"Escrever é uma arte que garante um pleno espetáculo, e só pode ser apreciado por aqueles que conseguem enxergar mais do que as linhas podem escrever."
segunda-feira, 27 de julho de 2015
V
Me virei com uma flecha já preparada para ser lançada, e o velho que estava atrás de mim ergueu as mãos em rendição.
– Hey, amigo, vamos com calma. – disse e então indicou com a cabeça a trilha. – Estava olhando a garota, não?
Não respondi, baixando o arco. Encontrá-la saindo da floresta havia sido uma coincidência.
– Por que essa cara de surpresa? Não pensou que ela tocasse flauta, eh? – e riu. – Ela toca muito bem... bem até demais. Ela consegue abalar a gente.
– O que quer dizer?
– Ora, vejo que não ouviu ela tocar ainda, eh? Você verá.
Ergui as sobrancelhas, sem entender realmente e o velho se foi com um meio sorriso. Quando me voltei para a trilha ela já havia desaparecido.
Voltei para a casa de Anita, ela disse que havia arrumado um quarto para mim e agradeci, subindo as escadas para ver. O quarto era pequeno, porém confortável. Haviam algumas peças limpas de roupa sobre a cama.
– Coloquei mais roupa limpa na cômoda. Escolha uma depois e esteja pronto as oito horas – disse ela atrás de mim e então saiu.
***
O teatro ficava perto da praça central, uma construção muito antiga e bela. Entramos e caminhamos entre as fileiras, parando na quarta e nos sentando.
– Eu queria ter feito um vestido delicado para ela, mas ela foi contra. Me pergunto quando ela vai criar modos de dama... – murmurou Anita para si mesma e eu ri.
Havia uma cortina vermelha cobrindo o palco, e as pessoas começavam a encher o lugar, sentando em seus respectivos bancos. Quando as luzes se apagaram, o som de vozes parou, e o lugar ficou em silencio. As cortinas se abriram e o palco estava vazio, exceto por uma cadeira bem esculpida no centro. Um homem bem vestido entrou.
– Boa noite, senhoras e senhores. Hoje teremos a honra de ouvir a violoncelista Loren. – e fez um gesto para que todos olhassem para o outro lado, se retirando.
O público aplaudiu, e ela entrou, as bochechas levemente coradas. Seus longos cabelos caíam sobre os ombros como um tecido de ouro. Era um vestido simples, que ia abaixo do joelho. Em sua mão direita ela segurava o braço do grande instrumento. Ela fez uma reverencia e se sentou na cadeira. Apoiou o instrumento no chão, pegou o arco e pude ver ela respirar fundo antes de começar a tocar. O som invadiu todo o lugar, começando triste, como se contasse uma história, e então minha mente voltou para os jardins do castelo, quando Eliwood não estava em casa. Minha mãe me ensinara como usar o arco, ensinando alguns segredos. Depois, escondidos pela escuridão das masmorras, ela havia me ensinado a ler e escrever, com alguns livros que ela trazia escondido da biblioteca. Me veio uma vaga lembrança, mais antiga, quando meu pai me levou para a floresta pela primeira vez. De repente, o som do violoncelo ficou mais grave e a música estava mudando de triste para assombrosa e violenta, como se fosse o próprio mal e eu pude ver alguns fios da crina se romperem. Pude sentir Eliwood me machucando fisicamente e então vi novamente meu pai caído no chão, o sangue tingindo tudo de vermelho vivo e então vi minha mãe, anos depois, doente por ter abortado propositalmente um filho de um estrupo. Meu ódio parecia fluir junto com as notas graves do violoncelo, como se ela estivesse tocando a mim e não ao instrumento. Era quase como se ela pudesse ler minha alma. Ela tocava de olhos fechados, e no seu rosto havia toda dor e desespero que eu poderia reconhecer em mim naquele momento, e me perguntei o que se passava em sua mente enquanto tocava. O ritmo ainda feroz, porém não mais violento das música, fez minha mente voltar para o dia em que fugi. Quando eu havia descoberto que minha mãe havia morrido e havia sido sepultada sem que eu ao menos soubesse de algo, eu havia fugido e invadido seu quarto para pegar o arco e a aljava que pertenceram ao meu pai. Eliwood estava trancado em seu próprio recinto e eu havia visto minha oportunidade ali. Então quando o sino tocou, eu já estava nas ruas, correndo em direção a floresta.
Quando ela parou, houve um breve momento de silencio, e então vieram as palmas de todas as partes do teatro. Eu me sentia um pouco tonto com a enxurrada de lembranças que havia invadido minha mente. Ela se levantou, fazendo mais uma mesura e se retirando do palco, as pessoas começaram a se levantar. Me levantei e saí junto com Anita. Quando saímos do teatro, nunca achei tão bom respirar ar puro e me senti melhor.
– Vamos esperar Loren. – disse Anita e nos sentando em um banco da praça.
Me sentei ao seu lado, observando as pessoas saírem do teatro, conversando entre si e sumindo pelas ruas e travessas, até que a frente do teatro ficou vazia. Logo Loren saiu, carregando seu grande violoncelo em um estojo. O instrumento dava a estranha impressão de torna-la pequena. Ela começou a caminhar em direção a nós e parou ao me ver.
– Minha nossa, como essa noite está fria. – comentou Anita, jogando um casaco por sobre os ombros da jovem. – Loren, este é Logan.
Ela estendeu a mão e eu a cumprimentei. Sua mão estava fria. Anita conferiu seu relógio.
–Vamos, crianças, já está tarde.
Caminhamos a passos largos e logo estávamos em casa. Eu estava me sentindo pesado e estranho, e quando Anita perguntou se eu queria comer algo, eu neguei e subi as escadas. Havia algo preso na minha garganta e eu sabia o que era. Estava me deixando doente aquela sensação de perda e o fato de não ter chorado pela minha mãe, então assim que fechei a porta, tudo desabou de uma vez. Assim que me senti melhor, saí para lavar o rosto e parei no corredor. Podia ouvir soluços virem da porta que ficava de frente para a minha. Me aproximei e levantei o pulso, com intenção de bater, mas não o fiz e voltei para meu quarto.
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