segunda-feira, 9 de março de 2015

6.Resgate

– Estarei neste ponto daqui uma hora.
 – E se não estiver aqui?
 Ela o olhou. Era um homem grande, tinha 1,95, os ombros largos e o corpo proporcional. Não chegava a ser gordo, ela conseguia descrever apenas como forte. Sua barba já estava mesclada de branco, e em seu rosto começava a aparecer as primeiras rugas. Desde que conhecera ela (em uma briga de bar, pra variar) adotara ela como filha. Bob com certeza cuidara dela e se importara com ela mais do que seus tios. Aliás, não se lembrava dos tios terem pensado em outra coisa a não ser o dinheiro que ela herdara dos pais.
 – Então pode chamar a cavalaria. Apesar de que eu preferia que você não se envolvesse...
 – Certo então. Caso não esteja aqui em uma hora, estarei aqui com a cavalaria.
 – Se eu precisar de mais tempo, eu ligo. – disse descendo da camionete.
 Observou ela se afastar, ajeitou a pequena mochila nas costas, e fechou a jaqueta. Aquele bairro era bem deserto naquele horário, e duas quadras adiante estava seu objetivo. Não via Suzume desde a manhã passada e isso era muito estranho, pois sempre em alguma hora do dia ela aparecia. Não tinha que ficar pensando na irmã, aliás, ela não estava mais viva e uma hora precisaria ir pra sempre, mas pensar nisso causava um aperto desconfortável no peito. De certa forma, ela ainda era um consolo.
 "Sou egoísta. Ela deve estar sofrendo por minha culpa. Sua alma não descansa por minha culpa" pensou, sua respiração era uma fraca fumaça branca e quente, que pairava no ar quando respirava, e logo em seguida desaparecia. Mais de uma vez se perguntara por que Suzume, ao invés do seu pai? Por que o pequeno pardal? Aliás, Suzume era o único espírito que ela conseguia ouvir... Os outros nem abriam a boca, apenas olhavam apáticos para ela, raramente indicando algo com o olhar.
 Respirou fundo, limpando a mente. Não era o momento para pensar sobre aquilo. Já conseguia ver o topo da fábrica abandonada ao longe. Hoje não era a noite da Hiyori vingativa, e sim da raposa justiceira. Riu-se dessa ideia, se lembrando de quando viu a manchete com esse título pela primeira vez. Agora já estava próximo o suficiente, e olhou ao redor para ver se havia alguém de vigia. Escondeu-se em um beco próximo. Prendeu o cabelo em um coque firme, colocando nele o kanzashi¹. Colocou a mascara de raposa, que havia sido feita para ficar perfeita em seu rosto e não atrapalhar o campo de visão. Conferiu o pulso ferido, onde colocara a tala de modo que não atrapalhasse seus movimentos.
 Olhou para a fábrica, analisando a segurança externa e as visíveis falhas. Eles não estavam esperando por um ataque, e mesmo se tivessem desconfiado de Fred, ele era um, e poucos dariam conta dele. Correu até o muro. Dois dos vigias conversavam em um canto, a ponta incandescente dos cigarros denunciando sua localização. Encontrou uma brecha, onde havia uma grande maquina de demolição abandonada e correu até ela de modo silencioso. Segundo o velho mapa que arranjara da fabrica, haviam algumas salas dentro do prédio, e o garoto poderia estar em qualquer uma delas, o que trazia estatísticas realistas e desagradáveis a sua mente. "Se pelo menos Suzume estivesse aqui" – Mas não estava. E ela não podia se apoiar totalmente nela. A possibilidade de ela sumir lhe veio à mente, e ela tocou o cabo da adaga em sua cintura, sentindo a frieza do metal polido, ignorando os pensamentos.
 Do ponto onde estava ela só conseguia ver a entrada e um guarda. Andou abaixada até a extremidade da maquina, e viu que realmente havia um guarda, e ele estava semiadormecido em uma cadeira, assistindo algo em uma pequena TV portátil. Ela se afastou alguns passos da maquina, lançando uma das pequenas adagas, e ela acertou o homem na garganta. Seus olhos se abriram de surpresa, e de sua garganta saiam ruídos afogados. Tentou erguer a mão, mas não conseguiu. Não havia mais ninguém com ele, e ela correu naquela direção com a pistola  em mãos. Realmente não havia mais ninguém, e ali havia uma porta fechada. Foi até o homem na cadeira, retirando sua adaga da garganta dele, de onde saiu mais sangue, e limpou na camisa do moribundo. Fuçou no bolso dele, e encontrou um chaveiro com três chaves. Voltou à porta, e a abriu com uma delas. Abriu ela com naturalidade e entrou. Esperara sair em uma grande área aberta, mas estava em um corredor, aparentemente vazio. O chão de metal denunciaria qualquer passo descuidado, e ela começou a caminhar devagar por ele, em silencio. Podia ouvir vozes em algum ponto mais adiante. Alargou os passos e alcançou uma porta que estava semiaberta.
  –... Assim que puder. – dizia uma voz familiar a ela, mas ela encostou-se à parede para não ser vista.
  – Mas quando? Ah, claro, você está se divertindo com a situação, não é mesmo?
  – Definitivamente. O perigo me atrai, e quero foder ela, e após ela se iludir, vou rir da cara dela, dizendo que em todo o tempo, era eu que estava por cima.
