segunda-feira, 22 de junho de 2015

II


Olhei para baixo e meus olhos já acostumados com a escuridão viram três homens se aproximarem da clareira que havia próximo da árvore onde eu me encontrava e me ajeitei devagar para não mover as folhas, me escondendo mais. Todos estavam armados com espadas, e um deles, o mais desgrenhado que carregava uma bolsa, sentou-se no chão. Carregava debaixo do braço algumas toras e começou a cavar um buraco raso para fazer uma boa fogueira. Um deles, o mais gordo, carregava uma garrafa de bebida.
– Onde será que o Eal se meteu? – indagou o da garrafa, entornando.
– Foda-se, logo ele aparece. Me empresta um pouco dessa bebida. - pediu o desgrenhado que estava diante das toras.
O outro entregou a garrafa a ele, que jogou um pouco nas toras.
– Seu filho da puta! Está desperdiçando minha bebida! - exclamou tomando a garrafa das mãos do outro, que riscou um fósforo e a clareira se iluminou com o brilho da fogueira. O terceiro tinha quatro esquilos, dois em cada mão, e sentou-se perto da chama, começando a limpá-los enquanto cantarolava uma canção terrivel. Tinha as faces um pouco corada e provavelmente tinha bebido com o outro.
Eles provavelmente acampariam ali e partiriam pela manhã sem me notar, e conclui que estava seguro. Quando ia encostar minhas costas no grosso tronco e tentar relaxar, ignorando a cantoria do outro, ouvi um riso vir de outra direção e me coloquei em alerta novamente. Outro homem se aproximava, puxando sem delicadeza consigo uma jovem cujo cabelo castanho claro longo caia sobre seu rosto, ocultando a sua face. Ela usava uma calça de montaria e um casaco grande demais para o seu tamanho, e percebi que suas mãos estavam amarradas firmemente com uma grossa corda.
– Achei uma bela coelha perdida por ai! – exclamou o recém chegado sorrindo, mostrando uma fileira de dentes podres. O desgrenhado se levantou e se aproximou da jovem, puxando seu cabelo para trás e a analisando. Ela tinha um rosto bonito, mas estava contorcido de ódio e seus olhos pareciam cheios de furia.
– Oi amor... Se perdeu?
A garota cuspiu na cara dele, e ele levantou a mão para bater nela, porem o que a segurava o impediu.
– Quero brincar com ela antes... - disse maliciosamente. - Se quiser bater nela, bata durante a transa, que é bem mais excitante.
– Sempre com a razão Eal. – disse o desgrenhado maldosamente enquanto os outros riam concordando, então peguei meu arco.
O homem a empurrou para o chão com força, e então encaixei a flecha no arco, respirando devagar. O homem desgrenhado se aproximou dela e antes que pudesse agarrar seu casaco, parou, tentando pegar a flecha que havia se fincado no meio das suas costas.
Os outros olharam ao redor assustados e atentos, procurando de onde viera a flecha. A jovem aproveitou o momento para pegar a faca que o desgrenhado havia deixado cair, trabalhando na corda.
– Apaguem a fogueira seus idiotas! Apaguem!
A jovem conseguiu se levantar e pude ver ela correr floresta adentro antes de tudo se tornar escuro. Eu estava momentaneamente cego e pude ouvir o som dos passos pesados dos homens se afastarem xingando no sentido da área regida por Eliwood. Espereium tempo até meus olhos se acostumarem novamente com a escuridão ao meu redor, e me encostei no tronco, descansando o arco no meu colo.
Pensei em ir atrás da garota, provavelmente ela ainda estava tentando se livrar das cordas... não. Ela não tinha porque confiar em um estranho e decerto ela já devia estar bem longe ou escondida. Senti meu corpo relaxar com o silencio ao redor e adormeci. Pela manhã, acordei com a chuva caindo em meu rosto. Senti meu corpo estremecer e desci da arvore, me alongando. As noites estavam deixando meu corpo todo dolorido. Retomei o ritmo da caminhada, tencionando chegar na cidade da outra area pela noite daquele mesmo dia. A chuva fria estava começando a se tornar incômoda, e apesar de sentir o estômago doer de fome, sabia que qualquer coisa que ingerisse naquele momento eu poria para fora.
O enjoo me fez se sentir desmotivado a caçar, e aproveitei disso para andar sem descanso para ganhar tempo. Depois de algumas horas de caminhada senti a sensação incomoda de que estava sendo seguido e cheguei a me virar duas vezes com o arco com uma flecha preparada, mas não havia ninguém. Provavelmente as noites mal dormidas estavam começando a surtir seus efeitos em mim.
Olhei para o céu, e pelas nuvens cinza chumbo que se aglomeravam e o aspecto amarelado nelas, provavelmente viria uma bela tempestade. Comecei a andar mais depressa. Por volta do que provavelmente eram cinco da tarde, tudo estava escuro como noite e o vento veio, junto com a chuva mais forte, e senti meu corpo se enregelar. O estomago começou a doer de forma insuportável. Então, por volta do que segundos meus calculos deveriam ser sete horas, avistei a rua da cidade. Poucas pessoas andavam por ela com guarda-chuva nas mãos sob as luzes dos postes, a chuva agora havia voltado a diminuir, e ventava menos.
Fiquei parado por um momento, sem saber se deveria seguir em frente ou não. Não tinha certeza se haviam soldados ali, nem se eles sabiam algo sobre mim... Sentei-me no chão, permitindo a minhas pernas um descanso, e encostei a cabeça que estava começando a doer insuportavelmente no tronco proximo a mim. Coloquei a mão dentro da camisa e peguei o relicário, o abrindo. O sorriso da minha mãe havia sido como o sol nos dias que passei nas masmorras. Fechei o relicário com raiva. Eliwood teve o que queria, usando as pessoas do modo que bem entendia, mas ele ia pagar o preço... senti-me estremecer e abracei os proprios braços instintivamente. Estava muito frio ali.
– Ei, rapaz!
Me sobressaltei com a voz e tentei me levantar o mais rápido que pude, descobrindo que estava exausto a ponto de não conseguir ser ágil o suficiente para fugir. Olhei para quem havia se referido a mim. Era uma mulher, apenas há alguns passos de mim, e me perguntei como havia ela se aproximado sem que eu a ouvisse... Ela era de estatura baixa, o rosto levemente arredondado, e segurava um guarda chuva em uma das mãos e um casacon na outra. Seus cabelos escuros estavam rigorosamente presos em uma trança.
– Vamos, levante!
Me levantei, me apoiando na arvore.
– Quem é você? – indaguei e minha voz saiu rouca.

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