segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

3. Cuidando de si mesma


Estacionou no bar de motoqueiros, e retirou a pequena bolsa debaixo do banco, e entrou. Haviam alguns motoqueiros com a jaqueta do motoclube bebendo no balcão, e tocava uma musica alta dos Motörhead de fundo. Ela entrou no banheiro, vestiu uma jaqueta do motoclube que havia ganhado, e colocou uma bandana na cabeça. Tirou o batom, e escondeu a arma. Voltou para o bar, e se sentou entre os motoqueiros barulhentos, colocando um óculos.
– O que vai querer? – perguntou o barman.
– O de sempre, Bob.
O barman tinha uma barba semelhante aos dos caras ao seu lado, e sorriu, pegando uma garrafa de Jack Daniel’s.
– Em que encrenca você está metida hoje? – perguntou, empurrando o copo na direção dela.
– Em uma das boas. – disse, e viu o homem com o boné entrar no bar, olhando ao redor. – E sinto informar, acabo de trazer ela pra cá.
Bob olhou para o recém-chegado, e depois se voltou para ela.
– Uma grande encrenca. Precisa de ajuda?
– Posso cuidar dele sozinha. – disse.
– Se precisar, pode contar com o velho Bob.
Ela sorriu, e virou a bebida de uma vez, batendo o copo no balcão. Observava sua presa como uma águia furiosa. Ele estava olhando ao redor, e sentou em uma das mesas.
– O que vai fazer, onee-san? – perguntou a garotinha aflita, sentada no balcão. – Onee-san!
Ela colocou o indicador nos lábios, pedindo silencio. O cara ergueu um pouco o boné e ela pode ver seus olhos castanhos. Ele a viu no balcão e levou a mão a cintura, mas não se moveu, e ela deu um breve sorriso. Afinal, ele não era tão burro. Ela fez um sinal com a cabeça, indicando as portas dos fundos, e ele fez que sim com a cabeça.
– Onee-san... – a pequena estava aflita, mas ela a ignorou. Fez um sinal para Bob, e ele se aproximou do grupo de motoqueiros.
Abriu a porta, e saiu. Era um terreno vazio, onde normalmente Bob pedia que se resolvessem seus problemas ali, longe das suas garrafas de bebidas. Ela pegou uma barra de metal, e quando ele surgiu pela porta, ela bateu com toda a força na barriga dele, e ele caiu de joelhos. Ela fechou a porta com o pé e bateu com força na mão esquerda do homem, que xingou alto. Deitando no chão de dor. Ela pegou a arma dele, e bateu com força nas duas canelas, e ele gritou. Tentou se levantar, então ela o acerto no meio das pernas, e ele caiu novamente no chão. Ela subiu nele, travando seus braços com as pernas, e apontou a arma para a cabeça dele.
– Pra quem você trabalha?
– Sua maldita, porque eu diria...
Ela atirou perto da orelha dele, perdendo a paciência.
– Quem? – gritou.
Ele começou a rir, e então agarrou a perna dela. A arma dele voou longe, e agora ele estava por cima.
– Isso não é do seu interesse.
Hiyori mordeu o pescoço dele e ele se afastou, e ela subiu o joelho, o acertando entre as pernas novamente, e ele paralizou, gritando, e ela se afastou, recuperando a arma e atirando na coxa dele.
– O próximo não será na coxa. – disse. – Quem te contratou?
Os olhos castanhos dele a encaravam com ódio e ele pegou a barra de ferro, e antes que ela pudesse se afastar, atingiu a perna dela, e ela caiu. Atirou na mão dele, com os olhos cheio de lagrimas pela dor na perna, e acertou a mão dele, e ele gritou mais.
– Sua vadia!
Haviam pessoas em volta dele. Varias pessoas. Mudas. Suas vitimas. Não podia julga-lo, pois ela mesma não era melhor que ele, mas não ia morrer ali.
– Bob! – gritou.
O homem fez menção de se mexer.
– Melhor não tentar. – disse, a arma tremia um pouco na sua mão devido a dor que sentia na perna.
Ele rosnou, e pulou sobre ela, e o tiro que ela deu não acertou ninguém. Ele bateu a mão dela com força no chão, até ela soltar a arma, e então dois dos motoqueiros que estavam no balcão o tiraram de cima dela, e um deles deu um golpe nele, o desacordando.
– Então você pode cuidar dele sozinha? – disse Bob a ajudando a se levantar, e ela quase caiu novamente devido a dor na perna.
– Maldito bastardo! – rosnou ela.
– Calma garota, ele vai estar no porão, e lá você se vinga dele. O que houve?
– Ele acertou minha perna. – disse, mas seu pulso doía mais.
– Vamos no hospital, tirar um raio-X disso. – disse ele.
Ele ajudou ela a se levantar, e quando chegaram a velha e grande camionete de Bob, o pulso dela já estava enorme. Viu o rosto de Suzume chorando perto da camionete, e sentiu um nó na garganta.
– E então? Acho que preciso saber o que está no meu porão. – disse Bob.
