Eu estava sentada em meio ao escuro. Eu sabia que
era uma sala, mas não via portas ou janelas, não via nada.
Não
havia uma fresta de luz. O lugar era quente e abafado, eu estava ofegante. Era
como se tivesse corrido uma maratona até ali.
Então de repente o barulho - algo de metal caindo no
chão, uma luz surgiu e senti os olhos arderem com o clarão súbito. Senti o
corte na barriga, se arrastando para as minhas costas. A voz de Michel dizia
meu nome ao pé dos meus ouvidos, mas ele não estava em qualquer lugar da sala. O
corte ardia e eu podia sentir o cheiro da pele queimada.
Eu tentei gritar com a dor, mas não havia voz. Me levantei
e tentei, cambaleante, encontrar uma saída, qualquer que fosse. Tateei as
paredes e me percebi em um espaço menor do que eu imaginava.
Minha barriga era um ensopado de sangue e suor. Minhas
mãos estavam sujas e só então percebi que o chão aos meus pés era pura lama. Então
veio o frio, e me vi nua, sem qualquer roupa cobrindo qualquer parte minha.
O que antes era um inferno de quente e abafado,
agora era frio, gelado como um iceberg. Cai de joelhos, a respiração entrecortada.
Sentia meus pés duros e pregados ao chão, as pernas começavam a formigar, minhas mãos estavam mais trêmulas que eu parecia ter Parkinson.
Os socos me atingiram sem aviso, só senti a pancada
atrás da nuca. Dessa vez eu não desmaiei como na minha recordação dos fatos,
permaneci acordada. Vi os olhos de Michel me devorando, ouvia as vozes de todos
eles falando meu nome, me xingando e sussurrando as coisas mais sujas ao meu
ouvido.
Senti todas
as dores novamente, senti a língua nojenta de Michel lambendo meu pescoço, mas
eu não o via, eu o sentia, mas não o via. Entrei em desespero. Comecei a me
debater, me arranhar na tentativa de fazer as sensações desaparecerem, mas nada
adiantava nada fazia aquilo parar.
De repente acordei com David me abraçando forte, senti
as lágrimas no meu rosto, os braços ardendo com meus próprios arranhões. Só
então percebi que era um pesadelo, o pesadelo que me acompanhava há muitas
noites. O mesmo pesadelo de sempre.
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