Às seis da manhã em ponto ela estava de pé. Julian havia ligado para Kai, que estava a caminho com o garoto, e em breve chegaria. Ofereceu a ela uma xícara de café e ela aceitou, sentando-se no banco diante do balcão da cozinha estilo americana. Ela olhou para ele por cima da xícara, e ele se sentiu um pouco constrangido.
– Minha mochila... – começou ela e ele indicou a mochila que estava sobre o sofá. – Hmm... e minhas armas?
– A que você estava usando eu não consegui recuperar. – disse. – Se tiver alguma outra, está dentro da mochila.
– Droga. – disse ela. – Eu gostava daquela arma.
– Posso te fazer uma pergunta? – ela o olhou um pouco desconfiada e ele sorriu um pouco. – Não como detetive, apenas como Julian.
– Pergunte.
– Porque a mascara?
– Quando consegui as minhas armas, peguei alguns ladrões para a policia.
– Tipo homem-aranha? – perguntou com um meio sorriso.
– Tipo isso. – disse um pouco ausente. – No começo eu só os algemava, mas eu sabia que precisava me preparar para matar os grandes vilões da minha vida, então matei um estuprador uma vez... – seus olhos estavam distantes. – Não gosto de matar pessoas. Pode parecer estranho, mas não gosto de violência, apesar de tudo.
– Parece muito estranho, se me permite dizer.
Ela deu um breve sorriso.
– Eu sei.
A campainha tocou. Ele se levantou e foi até a porta. Kai já estava com o uniforme, e o garoto estava grudado no braço direito dele, com o rosto assustado.
– Entre.
Ele entrou com o menino, e o detetive fechou a porta. Virou-se para o pequeno.
– Gosta de torradas?
O pequeno fez que sim com a cabeça timidamente. Os cabelos loiros formavam cachos que o deixavam com uma aparecia angelical. Assim que ele viu Hiyori, soltou Kai e foi até ela a abraçando e ela pareceu tão surpresa quanto todos.
– Amaterasu! – disse Kai, e olhei confuso dele para ela.
– Muito engraçado, senhor policial. – disse ela com ar divertido, mas não aprovando totalmente o que ele dissera.
– Poderiam não falar japonês perto de mim? Eu não tenho nenhuma noção desse idioma.
Ela deu um sorriso, e voltou sua atenção ao garoto, lhe dando uma torrada com manteiga.
– Amaterasu é uma deusa. – disse Kai, um pouco vermelho.
– Isso foi uma cantada? – perguntou Julian sorrindo, e o amigo deu de ombros, ainda tímido.
– Uma vez vi uma imagem da deusa do sol, e ela se parece com a deusa retratada... não era pra soar uma cantada.
– Ok. Sente-se, tome um pouco de café.
Eles se sentaram.
– Hiyori, este é Kai Tachibana. Foi ele quem traduziu os bilhetes da sua irmã pra mim.
– Você é a onee-san da pequena? – disse.
– Sim. – respondeu ela, parecendo um pouco embaraçada. – Me desculpem por ela. Ela não costuma se envolver assim.
– Foi uma experiência e tanto ver o lápis escrevendo sozinho no bloco de notas. Pensei que estava ficando louco, mas não consigo negar depois da informação passada ser correta. – disse Julian. – Mas eu realmente pensei que estivesse enlouquecendo.
– Eu vejo ela desde sempre, portanto estou acostumada. – disse e então entregou mais uma torrada ao menino.
– Você vê? – indagou os dois juntos, e o menino deu um breve sorriso.
– O que? Algo errado nisso? – disse ela e então se levantou. – De qualquer modo, não há mais nenhum assunto a tratar aqui. Preciso levar o garoto para o pai.
– E depois? – perguntou Julian.
Ela o olhou por um tempo, sem dizer nada, e Kai se mexeu na cadeira ao lado, incomodado com o silencio. Quando o detetive pensou que ela fosse virar e pegar a mochila, ela respirou fundo.
– Depois... falta só mais um e o próximo é Gregorovich. E depois não tem mais nada.
E dessa vez ela pegou a mochila e saiu.
– O que foi isso? – indagou Kai confuso.
– Kai... ela é a assassina que eu estava procurando.
– Aquela moça? – perguntou admirado, e deu um meio sorriso. – Sério?
– Sim. Ela tem armas e munições dentro daquela mochila e, além disso, ontem ela confessou pra mim.
Então o detetive explicou sobre Gregorovich. Tachibana não parecia impressionado.
– Na verdade senhor, eu tenho investigado ele... mas não tinha nenhuma provas substanciais que pudesse usar. Inclusive acho que meu parceiro atirou porque sabia que aquilo me afastaria da investigação. Ele é um homem perigoso.
– O que eu devo fazer?
– Eu não sei você, mas eu vou indo. – disse consultando o relógio, e se levantou.
– Vamos juntos. – disse pegando o casaco, e os dois saíram.
・・・
Mais tarde naquele mesmo dia, Julian olhou para o cinzeiro. Haviam cinco pontas de cigarro e ele estava fumando mais um. Estava com as pastas diante dele, uma aberta, porém a mente estava divagando. Gregorovich. O amigo de Kai provavelmente sabia de algo sobre ele, se não trabalhasse pra ele. Estava curioso por saber mais, mas sabia que não podia mexer nisso. Sentia que havia deixado passar algo importante, mas sua mente parecia se recusar a processar essa informação. Alguém bateu na porta quebrando seu fluxo de pensamentos.
– Entre.
Era um rapaz talvez da sua idade, cabelos castanhos, e um olho começava a inchar de um provável soco muito bem dado. O detetive olhou para ele, e ergueu uma sobrancelha, interrogativo.
– Você é Julian Galagher?
– Sim. Em que posso ajudar?
– Vim a pedido de Gregorovich. – Julian sentiu os pelos da nuca se arrepiar. – Ele te mandou um recado muito importante.
– Estou ouvindo.
– Ele disse para você parar o que está fazendo. Parar de mexer onde não deve. Você deve tratar do que foi contratado para fazer. Caso contrario, seu destino você provavelmente já conhece.
O detetive tragou a fumaça, em silencio por alguns instantes.
– Certo... – respondeu depois de um tempo. – Eu entendi a mensagem, algo mais?
O rapaz balançou a cabeça de modo negativo, e então se retirou. Julian se levantou sentindo uma necessidade enorme de cafeína. Achava que sabia o que ia fazer em seguida, mas precisava de café para pensar.

Hiyori de J. Carstairs está licenciado com uma LicençaCreative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
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