Terminei meu cigarro e peguei
uma barra de chocolate dentro da bolsa. Sempre sinto fome depois da minha
“brincadeira”. Caminho até a beirada da cama onde estão as pernas dele, eu as
empurro mais para o canto e me deito confortavelmente. Quando estico minha mão
a procura do maço de cigarros, encontro uma das mãos dele – como era mesmo o
nome dele? Carlos, eu acho. Puxo sua mão e a coloco sobre sua coxa.
Estou me sentindo meio
nostálgica hoje, a mão de Carlos é tão parecida com a mão de Michel, grande e
pesada, dedos longos e finos. Isso me faz lembrar de como Michel foi um idiota
comigo, e de como eu devolvi na mesma moeda o que ele me fez, ou talvez um
pouco mais caro...
***
Michel parou o carro em uma
fábrica velha de reciclagem que já estava abandonada há pelo menos uns 10 anos.
Ele me disse que tinha que fazer umas coisas antes da gente ir pra outro lugar,
só nos dois.
- Relaxa gata. Os caras vão
ficar aqui na fábrica e a gente vai pra outro lugar. – Ele disse estendendo a
mão num gesto como a pedir que eu saísse do carro.
No fundo o meu subconsciente
gritava para que eu não segurasse a mão dele, mas eu estava disposta a pagar
pra ver. Saí do carro e nós quatro – eu, Michel e os dois amigos – seguimos
para dentro da fábrica.
A fábrica na verdade não
passava de um grande galpão com algumas salas menores espalhadas em três
andares. No primeiro andar haviam inúmeras esculturas feitas de todo tipo de
material, inclusive ferro. Michel me guiou até o segundo andar onde havia uma
sala maior, dentro havia um sofá marrom velho e sujo, uma mesa de escritório de
madeira com uma poltrona de couro, atrás da mesa um armário com papéis
amarelados e ao lado da porta uma estante cheia de pastas.
Enquanto eu me distraia com a
sala um dos amigos de Michel entalhava alguma coisa na porta, o outro amigo
tentava abrir uma janela emperrada, e por fim Michel trancou a porta por
dentro.
Com o barulho da maçaneta
enferrujada eu me virei para ver o que estava acontecendo, só então entendi o
que o primeiro cara estava entalhando na porta: meu nome.
- O que tá acontecendo Michel?
– Eu perguntei enquanto ia me afastando da porta e me aproximando da janela,
então esbarrei no outro amigo de Michel, que me segurou na mesma hora.
- Mariazinha... – Michel disse
caminhando em minha direção – Eu e meus amigos concordamos que você é muito
bonita pra ser de um cara só, e como somos muito amigos queremos dividir você.
O cara que estava na porta se
levantou e então pude ver que entalhado na porta, acima do meu nome, havia mais
13 nomes, todos de garotas, e todos datados – um nome a cada três ou quatro
meses pelo que deu pra entender.
- Michel... Por que isso? A
gente não tinha combinado... – Eu tentei falar, mas as palavras simplesmente
sumiram.
- Shhh... – Ele fez e colocou o
indicador sobre meus lábios – Não precisa falar gata. A gente combinou uma
coisa, mas eu prefiro dessa forma. E meus camaradas também. Então, se você se
comportar, a gente te leva pra casa depois, numa boa. – Michel segurou meu
queixo e se aproximou, ficando com os lábios rentes aos meus – A gente vai se
divertir docinho. – Ele disse sorrindo.
Então o cara que havia
entalhado meu nome na porta usou o estilete pra cortar minha camisa e meu
sutiã. Depois riscou a inicial de Michel acima do meu umbigo. Eu não senti dor,
pelo menos não a mesma dor que qualquer garota sentiria - eu me cortava quando
era mais nova, então aquilo era nada pra mim.
Michel começou a lamber meus
seios e a me tocar, o cara atrás de mim não demorou pra ficar excitado e
começou a lamber o lóbulo da minha orelha. O cara com o estilete começou a
cortar minhas calças, e assim que conseguiu partiu para a minha calcinha. Seria
hipocrisia eu dizer que não estava gostando, apesar de estar muito assustada,
mas enquanto era Michel que me lambia, chupava e tocava eu não me importava – a
ideia era transar com ele desde o início.
Mas nada acontece como a gente
quer, e não rolou como eu planejei. O cara do estilete dispensou o objeto na
poltrona de couro e brutalmente abriu minhas pernas, Michel começou a meter em
mim pela frente e o cara que estava me segurando começou a meter em mim por
trás. Eu não consegui não gritar, comecei a chorar e a me debater.
- É melhor não gritar vadia,
porque ninguém vai ouvir. – O cara que me segurava disse no meu ouvido.
Isso me deixou tão desesperada
que, não sei dizer como, consegui soltar uma mão e acertar um deles, mas a
recompensa foi um soco que me fez desmaiar e acordar duas horas depois.
Eu estava nua e sangrando,
jogada de bruços sobre o sofá, sentindo uma dor horrível na mandíbula e entre
as pernas, raiva é pouco perto do que senti, na verdade nunca fui muito boa em
controlar minha raiva, eu batia nas outras crianças na escola, eu mutilava
pequenos animais e gostava de atear fogo em mariposas e borboletas, isso me
acalmava.
Mas agora eu estava com sede,
sede de sangue, não estava conseguindo me controlar. Me levantei vagarosa e
dolorosamente, me apoiei na mesa pra conseguir ficar de pé e então notei que o
estilete ainda estava onde o amigo idiota do Michel o largou. Nem pensei, apenas
o peguei.
