quem eu levei o carro. Enfim, ela ficou meio desnorteada e
disse que queria parar com tudo, inclusive pediu um tempo pro Fael. Eu e o teu
pai ficamos sem grana, sem trampo, sem nada. Então apareceu uma oportunidade de
ouro, um amigo do pai da Lea veio perguntar se a gente não queria fazer uns
serviços pra ele, coisa rápida e uma grana alta envolvida: queima de arquivo. O
cara trabalhava, e ainda trabalha, com documentação falsa e venda de artigos no
exterior, ou seja, todo tipo de objeto de valor, seja jóia, vaso, dente,
qualquer porcaria, ele tem um contato no exterior que vende ou desmancha e
transforma em algo que possa ser vendido.
- Mas porque não vender aqui
mesmo, porque levar pra fora do país pra vender? - Os fatos iam se encaixando
com pequenas coisas que a minha mãe falava quando estava muito bêbada, antes eu
pensava que era apenas invenção pra chamar a minha atenção, mas agora eu
começava a entender e a me interessar pelo que realmente havia acontecido.
David pensou uns instantes
sobre a minha pergunta, pra ele a resposta era óbvia, mas pra mim, que não
entendo nada do assunto - pelo menos ainda - essa pergunta é bem relevante.
- Imagina que seja um quadro
famoso ou um colar de pedras, alguns itens como esses ficam visados pela
polícia, ai quando você tenta vender no mercado negro você é pego. Por isso o
contato no exterior.
Soltei um "Ah" que me
fez sentir uma idiota, isso fez David rir, e tenho que admitir que o sorriso
dele é lindo demais. Ele voltou a se esticar no sofá, agora de pernas cruzadas
e novamente coçando o queixo.
- Bom, esse amigo do pai da Lea,
Nathanael, fez a nossa cabeça, e de pés de chinelo que vendem droga e evoluem
pra desmanches, nós nos transformamos em assassinos de aluguel. A gente só
precisava de uma foto e um contato, fosse telefone, e-mail, endereço...
Qualquer coisa. O Nathanel deu uma espécie de treinamento pra gente, desde tiro
e facas até defesa pessoal e combate corpo a corpo. Depois de três meses e um treinamento
infernal, nós começamos o trabalho, e sinceramente era mais fácil e mais
rentável, a grana entrava mais fácil e em quantidade maior. O problema foi que
a Lea entrou em contato com o Fael, ela tava grávida de você e desesperada
porque não sabia o que fazer, ela tava sozinha no mundo. O Fael contou pra ela o
que a gente tava fazendo e disse que ela ia ter que escolher, se fosse ficar
com ele, que fosse de vez, mas se não, pra nunca mais aparecer. Ai nem preciso
dizer, os dois se casaram e eu fiquei no ramo sozinho.
- Acontece que o Fael nunca foi
muito bom em trabalhos honestos, e por mais que ele se esforçasse, não parava
num único emprego. O último emprego dele você já tinha uns quatro ou cinco
anos, ele foi mandado embora por brigar com um dos funcionários. Vocês moravam
de aluguel e o Fael não ia ter dinheiro pra pagar os atrasados e menos ainda pro
mercado.
David se aproximou de mim e
colocou a mão sobre o meu ombro, acho que ele estava tentando me confortar.
- Eu lembro que naquela noite o
Fael veio desesperado, chorando praticamente falar comigo e com o Nathanael,
disse que precisava do trampo e que ia ser só dessa vez, mas que não era pra
deixar a Lea saber. O Nathanael topou na hora e então a gente saiu pra ir
apagar um cara que tava cheio de dívidas. A gente fez o serviço direitinho, sem
evidências, o problema é que a gente não revistou o lugar como de costume, o
Fael tava na pressa pra pegar a grana, pagar o aluguel e dar o resto rpa Lea ir
no mercado, ele disse "a minha monstrinha ta morrendo de fome, não tem um
grão de arroz no armário, tenho que pegar a grana logo, me corta o coração ver
ela chorar de fome".
Eu não aguentei ouvir aquilo,
me levantei e caminhei até a janela, eu estava prestes a rasgar a toalha nas
minhas mãos com a força que eu a estava segurando, meus dedos ficaram brancos e
eu podia sentir meu rosto ficando quente.
David passou uma mão pelos
cabelos novamente e me olhou de canto de olho.
- Eu não pensei duas vezes, a
gente saiu o mais rápido que conseguiu, o Fael pegou a grana com o Nathanael e
vazou. No dia seguinte teu pai tava vindo até a minha casa, acho que pra me
agradecer ou pra tomar uma breja sei lá, acontece que apagaram ele no meio do
caminho a paulada, ele ficou... - David respirou fundo, aquela lembrança
parecia dolorosa demais - Irreconhecível...
David levantou e foi até a geladeira, atrás do
balcão que separava a sala da cozinha, pegou mais uma latinha de cerveja e deu
um longo gole.
- O cara endividado que a gente
matou tinha uns amigos interessantes, e um desses amigos viu a gente saindo da
casa daquele maldito. Depois de um tempo
eu apaguei ele também, não podia deixar a morte do Fael impune.
- Então ele não morreu em um
acidente de carro... Mataram meu pai... A paulada... - Eu disse enquanto me
sentava numa poltrona velha, minhas pernas ficando como gelatina, minhas mãos
relaxando - E por que... Por que eu não conheci você antes? - Foi o máximo que
consegui perguntar, na verdade eu tentei desviar o assunto porque a minha
vontade era de começar a chorar.
David puxou um dos bancos do
balcão e se sentou a minha frente com duas latinhas, ele me ofereceu uma, eu
aceitei logo de cara.
- Porque a Lea disse pro Fael
que também tinha umas condições, e uma delas era o Fael não ter contato com nenhum
dos amigos da vida antiga. Mas a gente se falava, mesmo sem a Lea saber, a
gente era como irmãos, então não tinha como isso acontecer.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente o que achou dos textos, participe! Sua opinião é super importante para que melhoremos nosso conteúdo! Seja um leitor ativo!