– Ele tentou me matar pela manhã, numa lanchonete cheia de pessoas. Nem tinha total certeza de que ele não ia atirar em mim dentro do bar.
– Louca. – disse ele rindo. – Mas porque ele quis te matar?
– Vamos descobrir depois. – disse ela, olhando para a rua.
***
O detetive parou o carro perto da guarita do condomínio fechado.
– Em que posso ajudar? – pode ouvir a voz do guarda da guarita.
– Vim visitar Hiyori Mizuki.
– Só um momento, vou verificar.
Ele aguardou, batendo os dedos impacientes no volante, no ritmo da musica que tocava no radio.
– Ela não se encontra senhor. Saiu pela manha e ainda não retornou.
Sentiu um mau pressentimento referente aquilo.
– Obrigada senhor. Poderia aguardar aqui?
– Estacione naquelas vagas a direita, senhor.
– Certo. Obrigado.
Ele estacionou. Pegou a agenda e discou o numero da jovem. Chamou por alguns momentos e então caiu na caixa de mensagens. Tentou mais uma vez e deu o mesmo resultado. Teria ocorrido algo nesse meio tempo que estivera no escritório? Conferiu a arma no porta luvas. Esperava não ter que usá-la. Esperou por um longo tempo, e viu ela dentro de uma camionete grande que adentrou o condomínio. E então voltou a portaria, que a avisou e ele pode entrar. Enquanto andava pelas ruas do condomínio, encontrou a camionete saindo. Parou na frente da casa que haviam indicado e tocou a campainha. Ela abriu a porta. Tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo, e usava uma jaqueta de motoclube que estava suja. O braço estava enfaixado.
– Em que posso ajudar, detetive? – perguntou.
– Se importa de conversarmos?
– Talvez sim. – disse, parecendo mal humorada.
– É importante. – disse ele a encarando.
Ela se afastou da entrada e fez um gesto, e ele entrou. A sala estava um pouco desorganizada, alguns papeis na mesa, que ele reparou ser de estudos sobre psicologia. Sentou-se. A sala era bem decorada, tinha um quadro na parede com pinturas tradicionais japonesas, as paredes pintadas de cor marfim. Havia uma TV em uma estante de madeira pequena em estilo moderno. Os sofás eram preto, em couro. Ela sentou diante dele, pegando uma garrafa de saque e enchendo um pequeno copo. Ofereceu a ele com um gesto e ele negou. Ela virou o copo de uma vez, fazendo uma leve careta, e encheu o copo novamente.
– E então? Sobre o que quer conversar?
– Achamos que você está em perigo. – disse ele, enquanto ela virava o outro copo de uma vez, e depois disso riu dele.
– Acha que estou bonita deste jeito por quê? Essa informação é velha detetive.
– Você foi atacada?
– Sim. – disse, enchendo outra vez o copo.
– Eu estou investigando um caso, e a policia desconfia que você esteja correndo risco. Eles acreditam que talvez seja o mesmo assassino que matou sua família.
Ela o encarou, virou o copo novamente e bateu o fundo dele na mesa. Seus olhos pareciam arder com uma fúria contida.
– E você detetive? No que acredita? Acho que é inteligente o suficiente pra saber que não é o mesmo assassino.
– Por que diz isso?
– Porque acompanho os jornais. Minha família inteira foi morta. Esse assassino não matou nenhuma família, a não ser que estejam omitindo isso dos jornalistas. O perfil não bate com o do assassino atual.
Ele sorriu.
– Tem uma boa mente, Hiyori. Por que não seguiu carreira na policia?
– Estou sendo investigada, detetive? – perguntou ela, irritada. – Está sendo inconveniente. Por que eu seguiria a carreira do meu pai? Pra ter o mesmo destino que ele? – virou o copo outra vez. – Não, obrigada.
Julian olhou para a garrafa de saque, e para ela, admirado com a capacidade dela de tomar aquilo daquela maneira. Os olhos avelã da moça se desviaram dele e focaram em outro canto do sofá e ele seguiu seu olhar, não vendo nada. Será que ela já estaria alta?
– Não creio realmente que seja o mesmo assassino. – disse ele, e ela voltou a olhar para ele. – Mas seria melhor que um segurança ficasse...
– Eu agradeço a gentileza, mas não quero nenhum segurança por perto. – disse irritada. – Acha que não sei me defender porque estou com o pulso enfaixado ou por ser mulher? Se você sabe sobre mim, sabe que sei me defender. Eu não preciso de ninguém.
Ela se levantou.
– Se era somente isso que queria conversar...
– Como preferir. – disse ele, e se retirou. Entrou no carro, e lançou uma ultima olhada para a casa dela, e então foi embora.



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Hiyori de J. Carstairs está licenciado com uma LicençaCreative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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