Bom, fiquei umas três ou quatro semanas sem postar nada e sem dar uma satisfação - não venham com essa de "puta mancada sua pô!". A questão é que não rolou as postagens e ponto final. Afinal de contas, vocês estão aqui pra ler a história, e não pra saber da minha vida problemática e sem graça não é mesmo?
Então bora pra leitura!
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- Então,
qual é o trabalho? - Perguntei me encostando na pilastra da sala.
Esta é a sala de trabalho de Nathanael - não muito grande, alguns móveis bonitos, cinzeiros espalhados
por toda a parte, um espelho enorme de frente para a porta, um sofá de três
lugares e uma mesinha de centro. Me lembra um daqueles escritórios antigos de
jornalistas, e por tudo o que já aprendi sobre Nathanael, certamente essa é a
intenção.
Depois do
último trabalho praticamente não sai de casa, a exaustão da tarefa me atinge e
me limito a tomar banho, comer e dormir. Eis que finalmente procurei Nathanael.
Não que eu precise dele para fazer o trabalho, mas pra ser sincera, mal conferi
o conteúdo do tal envelope, só olhei por cima e sei que se trata de uma mulher.
- Bem, se
você ler vai ter maiores detalhes. Até onde eu sei ela é ex-funcionária do
chefe dele. Fazia o mesmo que você. - Nathanael disse abrindo um pote cheio de
jujubas e começando a comê-las, atirando-as para cima e depois abocanhando-as.
- Oh então
ele não é o peixe grande. - Disse me espreguiçando - E por que querem apagar a
moça?
Não sou uma
perito no assunto, mas pelo pouco de experiência que tenho no ramo, já percebi
só de olhar para as mãos inquietas de Nathanael que ele tem alguma afinidade
com a mulher.
- Porque ela
vazou informações importantes para pessoas importantes. Isso causou estragos.
Acertei em
cheio! Ele é sempre direto quando está irritado ou preocupado com algo. E nesse
caso é "alguém".
Caminho até
o sofá e me sento na ponta oposta a Nathanael, pego algumas jujubas do pote que
ele ainda está segurando e começo a comer.
- Por que eu
acho que é mais pessoal do que profissional? - Digo e me sinto satisfeita.
Tenho que admitir que tenho faro pra essas coisas.
- Bom,
talvez seja porque ela prejudicou mais a ele do que ao chefe. E não apenas isso
Mary Ann. Eles eram amantes, há um bom tempo. Ela o abandonou e sumiu do mapa.
Tenho pra mim que ele ainda gosta dela, mas o orgulho ferido faz um homem
cometer loucuras.
A voz dele
carrega amargura, um azedume horrível. Raramente me engano com minhas deduções,
mas gostaria de estar enganada sobre o que estou deduzindo agora. Prefiro nem
pensar no assunto.
- Então ela é uma Maria Fofoqueira e ele um
corno manso? Que infantil, se você me permite dizer.
A minha
relação com Nathanael é bem amigável, falamos todo tipo de besteira sem nos
importar, temos total liberdade um com o outro para dizer o que pensamos sem
rodeios, ele é realmente como um tio - um tio do crime, mas um tio.
Na verdade
não considero o meu trabalho como crime, considero como "faxina", as
pessoas me pagam pra "limpar" outras pessoas da face da terra.
- Pois eu
concordo plenamente. Agora preste atenção Mary, ela é osso duro de roer.
- Ótimo. Se
fosse fácil eu nem ficaria interessada. Gosto de diversão. - Digo me
entusiasmando porque realmente gosto quando a coisa fica difícil.
Nathanael se
senta ereto e me fita por alguns instantes. Ele perdeu a filha muito jovem, mal
a viu crescer, e já me disse inúmeras vezes que lembro muito a sua menina, e
justamente fora por isso que me dera seu nome.
- Olha Mary,
não estou dizendo que você não faz seu trabalho. Pelo contrário, atualmente
você é a melhor no ramo - é ousada, desinibida, extrovertida, se infiltra
fácil, faz um serviço impecável e limpo. Mas você precisa aprender uma coisa,
sempre existe alguém melhor que a gente, seja no sentido que for. - Ele pegou o
copo de leite sobre a mesinha e deu um gole, então sustentou meu olhar
novamente - Hoje você é a melhor, mas já houve uma melhor antes de você. E ela
era essa pessoa.
Não que eu
tenha ficado com medo ou desencorajada pelo que Nathanael me disse. Sempre
entro de cabeça no trabalho, assumindo o risco, mas o que ele disse me deixou
intrigada
- Então estou correndo um grande risco? -
Perguntei já sabendo a resposta.
- Certamente.
Me levantei
e alcancei o celular sobre o balcão do barzinho e o entreguei a Nathanael.
- Muito bem,
então. Ligue para ele, e diga que quero negociar.
# # #
- Esquece.
Não vai fazer muita diferença mesmo. - David disse e seguiu para o quarto.
Pra ser
sincera fiquei meio ofendida com a atitude dele - antes todo atencioso e
preocupado, agora todo grosso e mandão. Apanhei a sacola e me joguei no sofá
novamente, agora com algumas revistas ajudando de apoio para a minha perna
fodida e roxa. Não sei dizer quantos segundos demoraram até que eu pegasse no
sono novamente. Acho que os primeiros dias com David foram assim mesmo - tomar
banho, comer alguma porcaria e dormir antes de perceber que estava com sono.
Alguns
pesadelos me fizeram companhia e acordei em prantos, chorando, com David me
sacudindo. Não me lembro do que eu havia sonhado naquele dia, mas sei que foi
algo muito ruim porque quando me dei conta já estava abraçada à David,
soluçando e chorando feito um bebê.
David voltou
a ser um cara gentil, me comprou uns cremes e umas pomadas pra passar no braço
e na perna. Comprou peças de roupa e fez a TV pegar, tudo pra me fazer sentir "em
casa" , como ele mesmo dizia. Pena eu nunca ter tido nada disso antes.
- Vou
comprar cigarro. Ta precisando de alguma coisa, pequena?
David passou
a me chamar de pequena, eu não ligava e até achava bonitinho. Na verdade eu
achava David bonitinho, mas eu era uma criança e ele um adulto, e ponto final.
- Não,
obrigada. - Respondi enquanto mantinha os olhos fixos no seriado policial que
estava passando.
Já estava
morando com David há quase duas semanas. Meu braço e perna já haviam melhorado,
os ferimentos cicatrizado e os pesadelos , apesar de insistentes, estavam
começando a sumir.
Uma parte em
mim ficava feliz em achar que agora eu teria uma vida normal - uma casa, um
parente que se preocupa, comida na geladeira... Já a outra metade de mim me
dizia o tempo todo que isso não iria durar, que era passageiro, que eu teria
que me virar uma hora, que não podia depender de David pra sempre. Hoje fico
grata por essa outra metade me alertar, me confortar e me fortalecer pra tudo o
que veio a acontecer nas semanas seguintes.
***

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