quarta-feira, 1 de julho de 2015

Viúva Negra - Capítulo I: O Degolado (Final)

Meus dedos estão lambuzados de chocolate e sangue, lambo-os imaginando se existe algo no mundo que seja mais saboroso. Isso me faz lembrar de como eu gostava de doces na minha infância, mas não podia comer por conta do meu pai, ele era diabético e tinha medo que eu ficasse diabética também - como se uma coisa tivesse a ver com a outra.

Na verdade eu não podia fazer muitas coisas na minha infância por conta dos hospitais e clínicas em que eu ficava constantemente, meu pai achava que eu podia ser curada, mas foi minha mãe quem me salvou de médicos chatos e mentirosos, em pensar que ela fez isso mais porque não tinha condições físicas para me levar do que por qualquer outro motivo.

Acredito eu que ela na verdade me usava para pagar suas contas, já que ela mesma não conseguia fazer isso. Aliás, ela não conseguia nem cozinhar sem fazer um estrago na cozinha e quase explodir a casa. É irônico colocar desse jeito, mas quem diria que ela faria aquilo... Pra mim ela sempre foi meio louca, e acho que pessoas assim, como ela era, deveriam ficar internadas e em tratamento constante, pra proteger a população e as proteger delas mesmas.

Que pena que meu chocolate acabou, acho que vou começar a trazer uma barra extra. Ficar recordando meu passado com Carlos está sendo muito bom, muito gratificante, ele sempre foi um ótimo ouvinte, e agora está sendo mais que exemplar! Meu tempo com ele sempre é muito bem aproveitado.


Falando em tempo, devo ter mais uns vinte minutos para me despedir dele antes que a arrumadeira venha limpar o quarto. Estamos em um quartinho de hotel de beira de estrada – o lugar é fedorento e cheio de pulgas. A localização é horrível, por isso clientes são raridade.

Estudei o local por dias – enquanto decidia se fazia ou não -, sei quantos funcionários trabalham e em qual turno, inclusive sei que a arrumadeira desse turno só vai chegar às 6:10h, ela sempre atrasa uns minutos porque para pra fumar no quartinho de limpeza. Particularmente eu gostei dela, ela me lembra um pouco minha mãe, mas isso não é algo que quero me lembrar agora, inclusive é por esse fato que escolhi este horário, para que exatamente ela encontrasse os pedacinhos de Carlos.

Ah Carlos... Me levanto da cama e caminho até a janela, nem percebi que a madrugada acabou e o sol já está nascendo. Me viro para dar uma última olhada no cara por quem quase me deixei levar, a luz entrando pela janela e deixando o sangue escuro num tom alaranjado cobre me lembra mais uma vez Michel, me lembra de como eu me despedi dele...

***

Me arrastei como pude para trás de uma pilha de caixas velhas de papelão ao lado da primeira porta – eu não conseguiria ir além daquele ponto, ao menos não antes que Michel alcansasse o topo da escada -, parecia que o terceiro andar era um depósito de caixas porque estavam amontoadas em vários cantos.

Michel começou a gritar quando terminou de subir e não me viu logo de cara me pendurando no corrimão do corredor. Meu coração esta tão acelerado que parece uma bateria de escola de samba. Comecei a pensar “o que faço agora!”, coisa na qual eu sou péssima – as melhores coisas que faço são sempre sem pensar, se eu penso ai é que não sai nada.

Estou em um lugar ruim, perdi a visão de Michel, não vou me mexer pra procurar porque se eu fizer algum barulho ele pode ouvir e me encontrar. No fundo eu não quero me esconder dele, mas tem uma parte de mim que acha isso muito necessário.

- Sua vadia! – Michel grita me puxando do meio das caixas e me jogando no corredor.

Não tenho reação, simplesmente não sei o que fazer ou dizer a ele. Estou com medo, com vergonha, com raiva... É verdade, estou com raiva e ele é o culpado pela vergonha que estou sentindo.

Me levanto da melhor forma que posso e tento correr até as escadas, nem sei dizer o porque estou fazendo isso sendo que é óbvio que Michel vai me alcançar antes que eu consiga descer um mísero degrau.

- Não foge não! – Ele rí me puxando para trás pelo ombro – Você disse que a gente ia se divertir!

Então Michel me acerta na perna esquerda com a barra de ferro, eu caio de joelhos enquanto gemo de dor. Ele ri mais e então acerta a barra no meu braço direito. Se não quebrou foi quase, porque a dor foi insuportável, não consigo evitar de chorar agora.

- E ai gata, cadê a diversão? Eu estava esperando mais de você! – Ele diz atirando a barra escada a baixo. Então ele se aproxima e puxa meu cabelo pra trás, expondo meu rosto e meu pescoço – É isso o que você merece por ter feito o que fez com meus amigos. – Ele sussurra e então segura meu pescoço com ambas as mãos.

Desespero é o que estou sentindo agora, estou com medo, muito medo, medo de morrer. Acho que deve ser nesse tipo de situação, e com exatamente esse sentimento que as pessoas fazem coisas impensadas...

Quando dou por mim Michel já me soltou e está agora segurando o próprio pescoço enquanto cospe sangue, sem perceber eu cravei o estilete que estava na minha esquerda em seu pescoço. Ele está me olhando surpreso e, imagino, com o mesmo olhar de medo que eu a pouco deveria estar.

Me levanto da melhor forma que consigo, meus joelhos doem por conta do impacto com o chão e minha perna está roxa. Minha mão esquerda está com o sangue fresco de Michel, eu a limpo na minha coxa nua, meu braço direito está dormente, não consigo movê-lo.

Caminho desajeitada até onde está Michel, ele se encolheu na parede e seu sangue está se espalhando pela plataforma. O sol que está nascendo o cobre de um tom acobreado e faz o sangue parecer uma poça laranja. Me abaixo perto de Michel, ele está caído agora, tremendo.

- Isso é pelo o que você e seus amigos fizeram com todas aquelas garotas. – Digo e então risco a letra M em sua bochecha . Quando termino percebo que ele parou de se mexer, sua respiração está curta e irregular, ele certamente vai morrer por conta da quantia de sangue que perdeu, e imagino que essa deva ser uma morte agonizante, o que me deixa muito feliz.

Arranco a camisa ensanguentada de Michel e visto com certa dificuldade, procuro as chaves do carro em seus bolsos e fico muito feliz quando as encontro. Sem pensar muito eu desço as escadas e sigo me arrastando como posso até o carro – primeiro de tudo: preciso sair daqui.

Seria mentira dizer que me desesperei, por conta de polícia e tudo o mais, na verdade eu estava disposta a assumir as três mortes, receber um julgamento e todo o resto, o que eu não queria era que dizessem que Michel e seus coleguinhas eram inocentes, porque isso eles não eram.

Assim que cheguei no carro procurei minha mochila, eu havia trazido roupa reserva. Me vesti e então liguei o carro; eu não tenho habilitação, mas minha mãe deixa – deixava – eu dirigir quando ela ainda tinha um palio, ha uns dois mil anos atrás. Consigo me lembrar perfeitamente como fazer -  embreagem, acelerador e freio. Logo estou na estrada e graças a Deus não demoro pra chegar em casa.
Minha felicidade acaba quando ao virar a esquina de casa vejo grande quantidade de fumaça, carros de bombeiro, uma ambulância, os vizinhos desesperados na calçada e um repórter com uma câmera e um microfone noticiando uma explosão que destruiu completamente uma casa e matou a Sra. Sivi Guerin – minha mãe.


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