Caminhei até a porta e então
ouvi vozes vindas do corredor – Michel estava com um dos amigos fumando um
baseado. Consegui ouvir algo como “vou ver como ela ta” e “chama o Nil pra
gente ir”. Então voltei a deitar no sofá, na mesma posição em que acordei,
escondendo o estilete em uma das mãos.
O primeiro a aparecer foi o
cara que me segurou. Ele entrou sem cerimônia e foi logo na janela, olhou pra
fora como se estivesse procurando alguém, então voltou para perto e puxou meu
cabelo para ver meu rosto, então se inclinou para tentar me virar, foi então
que eu fiz. Não pensei em nada, apenas fiz – enfiei o estilete na garganta,
próximo à jugular dele e puxei rasgando na direção da traqueia, então ele
cambaleou para trás me olhando com cara de surpresa e segurando o corte,
engasgando com o próprio sangue, ele se encostou ao armário e foi escorregando
até ficar sentado no chão.
Caminhei até onde ele estava e
falei ao seu ouvido: “É melhor não gritar vadia, porque ninguém vai ouvir.” Foi
algo horrível de se dizer a alguém que não teria como gritar, mas eu estava
possuída pela minha doce vingança, e isso me satisfazia. Então ouvi um barulho
nas escadas de metal e duas vozes – era Michel e o cara do estilete. Saí da sala
e encostei a porta de leve, me arrastei pelo corredor e segui até o terceiro
andar, me escondi atrás de uma pilastra ao lado de uma alavanca, onde havia um cabo
de aço sustentando um gancho enorme, que provavelmente servia para carregar as
peças de ferro que eram reutilizadas para criar as esculturas do primeiro
andar.
Na minha cabeça a sensação era
maravilhosa, meu coração acelerado, minhas mãos tremendo e suando frio – era
como queimar uma mariposa. Eu estava destruída, morrendo de dor, mas estava com
ódio, e isso me dava a força necessária pra terminar o que havia começado.
Então eu ouvi alguém xingar e a
gritar meu nome, provavelmente já haviam encontrado o pobre amigo banhado em
sangue. Logo em seguida ouvi passos nas escadas novamente, de onde eu estava
dava pra ver Michel no primeiro andar, ele estava com alguma coisa na mão,
talvez uma barra de metal. Então se ele estava no primeiro andar era o amigo
dele quem estava subindo para o terceiro, onde eu estava.
Acho que fiquei com pena do
Nil, ele estava andando tão cauteloso e com uma cara tão medrosa... Ele passou
pela escada onde eu estava e seguiu até o fim do corredor, então enquanto ele
se distraia olhando entre as caixas vazias empilhadas na frente da última sala,
eu puxei o gancho até o corredor e estiquei o cabo de aço o máximo que consegui.
- Olá Nil... – Eu disse e
soltei o gancho.
Nil mal teve tempo de olhar pra
mim e o gancho o acertou em cheio. Nil era alto e magro, do tipo que todo mundo
tira sarro na escola, e acho que acertar ele com o gancho foi uma jogada de
mestre, já que o gancho atravessou sua barriga, varando nas costas. Então eu
fui até a alavanca e a acionei, quando fiz isso o gancho arrastou o corpo de
Nil, que ainda se debatia, para o centro do galpão, e então desceu até o
primeiro andar. O que achei mais lindo foi o fato de Nil ficar suspenso sobre
um cavalo enorme de PVC, o sangue escorrendo deixou a visão digna de se
considerar uma obra de arte.
Posso dizer com toda a certeza
que os 7 anos que passei em clínicas psiquiátricas só me ajudou a compreender
os outros, e nunca a mim mesma. Neste momento eu entendia a perversão da mente
de Michel e os dois amigos, entendia que estavam doentes e psicologicamente
instáveis, entendia que precisavam de tratamento, mas na minha cabeça eu não
podia aceitar que eu era só mais uma na lista de tantas garotas maltratadas e
abusadas pelos três. Por isso eu estava satisfeita com o rumo das coisas.
- Cadê você, sua vadia? Eu vo
te matar! – Ouvi Michel gritando enquanto subia as escadas correndo.
- Estou aqui meu bem, estou
aqui... – Respondi fazendo barulho no corrimão enferrujado.
Eu comecei a rir e a chorar, as
lágrimas lavavam meu rosto sujo e coberto de sangue seco. Eu estava confusa e
com medo, uma parte minha sabia que eu estava matando pessoas, que isso era
errado e que eu pagaria por isso, mas uma parte maior achava aquilo comum e
necessário, na verdade essa parte achava que tanto eu como as demais garotas
mereciam vingança, e então eu me vesti completamente com esse sentimento e me
arrastei até o pé da escada, me apoiando em uma mão no corrimão para não cair,
com o estilete na outra e uma sede incontrolável de sangue na boca.
Não demorou muito até Michel
chegar ao terceiro andar, quando me viu sua expressão me deliciou, aquela cara
incrédula e o ar de surpresa, típico de quem perde o controle da situação. Eu
abri um sorriso enorme, foi tão espontâneo que até me surpreendi.
- Finalmente a sós, amor. – Eu disse
me segurando para não cair, minhas pernas de repente pareciam gelatinas.
Michel me fuzilou com o olhar e
começou a subir a longa escada.
- Isso tudo já foi longe
demais... – Dava pra sentir a reprovação e a revolta na voz de Michel, e isso
só me fazia sentir mais raiva, ele não tinha o direito de se sentir assim.
- A não meu amor – Eu disse me arrastando pra longe do topo da escada – Apenas começou, e como você mesmo disse, “A gente vai se
divertir docinho”.

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