  Ela sentiu um arrepio. Aquela voz lhe era realmente familiar, era a voz de Dave. Queria olhar para confirmar, mas não podia. Podia haver mais de dois. Passou pelo outro lado do corredor e prosseguiu, as vozes ecoando nas paredes manchadas. Mais adiante o corredor terminava em uma curva. Ela encostou-se à parede, e olhou, analisando. Havia uma escada que levava para o andar superior, e uma entrada que levava ao grande galpão. Não havia ninguém ali. Ela caminhou até a entrada do galpão. Ele era grande, e haviam varias maquinarias cobertas por plásticos e poeira. Ali era uma área grande e aberta, e estaria exposta se andasse ali sem ter certeza sobre a vigilância daquele lugar. Olhou para o chão, e percebeu algumas falhas na fina camada de poeira no soalho. Atentou os ouvidos, mas não ouvia nada vindo do galpão. Decidiu por subir as escadas, e chegou a um corredor. Havia contado cinco portas ao longo dele, e podia ver a luz do luar iluminar ele através de algumas janelas de vidro que provavelmente quando a fabrica estava em funcionamento, era utilizado para vigiar o trabalho dos operários. Ela seguiu na direção da primeira porta, andando um pouco agachada, para ficar menos visível, e sentiu uma fisgada na perna. Encostou na porta, e girou a maçaneta, entrando com a pistola em mãos, mas não havia nada, apenas estantes jogadas sobre outras, algumas quebradas, e velhos papeis espalhados pelo chão. Saiu, fechando a porta, e seguiu para a próxima. Também estava vazia.
 Aparentemente era um pequeno refeitório, as cadeiras espalhadas pelo chão, e os azulejos sujos com crostas de poeira. Sentiu uma sensação estranha, e pode ver pela luz que entrava no corredor, a sombra de alguém. Virou-se rapidamente, desviando do golpe do taco de basebol do homem que havia entrado e atirou, o acertando entre as sobrancelhas, e ele caiu. Beijou o silenciador da arma, feliz, pois se estivesse sem ele, aquilo teria feito um eco dos infernos. Ela saiu, esperando encontrar outro, mas não viu nada, a não ser a ultima porta, aberta. Caminhou com passos cuidadosos e rápidos até a porta aberta, e espiou. Havia uma mesa, com um cigarro acesso no cinzeiro, mas não havia mais nada nem ninguém. Conferiu a outra porta, que era um banheiro abandonado, e então desceu as escadas. Correu para o meio da maquinaria, e andou devagar por entre elas. Sentiu uma fisgada novamente na perna, e a ignorou. Não podia se dar ao luxo de parar. Conferiu o pequeno relógio de pulso, tinha em torno de meia hora ainda.
 Ouviu o som de uma fungada abafada, e olhou das sombras para o centro do galpão, e lá estava seu garoto. Estava amarrado em uma cadeira, a boca amordaçada com um grande pedaço de pano. Os cabelos espalhados pelo rosto estavam manchados de sangue próximo da testa, mas mesmo com a pouca luz ela conseguia ver o loiro cor de palha igual ao do pai. Ele estava chorando. Haviam quatro vigias. Um estava próximo ao moleque, com um tonfa², que provavelmente usava no garoto sempre que se irritava. O segundo estava próximo de onde ela estava, e ela conseguia ver pela sua sombra que ele estava armado com uma doze. Péssimo. Na outra extremidade os outros dois conversavam, mas ela podia ver as armas encaixadas no cós da calça.
 Ficou por um momento no escuro, misturando-se com ele devido sua roupa escura, a mente fazendo cálculos e estratégias. Teve o raciocínio quebrado por passos apressados, que fez com que os quatro ficassem alertas, e quando viram que era um deles, abaixaram as armas.
 – Encontrei Jack morto na entrada A. Temos um intruso.
 – Chamou os outros no rádio?
 – Sim, cinco confirmaram suas posições e estão atentos a qualquer coisa fora do comum, e um deles não me respondeu que é o responsável por aquela área. – disse indicando com o dedo o lugar onde ela fora atacada.
 – Philip, vá conferir junto com ele. – disse o homem com o tonfa, para um dos dois que estavam conversando. – E você, dê uma olhada ao redor.
 A ultima ordem havia sido para o homem mais próximo de onde ela se escondera, e ela se abaixou, ficando entre os plásticos e um oco entre as máquinas, e logo em seguida ele passou, a doze pronta para atirar. Ela esperou ele se afastar, e então atirou na parte de trás da cabeça dele, pegando a doze antes que ela caísse no chão. Tirou a munição da arma e a escondeu debaixo da maquina mais próxima. Saiu do esconderijo e das sombras, atirando no homem com o tonfa primeiro, pois certamente ele era o cabeça do grupo, e o outro atirou na direção dela, que desviou com um movimento rápido que quase a desequilibrou, a perna dando outra fisgada cruel, e ela atirou no oponente, o acertando na barriga. Podia ouvir os passos pesados de alguém voltando, e o seu oponente apontou para ela, abrindo a boca para avisar o outro, mas ela foi mais rápida, e desta vez não errou a cabeça. Isso fez ela lembrar dos jogos de zumbis e do que os seus amigos da academia sempre costumavam dizer – headshot!.
 Correu até o garoto, que tinha os olhos brancos de pavor, e cortou rapidamente as cordas.
 – Se esconda ali. – disse e deu um leve empurrão para que ele fosse mais rápido, e ele sumiu nas sombras, segundos depois, apareceram mais cinco homens. Ela estava completamente exposta.



¹ Kanzashi: gancho longo de metal, um dos acessórios ornamentais usados nos penteados das mulheres japonesas do período Edo. Algumas gueixas usam atualmente.² Tonfa: espécie de cassetete com ponta do lado para a mão.
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