segunda-feira, 29 de junho de 2015

III


A mulher se aproximou e recuei, receoso.
– Você salvoua vida da minha menina na floresta, quero apenas agradeçe-lo com um ensopado e um abrigo. – disse e então sua expressão se tornou severa enquanto se aproximava mais. – Vai acabar doente se continuar nessa chuva. Vista isso.
Peguei o casaco que ela me ofereceu e joguei sobre os ombros, porém o frio parecia grudado em meus ossos. Minha menina? Ela estava se referindo a garota que eu havia salvo? Mas ela não havia me visto... havia? A mulher fez um gesto para que eu a seguisse e comecei a seguir pela trilha quase invisivel entre a lama e folhas mortas. Logo eles chegaram a um muro, onde uma planta trepadeira quase o tinha coberto por inteiro, e entraram por um pequeno portão de ferro. Havia um grande jardim, mas como o céu ja estava escurecendo dava para ver poucos detalhes dele. Havia uma trilha de pedras irregulares que levava até uma porta entreaberta, que deixava uma nesga de luz vazar. A mulher se aproximou e abriu a porta e vi uma cozinha iluminada, uma mesa de madeira com algumas tigelas prontas para serem servidas. Era um lugar aconchegante e atraente depois de todos os dias que havia passado longe de tal conforto. Ela tirou as botas e entrou, colocando o guarda-chuva em um canto, e então se virou com as mãos na cintura, o analisando.
– Entre, não pretendo comê-lo.
Dei um passo para dentro. O fogão dela era a lenha, mas o calor dali não parecia suficiente.
– Meu filho tem aproximadamente seu tamanho, as roupas dele irão servir. – observou ela. – Venha comigo.
Dei outro passo e então senti tudo escurecer e me apoei na mesa para não cair. A mulher veio até onde eu estava e colocou sua mão fria em minha testa.
– Deusa divina! Voce está ardendo em febre. – exclamou, e senti vagamente suas mãos tentando me segurar. – Se apoie em mim, querido.
– Não precis...


Cinco soldados entraram na sala, pisando sobre a porta caída no chão e entre eles, um homem ruivo com os cabelos penteados para trás e um bigode bem aparado. Usava uma roupa elegante e sorria. Era incrivel o fato da minha mente ter registrado fatos tão insignificantes como esse e não lembrar da conversa. O ruivo era o regente Eliwood. Ele havia discutido com meu pai, mas as palavras pareciam ser ditas debaixo d'água. Os soldados seguraram meu pai, um segurando cada braço, e Eliwood tirou sua espada de ouro da bainha, perfurando-o no coração. Um grito agudo ecoou e os soldados puxaram o corpo do meu pai, o jogando em um canto como um boneco, e eu podia ver seus ultimos espasmos e o sangue que começava a manchar sua blusa. Senti vagamente as mãos de minha mãe em meus ombros,me puxando para si. Eu não conseguia tirar os olhos de meu pai, sua boca se movendo com grande esforço, tentando dizer algo. Eliwood se aproximava de onde eu e minha mãe estávamos, a espada suja com o sague do meu pai.
– Logan... – chamou meu pai, e sua voz não estava abafada. Apesar de fraco, pude ouvir claramente o chamado. Queria ir até onde ele estava, mas minha mãe me segurava. Gritei.


– Calma, calma. – disse a mulher empurrando meus ombros de modo que eu me deitasse.
Eu estava em uma cama, seco e com um cobertor me cobrindo até a cintura. A mulher tinha uma das mãos no peito, e me levantei devagar.
– O que houve? – indaguei.
– Quase me matou do coração. – disse ela e então suspirou. – Você perdeu a consciência, provavelmente devido a febre, mas vejo que agora está melhor...
– Onde está meu arco? – perguntei olhando ao redor.
– Ali. - disse indicando um canto e respirei mais aliviado. – Só estamos nós dois nesse quarto e eu não pretendo matá-lo.
– Me perdoe, não quis ofende-la... Sou grato...
– Não o culpo. – disse colocando um pote com ensopado em minhas mãos e minha barriga vibrou. – Não é facil confiar em desconhecidos hoje em dia. Me chamo Anita, e você?
Pensei se deveria omitir meu nome, mas não vi motivo para isso.
– Logan.
– Veio de Salvatore?
– Sim... - respondi hesitante, analisando o seu rosto,mas ele não me dizia nada.
– É uma bela cidade. Por que está tão longe? É algum escravo ou fugitivo?
– Se eu fosse a senhora iria me denunciar?
Ela deu um breve riso.
– Não sou esse tipo de pessoa, Logan. – disse séria, então apontou para meu pescoço, onde descansava o relicário e a pedra da lua. – Eu tirei de você para poder te dar banho – corei, mas ela continuou –, e como achei seu rosto familiar, olhei a foto dentro do relicário... É Cliff nesta foto, não?
– Você conheceu meu pai? - indaguei surpreso.
– Sim, desde menino. Éramos da mesma aldeia. Há muito que eu não o vejo. Por onde ele anda?
Toquei o relicário que estava quente ao toque.
– Ele foi morto. – as imagens repassavam pela mente, e me sobressaltei quando ela tocou minha mão que segurava a colher.
– Ele foi um grande homem, Logan, e agora que sei que é filho dele faço questão de cuidar de você. – disse com um sorriso bondoso. – Agora coma e descanse ou não vai se recuperar.
Ela se levantou.
– Obrigado...
Anita deu mais um breve sorriso e saiu, fechando a porta atrás de si. Tomei o ensopado, sentindo-me um pouco melhor a cada colherada, o calor das cobertas e o conforto da cama me fazendo relaxar, e rapidamente adormeci, a exaustão me vencendo.

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