sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Um conto de Peter O'Brian - Cartas, versos e chá com limão

   Existem momentos na vida de um homem em que fica dividido entre a razão e a emoção! São aqueles momentos em que somos inclinados, talvez por destino ou por nós mesmos a seguir nossos instintos mesmo sabendo que isto pode nos levar ao fim de tudo.

  Passei a noite em claro, rolando de um lado para outro na cama pensando nas palavras que Lis me dissera, não podia deixar de notar o quanto ela tinha se arriscado em me trazer aquela carta e o quanto ela confiava em mim por ter contado um segredo tão forte. Levantei e me sentei na beira da cama retirei o envelope pequeno que guardei debaixo do travesseiro, abri pela oitava vez e senti o leve aroma almiscarado e li seu conteúdo em voz baixa, ela havia escrito um soneto de Shakespeare e uma nota singela ao final dizendo “Espero de coração ansioso temeroso por sua resposta”.

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou."

Decidi então escrever a resposta, pela décima ou vigésima vez, não sei... Já havia perdido a conta de quantas vezes tentei escrever a tal carta, umas pareciam atiradas demais e outras frias de mais. Tentei mais algumas vezes quando decidi escrever algo que simples, mas com algum significado.

 " Luz dos meus olhos, dona dos meus pensamentos.
   Preciso dezer-te sobre meus sentimentos.
   Tu não me conhetes tão pouco eu a conheço.
   Mas faço deste meu mais sincero pedido.
   Ver-te pessoalmente eu preciso.

    Amor  P.O ."
 
  Ao acordar fui direto ao encontro de madame Lis para entregar a carta de resposta e para minha surpresa o destino brincalhão aprontou novamente. Ao descer da carruagem numa das ruas próximo à tipografia que trabalhava avistei Madame Lis entrando na única casa de chá que existia ali, sem pensar no que estava fazendo, fiz um sinal para que o cocheiro parasse e desci, atravessei a rua e entrei na casa de chás.
   E lá estava ela novamente, sentada na mesma mesa discreta em que eu havia visto outro dia a espera de alguém. Escolhi uma mesa que ficasse bem a vista onde ela poderia me ver e pedi uma xicara de chá preto com limão, quando escuto uma voz feminina, mas ainda sim forte dizer.
- O mesmo para mim, por favor!
- Sim Madame.
Disse o garçom para Lis que educadamente fez um sinal com a cabeça em agradecimento, sentando delicadamente numa cadeira que o garçom havia posicionado. Apesar de ser uma cortesã conhecida, Liz também era uma mulher extremamente educada e feminina.
- Vejo que o senhor tem um bom gosto para chás!
- Bem como a senhorita...
- Então, já desistiu dos seus sentimentos pela senhorita "C"?
- Não; claro que não!  Você faz uma ideia errada de minha pessoa?
- Bom então, diga-me. Quem é você?
   A pergunta de Madame Lis silenciou-me por alguns segundos, eu não sabia como responder não por que fiquei intimidado por ela, mas por que eu fora preso por ideias e convenções familiares que agora que estava livre e por minha própria conta e risco, tinha medo de dar um passo no escuro.
- Na verdade, sou um homem que nunca se apaixonou, na vida!
- Eu sei disso, e notório para mim!  Em minha conheci muitos homens e mulheres, com vidas diferentes e segredos diferentes, mas todos tem algo em comum... Um medo que não contão para ninguém e no fim das coisas eu sou a única “livre das convenções" para entendê-los.
 Tomamos o nosso chá, enquanto conversávamos sobre diversas coisas e histórias engraçadas do bordel, ate que eu discretamente entreguei a ela o bilhete que escrevi a tinta para Claudia. Ela sem se importar com a intromissão ao que tinha escrito abriu o bilhete e o leu olhou-me ao findo dos olhos e perguntou.
- Quantas horas você levou para escrever estas poucas linhas?
- A noite toda!
- encontre-me em minha casa hoje as 16 h em ponto, vá pela porta dos fundos... Pedirei para Anette, uma das minhas protegidas de confiança para te esperar na esquina. Tenho uma surpresa para você.
  Fiquei tão ansioso para chegar na hora de ir ao tal encontro que errei em meus textos para o jornal pelo menos cinco vezes... Jean, meu chefe e ate o momento único amigo, ficou muito desconfiado com minhas atitudes nas ultimas semanas.
- Peter, oque esta acontecendo com você? Comete erros nos textos, chega atrasado quase todos os dias e sem falar que nunca mais saímos juntos...
- Nada Jean, estou normal!
 Eu disse com uma voz tremula, lembrando-me do que Liz havia me dito sobre não contar a ninguém sobre mim e Claudia, mas não pode esconder meu rosto ficando vermelho.
- Você esta escondendo algo... De mim?        
- Não...
- Quem é ela?
- Ninguém, não tem ninguém!
- Não minta pra mim... Você sabe que eu descubro!
  Jean Charles é definitivamente um mistério ambulante, ele tinha todas as mulheres que quisesse conhecia todas as pessoas interessantes, mas eu nunca o vi com alguém de fato ou se quer apaixonado... Às vezes até duvidava da masculinidade tão exaltada por ele próprio... As únicas vezes em que o vi na companhia de alguma dama era quando saímos para a casa de madame Lis que apesar de ser o lugar mais caro da cidade ele sempre teve "passe livre" para entrar e passar a noite com a mesma mulher. A qual eu nunca consegui lhe arrancar o nome.
   As horas passaram e já batam quase 15h30min, sai o mais depressa que pude antes que alguém nota-se, ou melhor, antes que Jean me barrasse na porta com milhões de perguntas, insinuações e todos aqueles "jeitos" de brincar com as mãos. Cheguei exatamente na hora e no local marcado, onde uma jovem de cabelos negros e pele clara e suave me aguardava, na verdade ela nem parecia exatamente uma cortesã belas trajando um vestido azul claro, os cabelos negros e cacheados amarrados em um coque, lábios rosados e bem desenhados com uma pinta no canto superior direito e olhos cinza esverdeado.

   Ao chegarmos, nos fundos de um grande prédio, onde tinha uma porta de ferro, Anette retirou uma pequena chave do meio de seus seios e abrir a porta, subimos as escadas e ao adentrar o quarto de Madame Lis, para minha surpresa Claudia estava a minha espera!  

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